Cá prosseguimos com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo texto, o tema centra-se no romance de Lídia Jorge, “O Vento Assobiando nas Gruas”, obra publicada em 2002, cuja ação decorre no sotavento algarvio, em finais da década de 90 do século XX. Lídia Jorge nasceu em 1946, em Boliqueime, no concelho de Loulé. Cresceu num Algarve antigo e profundo, esse que existia antes da explosão do turismo de massas. No entanto, em “O Vento Assobiando nas Gruas”, é do Algarve contemporâneo que ela nos fala, uma região fortemente marcada pelo excesso de construção civil e pela consequente transformação da sua paisagem original. É em Loulé, perto donde Lídia Jorge nasceu e cresceu, que encontramos a Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen. Foi bem nomeada a biblioteca, pois apesar de Sophia ter nascido no Porto e vivido a maior parte da sua vida na Graça em Lisboa, a poeta homenageou em muitos dos seus poemas um Algarve de lenda. Para Sophia, o Algarve era ...
Continuamos com a nossa série estival, dedicada a Verões desastrosos. Hoje, para este nono texto, o assunto é o livro “Os Anos”, da escritora francesa e Prémio Nobel da Literatura de 2022, Annie Ernaux, mulher nascida a 1 de Setembro de 1940, que acima vemos numa fotografia antiga, na companhia dos seus dois filhos. Em “Os Anos” de Annie Ernaux, as férias de Verão funcionam como marcos sociais que vão revelando a evolução da sociedade francesa, as mudanças nos rituais de descanso e a ascensão do turismo de massas ao longo das últimas décadas. No entanto, e para além desse seu lado social, as férias de Verão são na escrita de Ernaux igualmente um tempo íntimo e pessoal, um espaço de encontros e rupturas, de leituras e de um desejo (sempre frustrado) de escapar por um breve tempo às rígidas obrigações e regras do dia a dia. Mas antes de mais, o que são na realidade as férias de Verão? É a esta interrogação que vamos tentar responder, para só depois irmos mais detalhadamente a “Os Anos” d...