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As mais desastrosas histórias de Verão (O Vento Assobiando nas Gruas)

Cá prosseguimos com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo texto, o tema centra-se no romance de Lídia Jorge, “O Vento Assobiando nas Gruas”, obra publicada em 2002, cuja ação decorre no sotavento algarvio, em finais da década de 90 do século XX. Lídia Jorge nasceu em 1946, em Boliqueime, no concelho de Loulé. Cresceu num Algarve antigo e profundo, esse que existia antes da explosão do turismo de massas. No entanto, em “O Vento Assobiando nas Gruas”, é do Algarve contemporâneo que ela nos fala, uma região fortemente marcada pelo excesso de construção civil e pela consequente transformação da sua paisagem original. É em Loulé, perto donde Lídia Jorge nasceu e cresceu, que encontramos a Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen. Foi bem nomeada a biblioteca, pois apesar de Sophia ter nascido no Porto e vivido a maior parte da sua vida na Graça em Lisboa, a poeta homenageou em muitos dos seus poemas um Algarve de lenda. Para Sophia, o Algarve era ...

Não vamos à bola com o Nolan, mas vamos com o Homero

E lá temos novamente em 2026 um filme, que nos conta as aventuras e desventuras de Ulisses, o principal protagonista da Odisseia.  É uma experiência física e emocionalmente dolorosa, assistir ao trailer da fita. Com efeito, nada daquilo que nos é apresentado parece ter minimamente a ver com o livro escrito por Homero, tudo aparenta ser um mero espectáculo, cujo único objectivo é encher o olho a quem o vê. Christopher Nolan é conhecido por realizar películas de ficção científica e por ter dirigido várias fitas da série de Batman, sendo que desta vez se atirou à Odisseia, a épica história de Homero escrita já há uns quantos milénios. Foi pena, podia ter continuado pelo Batman, que para isso até tem jeitinho. É claro que nós não iremos ver esta nova versão cinematográfica da Odisseia, pois basta-nos olhar para o trailer, e imediatamente sabemos que o Ulisses de Christopher Nolan é uma espécie de super-herói, coisa que, o personagem original de Homero certamente não era. Na imagem mais...

A alma de Portugal cheira a peixe - Capítulo IV e final

  Para terminarmos esta nossa série de textos dedicados à alma de Portugal, vamos ser simultaneamente peixeiros, poéticos e populares. Todavia, não o seremos necessariamente por esta ordem, ou seja, iremos efabular acerca desta tríade de assuntos, peixes, poemas e uma música popular, mas sem estabelecermos qualquer hierarquia entre esses três temas. Poder-se-ia bem dizer que temos um triângulo de temáticas, ou seja, uma figura geométrica com três lados iguais e os respectivos vértices onde cada uma das linhas se encontra com as restantes. Significa isto, entre outras coisas, que hoje nos vamos concentrar na poesia nacional, no peixe fresco e numa canção popular, uma trindade que a nosso ver, reflecte plenamente a alma portuguesa. Comecemos por um dos vértices do dito triângulo temático, a saber, o que une peixe e poesia. Bem sabemos que nesta nossa amada pátria, há quem seja muito intelectual e que, por consequência disso, não goste de misturar poesia com peixe. Para a fina intelec...

Das eleições acabadas, do resultado previsto, saiu o que tendes visto

  A imagem com que iniciamos este texto, é de uma obra de Julião Sarmento. Vemos um homem e uma mulher, sentados no interior de uma casa. Não estão fisicamente muito distantes um do outro, mas entre ambos parece não existir qualquer vida, desejo ou interesse comum.   Dir-se-ia que estes dois seres estão sós, que os dias passam sempre iguais, e que nada mais parece fazer-lhes sentido ou ter significado. Como que esperam um acontecimento, mas nada acontece.   “A Casa em Chamas” é um poema triste, que nos narra a solidão existencial de um homem comum, que chegando a casa após mais um dia de trabalho, encontra tudo como antes. Tal e qual como certamente encontrará daí a um ano e nos outros mais que se hão-de seguir. Por assim ser, a sensação que tem é de quão repetitiva e absurda é a vida.   O referido poema é de Luis Rosales (1910-1992), um dos maiores poetas espanhóis do século XX. O seu título original é “La Casa Encendida” , e o que nós agora vamos faz...