Chove na capital, não com a violência de há uns dias, mas sim e apenas com uma intermitente chuva miudinha. O céu é cinzento e não ameaçadoramente escuro e negro. Sabemos que não cairão grandes bátegas e que o tempo vai estar só assim-assim, neste meio termo. O clima não é quente nem frio, nem efectivamente nada de claramente fixo e definido, é tão-somente incerto. Passeamos por Lisboa e as ruas estão levemente húmidas. Não existem ainda sinais da próxima Primavera, no entanto, o mais rigoroso Inverno, ainda que bem presente e recente, parece ser agora algo do passado. Caminhamos portanto pela cidade, envoltos nesta espécie de meias-tintas climatéricas, em que as tempestades aparentam já lá ir, mas onde, e por enquanto, de momento não se avistam quaisquer flores primaveris. Nessa atmosfera citadina nada se espera, nem grandes descidas de temperatura, nem enormes aumentos da pluviosidade, tal e qual como também não se vislumbra o sol a brilhar e nem sequer breves lampejos de Primavera. ...
Nós não somos particulares apreciadores nem de desfiles, nem de bailes, nem de máscaras, contudo, somos uns grandes defensores do carnaval. Com efeito, o nosso apreço pelo entrudo, nada tem que ver com matrafonas, cabeçudos e carros alegóricos, aquilo que verdadeiramente prezamos nessa festividade é o seu carácter artístico, literário, filosófico e, sobretudo, o seu espírito livre. Quem nos lê de maneira nenhuma nos deve confundir com aquelas pessoas, que dizem não gostar nem achar piada alguma ao Carnaval. Tais criaturas são por norma gente virtuosa, bem-composta e séria e muito pouco dadas a brincadeiras, nós somos o oposto. Na verdade, esses são senhores e senhoras, que quase sempre sofrem de um mal cada vez mais expandido, o puritanismo. O puritanismo é o exacto contrário do espírito carnavalesco. Se quisermos definir o puritanismo de forma simples, digamos que ele consiste no temor permanente de que alguém, seja lá quem for e em que lugar seja, se esteja a divertir. Os acomet...