Há na época estival quem perca a cabeça e gaste mais de que o que devia em viagens, restaurantes e hotéis. Há também quem perca a cabeça com um amor de Verão, daqueles que estão destinados a acabar mal. Depois há ainda quem perca a cabeça no estio e aproveite para fazer largas noitadas e beber até cair. Todas essas são actividades potencialmente desastrosas, no entanto, o que é realmente desastroso é perder-se literalmente, e não só metaforicamente, a cabeça. Continuamos hoje com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo segundo texto e penúltimo, centramos-nos no romance “O Estrangeiro, obra de 1942, do escritor Albert Camus (1913-1960). Camus amava os prazeres terrenos, o sol do Mediterrâneo, o futebol e o teatro, equilibrava a sua filosofia existencialista com uma imensa alegria de viver. Era conhecido pela sua personalidade magnética, pela requintada elegância e pela sua intensa, variada e extensa vida amorosa. Era uma figura muito querida e admirad...
Continuamos hoje com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo primeiro texto, centramos-nos no romance “Villa Triste”, obra de 1975, do escritor francês e Prémio Nobel da Literatura em 2014, Patrick Modiano. Há muito quem se ponha a recordar antigas férias de Verão. Há muito quem queira reviver outros tempos estivais e deles se lembre com carinho e saudade. Há também quem no presente, pretenda descobrir um sentido e significado nalgum Verão distante, no entanto, todas essas tarefas são em essência inúteis, pois o passado não pode ser decifrado ou recuperado e dele restam-nos apenas vagas impressões, meras ilusões e incertos reflexos. Em síntese, a nossa memória, por afinada que seja, é sempre um desastre. Num poema de Ruy Belo, diz-se a determinado momento o seguinte: “É triste no outono concluir que era o verão a única estação” . Este verso poderia muito bem sintetizar o livro “Villa Triste”, pois nesse romance, o período estival é vivido como se fosse um t...