O título deste texto é enigmático, todavia, o mistério que dele se desprende, só se desvendará mesmo no final. Até lá chegarmos, passaremos por Roma, Buenos Aires, Osaka, Leça da Palmeira e Lisboa, sendo esta última a cidade onde tudo se deslindará. Quando ouvimos dizer de uma qualquer cidade, que ela é como uma floresta de cimento, isso nunca é dito em tom de elogio, antes pelo contrário, o timbre usado é sempre o de desdém. Sim, há quem imagine as cidades ideais como uma espécie de espaço ajardinado, com bonitas casinhas lá pelo meio, dessas construídas com materiais tradicionais e que possuem beirais, quintais e lindas telhas da ancestral cerâmica. Há quem gostasse que as cidades fossem todas feitas de casas portuguesas, com certeza com pão e vinho sobre a mesa, quatro paredes caiadas e um São José de azulejos. Dito isto, nós por aqui preferimos cimento. Comummente usam-se os termos cimento e concreto como se fossem sinónimos, contudo, são coisas um pouco diferentes. O cimento é um ...
Uma das coisas de que mais gostamos é de pegar em premissas estabelecidas, em frases feitas, em ideias pré-concebidas, em dogmas e certezas e depois dar-lhes a volta, ou seja, transtorná-las, abaná-las, desgastá-las e sujá-las. O mesmo é dizer que não apreciamos verdades indubitáveis, dessas escritas na dura pedra, preferimos antes verdades irregulares, tais quais como essas pedras incertas que atravessam o tempo no jardim do templo de Ryoanji em Quioto, no Japão. Há muito quem adore ter rectas crenças, limpas, puras e duras, seja lá qual for o assunto em questão, mas gostando nós de achavascar, fazer oscilar e tremer certezas, hoje em dia deparamo-nos não raras vezes com a quase impossibilidade de o conseguirmos efectuar. O problema resume-se do seguinte modo: quem é dado a infalíveis certezas, mesmo que as veja sujas, abaladas e abanadas, ainda assim, refugia-se em certos clichés contemporâneos, que lhe permitem não sair do mesmo exacto sítio. Ponhamos um exemplo, quando alguém após ...