E lá temos novamente em 2026 um filme, que nos conta as aventuras e desventuras de Ulisses, o principal protagonista da Odisseia.
É uma experiência física e emocionalmente dolorosa, assistir ao trailer da fita. Com efeito, nada daquilo que nos é apresentado parece ter minimamente a ver com o livro escrito por Homero, tudo aparenta ser um mero espectáculo, cujo único objectivo é encher o olho a quem o vê.
Christopher Nolan é conhecido por realizar películas de ficção científica e por ter dirigido várias fitas da série de Batman, sendo que desta vez se atirou à Odisseia, a épica história de Homero escrita já há uns quantos milénios. Foi pena, podia ter continuado pelo Batman, que para isso até tem jeitinho.
É claro que nós não iremos ver esta nova versão cinematográfica da Odisseia, pois basta-nos olhar para o trailer, e imediatamente sabemos que o Ulisses de Christopher Nolan é uma espécie de super-herói, coisa que, o personagem original de Homero certamente não era.
Na imagem mais abaixo, temos o Ulisses do filme, sendo que, ao para ela olharmos, vemos sem margem para menor dúvida, que não possuímos diante dos nossos olhos o personagem homérico, mas sim um vindo de Hollywood.
Ulisses, o de Homero, fingiu estar louco para não ir à Guerra de Troia. Como não queria abandonar a sua mulher, Penélope, e o seu filho Telémaco, começou a arar os campos com um arado puxado por um boi e um burro, semeando sal em vez de sementes. Estava a fazer-se de maluco para ver se passava directamente à reserva.
O estratagema foi descoberto quando Palamedes, enviado para o recrutar, colocou o pequeno Telémaco à frente do arado em movimento. Para não atropelar o seu próprio filho, Ulisses desviou o arado, mostrando assim que estava mentalmente são e sendo por consequência disso obrigado a alistar-se e a juntar-se ao restante exército grego.
Ora bem, esse homem que queria escapar à guerra, esse que Homero descreve como o “filho de Laertes, criado por Zeus, o Ulisses de mil ardis”, pouco terá que ver com o personagem da imagem abaixo, onde observamos um bravo e decidido guerreiro, todo ele pleno de vontade de lutar e combater.
Sim, de facto Ulisses não é um super-herói, e isto de modo oposto a outros célebres combatentes gregos.
Por exemplo Aquiles, “o de pés ligeiros", era espontaneamente movido pela ira, possuía um porte físico imponente e uma vontade e capacidade de se bater superior a qualquer outro, pelo contrário, Ulisses é descrito como um “urdidor de penas e enganos”.
Significa isto, que se Ulisses pudesse escapar a ter de se bater directamente com os inimigos, arranjava uma qualquer forma de assim ser.
Um outro célebre e indomável guerreiro é o troiano Heitor. Avisado pela sua esposa, Andrómaca, de que corria perigo de morte caso decidisse combater, não hesitou um instante e respondeu-lhe do seguinte modo: “Todas essas coisas, mulher, me preocupam; mas muito eu me envergonharia dos Troianos e das Troianas de longos vestidos, se tal como um covarde me mantivesse longe da guerra. Nem meu coração a tal consentiria, pois aprendi a ser sempre corajoso e a combater entre os dianteiros dos Troianos, esforçando-me pelo grande renome de meu pai e pelo meu.”
Aquiles e Heitor combatiam corpo a corpo e de espada na mão, na luta misturavam-se sangue, suor, lágrimas e pó, porém, Ulisses preferia lançar friamente as suas setas à distância, e fazia cálculos de modo a melhor posicionar-se para atingir os seus alvos, sem ter de se envolver em lutas corpo a corpo.
Ulisses é o que fere de longe, todo o contrário do destemido Aquiles ou do honrado Heitor, Homero apelida-o como “o de mil truques”. Em resumo, o Ulisses do filme de Christopher Nolan não é o de Homero.
Ulisses sabe que “os deuses não dão todos os seus dons a todos os homens”. A Aquiles e a Heitor os deuses deram-lhes os dons da força, da coragem e da valentia e o arrojo para não se deterem e irem sempre em frente de encontro ao inimigo. A Ulisses os deuses deram-lhe algo de diferente, a saber, a capacidade de se distanciar, sendo o mesmo dizer, que os dons com que foi agraciado são a inteligência, a prudência e a argúcia.
Em boa verdade, a Odisseia nem sequer nos fala de guerra e sim de um regresso, no caso o de Ulisses que quer retornar a sua casa, em Ítaca, após todas as batalhas já terminadas. Em Ítaca esperam-no a sua mulher, Penélope, e o seu filho, Telémaco.
