Continuamos hoje com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo primeiro texto, centramos-nos no romance “Villa Triste”, obra de 1975, do escritor francês e Prémio Nobel da Literatura em 2014, Patrick Modiano. Há muito quem se ponha a recordar antigas férias de Verão. Há muito quem queira reviver outros tempos estivais e deles se lembre com carinho e saudade. Há também quem no presente, pretenda descobrir um sentido e significado nalgum Verão distante, no entanto, todas essas tarefas são em essência inúteis, pois o passado não pode ser decifrado ou recuperado e dele restam-nos apenas vagas impressões, meras ilusões e incertos reflexos. Em síntese, a nossa memória, por afinada que seja, é sempre um desastre. Num poema de Ruy Belo, diz-se a determinado momento o seguinte: “É triste no outono concluir que era o verão a única estação” . Este verso poderia muito bem sintetizar o livro “Villa Triste”, pois nesse romance, o período estival é vivido como se fosse um t...
Cá prosseguimos com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo texto, o tema centra-se no romance de Lídia Jorge, “O Vento Assobiando nas Gruas”, obra publicada em 2002, cuja ação decorre no sotavento algarvio, em finais da década de 90 do século XX. Lídia Jorge nasceu em 1946, em Boliqueime, no concelho de Loulé. Cresceu num Algarve antigo e profundo, esse que existia antes da explosão do turismo de massas. No entanto, em “O Vento Assobiando nas Gruas”, é do Algarve contemporâneo que ela nos fala, uma região fortemente marcada pelo excesso de construção civil e pela consequente transformação da sua paisagem original. É em Loulé, perto donde Lídia Jorge nasceu e cresceu, que encontramos a Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen. Foi bem nomeada a biblioteca, pois apesar de Sophia ter nascido no Porto e vivido a maior parte da sua vida na Graça em Lisboa, a poeta homenageou em muitos dos seus poemas um Algarve de lenda. Para Sophia, o Algarve era ...