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O que faz falta para o dia a dia, é uma utopia

Corria o ano de 1983, quando José Afonso subiu aos palcos dos coliseus de Lisboa e do Porto para os seus últimos concertos. Ambas as salas esgotaram, pois o cantor era imensamente popular. Tão popular que o concerto de Lisboa foi inclusivamente transmitido pela RTP, tornando-se um marco na memória coletiva portuguesa. Neste final de 2025, o Teatro Experimental do Porto inspirou-se nesses míticos concertos de 1983 para realizar um espectáculo multidisciplinar que entrelaça música, teatro, performance e poesia. O espetáculo evoca o adeus simbólico que esses concertos de 1983 representam, não só o adeus do cantor, mas também o fim de uma era. Com a despedida de José Afonso, Portugal dizia adeus às utopias de Abril e preparava-se para entrar na CEE e ser um país igual aos outros. No espectáculo há textos originais de jovens escritores actuais, como Lígia Soares, Marta Figueiredo, Miguel Cardoso, Rui Pina Coelho e Susana Moreira Marques, que nos contam como é viver nos dias de hoje, ou seja...

Os amores de um polvo

Há muito quem se queixe e lamente da sua vida amorosa, ou então, a respeito da falta dela.  Com efeito, hoje em dia serão bastantes os que estarão em tal triste condição, isto a avaliar pela imensa quantidade de gente que atualmente escreve livros, tem programas de rádio e televisão ou sites na internet, cuja única função é fornecer conselhos à população em geral, acerca do modo como ficar melhor de amores. Não é por nada, mas nós, ou seja, quem por aqui vos escreve, andamos cá desconfiados que todos esses conselhos não são lá grande coisa. Pior do que isso, estamos mesmo em crer, que são bem capazes até de serem nocivos. Mas já lá vamos a isso. De um modo perfeitamente aleatório, fizemos uma pesquisa na internet relativa a livros de auto-ajuda sobre o amor, abrimos o primeiro site que nos surgiu pela frente, o qual sugeria as sete melhores obras sobre esse assunto. Vejamos os títulos e autores escolhidos pelo dito site: “Manual do Amor Próprio” de Mica Rocha / “Amor Próprio” de Ma...

Uma exposição gaiata

  É bom ver arte contemporânea, e isto mesmo quando não se percebe nada de arte. Aliás, uma das grandes vantagens da arte contemporânea, é precisamente essa, ou seja, todos a conseguem perceber, até crianças da mais tenra idade, digamos por exemplo, de seis ou sete anos.   Em boa verdade, estamos mesmo em crer, que as crianças conseguirão perceber muito mais rapidamente algumas obras de arte contemporânea, do que as gentes adultas.   Vem isto a propósito de uma exposição da Culturgest, em Lisboa, na qual se mostram as obras da coleção de arte contemporânea da Caixa Geral dos Depósitos. É uma das mais prestigiadas coleções do nosso país, mas ainda assim, não é de excluir a hipótese, de que qualquer adulto que a visite, sinta ao fazê-lo, uma enorme estranheza e se questione sobre o sentido daquilo que observa.   Vejamos um exemplo, uma obra de Leonor Antunes, intitulada “Funambolismo”.:   Como poderão verificar pela imagem acima, a obra consiste tão-somente num es...