Apesar de saber que o esperam e de ansiar pelo regresso, ainda assim, Ulisses não está particularmente apressado. Tanto assim é, que essa sua viagem de volta dura nada mais, nada menos, do que dez anos.
Durante essa década, foram sete os anos em que Ulisses esteve com a ninfa Calipso na sua ilha. Calipso era famosa pela sua beleza, e após o navio em que Ulisses regressava a Ítaca ter naufragado, ela recolheu-o. Depois apaixonou-se perdidamente por ele e ofereceu-lhe a imortalidade e a juventude eterna em troca do seu amor, de para sempre com ela permanecer.
Ulisses desejava regressar a Ítaca e à sua esposa Penélope, contudo, o relato deste episódio é todo ele marcado por algumas nuances e outras tantas fascinantes dualidades. O certo é que o homem acabou por ficar na ilha com Calipso durante sete anos, ainda que parecesse andar mais ou menos contrariado.
Calipso usou o seu divino encanto e a sua extrema beleza para tentar que Ulisses esquecesse a sua pátria, Ítaca, a sua mulher, Penélope, e o seu filho, Telémaco, todavia, tal não sucedeu.
Mas mesmo assim sendo, e não tendo Ulisses esquecido os seus, como ninfa e deusa, Calipso possuía uma aura de sedução inegável e um grande poder de persuasão, por consequência disso, lá foi conseguindo manter Ulisses consigo na sua ilha.
Vejamos como Homero descreve o caso:
“Nesse tempo, já todos quantos fugiram à morte escarpada se encontravam em casa, fugidos da guerra e do mar. Só àquele, desejoso do regresso e da mulher, Calipso, excelsa Ninfa, divina entre as deusas, retinha em côncavas grutas, desejosa de que se tornasse seu marido.”
Segundo diz Homero, a partir de dado momento a coisa agravou-se e Ulisses passava as suas noites e dias a chorar junto ao mar, ansiando por regressar.
Um dia Ulisses disse a Calipso “tenho no peito um coração que aguenta a dor”, no entanto, Atena e Zeus apiedam-se do homem e ordenam à ninfa que o liberte e o deixe regressar a Ítaca. Posto isto, Calipso não tem outro remédio que não seja o de obedecer. Ainda que desgostosa, ajuda Ulisses a construir uma jangada para que ele possa partir para Ítaca.
Ulisses parte, mas pelo caminho sofre mais um naufrágio. Arrastado pelas águas vai aportar à ilha dos feácios, onde a jovem Nausícaa o encontra na praia completamente nu. Nausícaa, com os seus longos cabelos soltos onde o sol reflecte uma luz dourada, é filha dos reis da Feácia, e fora ali, à beira mar, para lavar as roupas num rio próximo.
A princesa conduz o estrangeiro ao palácio de seus pais. O rei Alcínoo e a rainha Arete acolhem Ulisses calorosamente. Segue-se um banquete, música, dança, boas histórias e excelentes vinhos. Os feácios são as figuras mais alegres, bem dispostas e encantadoras de toda a Odisseia. O rei da Feácia caracteriza o seu povo da seguinte forma:
"A nós sempre é caro o festim, assim como a lira, as danças, as mudas de roupa, os banhos quentes e a cama."
Sobre Ulisses, Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu os seguintes versos:
"Pois de ilha em ilha todo te percorreste
Desde a praia onde se erguia uma palmeira chamada Nausikaa
Até às rochas negras onde reina o cantar estridente das sereias".
Por tanto ter percorrido e tantas ilhas ter conhecido, por ter andado por tanto lado e durante largo tempo, Ulisses desperta a curiosidade dos reis da Feácia e ainda mais da jovem e muito bonita Nausícaa. Pedem-lhe então que relate as suas aventuras:
“Mas diz-me agora tu com verdade e sem rodeios,
por onde vagueaste, a que terras de homens chegaste;
fala-me deles e das cidades que eles habitam,
tanto dos que eram ásperos e selvagens como dos justos;
fala-me dos que acolhiam bem os hóspedes, tementes aos deuses.”
Abaixo Nausícaa, que escuta atentamente Ulisses a contar as suas histórias e que nesse entretanto segreda a uma amiga, que gostaria que o seu marido fosse como ele. Na verdade Nausícaa não quer casar com nenhum dos pretendentes da sua ilha, os seus conterrâneos são para ela apenas uma espécie de último recurso, já o estrangeiro que veio de longe, parece fazer-lhe correr nas veias um sangue novo.
O facto era que Ulisses desta vez estava mesmo focado em regressar a casa e apesar da vida na ilha dos feácios lhe parecer ser bela, o seu destino era partir.
Nausícaa e os pais dela providenciam o transporte que levará finalmente Ulisses a Ítaca, após vinte anos de ausência, dez de guerra e mais dez para a viagem de regresso. Nas palavras de Homero, estamos diante “um homem que sofreu muito e muito errou, conhece muitas coisas."
Como também escreveu Homero, é certo que “de tudo o que respira e se move sobre a terra, nada a mãe natureza cria mais frágil do que o homem”, e isso Ulisses sabe-o. Como antes dissemos, Ulisses não era nenhum super-herói ao estilo de Hollywood, nem tinha poses de tal.
Ulisses era um protegido de Atena, a deusa da sabedoria. Fora ela conjuntamente com Zeus que obrigara Calipso a o deixar partir, e vai ser novamente ela, tendo Ulisses finalmente aportado à sua pátria, Ítaca, que o vai novamente auxiliar.
Ao acordar nas praias de Ítaca após vinte anos de ausência, Atena surge-lhe disfarçada de pastor. Quando ela lhe diz que ele está na sua terra natal, Ulisses não acredita e esconde a sua identidade, usando a sua famosa astúcia para testar se não estará perante uma armadilha.
Atena, a deusa da sabedoria, diverte-se com a desconfiança de Ulisses. Atena sente uma grande afinidade com Ulisses, identifica-se com a sua inteligência e astúcia, sendo isso mesmo que lhe faz saber, em tom de leve reprimenda por ele nela não se fiar:
“Homem obstinado, de pensamento variado, urdidor de astúcias: nem na tua pátria estás disposto a abdicar de enredos e discursos ardilosos, que no fundo te são queridos. Mas não falemos mais destas coisas, pois ambos somos versados em artifícios: tu és de todos os mortais o melhor em conselhos e em palavras; dos imortais, sou eu a mais famosa
em argúcia proveitosa”
Uma vez regressado a Ítaca, a Ulisses ninguém o reconhece, isto com excepção do seu velho cão, Argos. Vejamos como Homero descreve esse momento: “Assim falavam ambos entre si, quando um cão, deitado, ergue a cabeça e as orelhas; era Argos que, outrora, o valoroso Ulisses criara…”
Mais tarde todos o reconhecerão, sendo que a sua mulher, Penélope, só acreditará verdadeiramente que está perante Ulisses, o seu marido, após o teste da cama. Para ter a certeza absoluta, Penélope pede a uma criada que retire a cama do seu quarto. Ulisses, conhecendo o segredo daquele leito, explica que é impossível mover a cama porque um dos seus pés foi esculpido a partir de um tronco de oliveira que crescia vivo e enraizado no chão do quarto.
Ao revelar este detalhe, Penélope tem a confirmação de que tem diante de si o seu marido, Ulisses. Abaixo Penélope, ao tempo em que pacientemente aguardava pelo retorno de Ulisses de além mar.
E pronto, aqui chegados, cremos que já todos terão compreendido a razão pela qual não vamos ver a Odisseia de Christopher Nolan.
Com efeito, parece-nos mal que o hesitante, humano, inteligente e astuto Ulisses de Homero, seja transformado num super-herói de Hollywood, envolto em efeitos especiais e em cenários grandiloquentes, tão-somente destinados a encherem o olho.
A nós interessa-nos mais a relação de Ulisses com o seu destino e as divinas reflexões que atravessam a Odisseia original. Ao dia de hoje, a obra de Homero tem ainda muito para nos dizer sobre a doença e a morte, sobre a felicidade e a curiosidade, sobre a esperança, a heroicidade e a cobardia, sobre a traição e a lealdade, sobre a honra, a vergonha e a intriga, e até sobre o sexo.
Vejamos por exemplo esta reflexão de Zeus: “Vede bem como os mortais acusam os deuses! De nós (dizem) provêm as desgraças, quando são eles, pela sua loucura, que sofrem mais do que deviam!”
Dito isto, a todos aconselhamos que ao invés de ver o filme, vão antes ler o livro que se inicia desta maneira:
“Fala-me, Musa, do homem versátil que tanto vagueou,
depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada.
De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu;
e foram muitas no mar as dores que sofreu em seu coração para salvar a vida e o regresso dos companheiros.”







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