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Chove na alma de Portugal - Capítulo III


Continuamos hoje esta nossa série de textos dedicados à alma portuguesa, sendo que nos dias que correm, só há uma certeza, a de que chove, e muito. A lusitana nação pode ser tudo ou não ser nada, mas o que é certo, é o que nos últimos tempos está constantemente toda encharcada.

Não é comum vivermos desta forma, nesta espécie de contínuo dilúvio, mas ainda assim, é possível entrevermos a alma portuguesa, mesmo com tanta e tão intensa chuva. Para tal, nada melhor do que falarmos da poesia nacional.

Vejamos para começarmos, este breve poema de Nuno Júdice (1949-2024):

Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
"Que Inverno!" sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.

Diga-se de passagem, que noutras paragens do mundo também é uso chover, como bem ilustra a pintura abaixo de 1944, do russo Vasily Kandinsky.


Em boa verdade, a chuva pode ser muito útil para agricultura e favorecer o crescimento de alfaces, tomates e rabanetes, todavia, a realidade é que quando a chuva é muita, contínua e todos os dias, acaba por irritar, perturbar e causar uma certa agonia.

Vejamos a esse propósito uma certa estrofe do poeta Antero de Quental (1842-1891), um homem já de si dado a desesperos, mas que perante condições climatéricas adversas ainda se sentia pior:

Há mil anos, e mais, que aqui estou morto,
Posto sobre um rochedo, à chuva e ao vento:
Não há como eu espectro macilento,
Nem mais disforme que eu nenhum aborto...

Enfim, já se vai percebendo, apenas por estes dois citados poemas, que a alma portuguesa não se dá bem com chuvadas sem fim. Se sobre tal houver dúvidas, basta lermos umas estrofes do mais célebre poeta nacional, o Fernando Pessoa, para ficarmos com a certeza de que, por cá, a chuva está sempre associada a estados depressivos e tristes:

(…) E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...
 
(…) Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro em mim.l
Se escuto, alguém dentro em mim ouve
A chuva, como a voz de um fim ...

Escreveu também um dia Pessoa que “Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais”, mas em o “Livro do Desassossego”, o poeta foi ainda mais específico relativamente aos seus sentimentos em dias de chuva:

“Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra.
Chove tanto, tanto. A minha alma é húmida de ouvi-lo. Tanto... A minha carne é líquida e aquosa em torno à minha sensação dela.
Um frio desassossegado põe mãos gélidas em torno ao meu pobre coração. As horas cinzentas alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se. Como chove! As biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas. Desce pelo meu saber que há canos, um barulho perturbador de descida de água. Bate contra a vidraça, indolente, gemedoramente a chuva.
Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida. Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar! De nenhum modo físico estou bem.”

Abaixo a imagem de um quadro de René Magritte.


Em dias de grande pluviosidade, não é despropositado ter-se à mão um guarda-chuva, o problema desse utensílio, é ser muito fácil esquecermo-nos dele em qualquer lugar. É precisamente de um desses momentos, em que nos esquecemos do fiel amigo que nos abriga da chuva e do vento, que nos fala um poema de Alexandre O’ Neill, “Trompe l’œil”.

Trompe l’œil é uma expressão francesa que literalmente significa "enganar o olho", mas que se refere a uma técnica artística, que utiliza truques de perspectiva para criar uma ilusão de óptica que ludibria o olhar.
Dito isto, no poema de O’ Neill, recorda-se uma viagem de comboio a Viana do Castelo num dia chuvoso, sendo que os olhares são outros e não propriamente artísticos, ou seja, são daqueles que distraem e fazem com que o guarda-chuva fique esquecido num qualquer sítio.

Lembras-te jóia, daquele bacalhau
que comemos em Viana do Castelo?
Parece que foi ontem, mas já lá vão dez anos!
Ainda tinhas tu muito cabelo…

Chovia nesse dia, bem me lembro.
Deixaste no comboio o guarda-chuva.
Quem te mandou levar toda a viagem
a fazer olhinhos à viúva?

Mas vejamos como um poeta nosso contemporâneo, de seu nome Pedro Mexia, retrata a chuva na sua poesia. A voz do poema dirige-se a quem se presume ser a sua amada, que sendo de Galway, será certamente irlandesa, contudo, ela parece perdida e absorta nos seus pensamentos.

A voz interroga-se sobre no que estará ela a pensar, no entanto, a voz sabe perfeitamente que ela se recorda de um dia distante, quando ainda jovem, num dia de chuva, um rapaz atirava pedrinhas à vidraça da sua janela. Chove no tempo presente do poema, mas é de uma chuva do passado que o poema nos fala.

Em que pensas? Acho que sei 
em que pensas.
Exausta, distraída, abstrata,  
acho que sei em que pensas.
Entre lágrimas dizes que não. 
Que não é nada. 
Apenas um rapaz de Galway  
e que em Galway cantava.
Acho que sei em que pensas. 
Amas esse rapaz. 
Um rapaz de grandes olhos escuros,  
dizes, ainda te lembras
como se fosse agora. 
Tão grandes tão escuros. 
Acho que sei em que pensas.  
Vais ter com esse rapaz.  
Junto da vidraça dizes não vou,   
o rapaz mal chegado aos dezassete 
morreu. E tudo de repente é terrível   
como o candeeiro público apagado. 
Acho que sei em que pensas.  
Faz falta esse rapaz. 
Estavas bem com ele, dizes,  
tão gentil, tão bela voz, 
Passeávamos, dizes,  
como se faz no campo.
Acho que sei em que pensas.  
Em que pensas?
Numa noite de chuva, de tanta chuva,  
ele atirava pedrinhas à minha janela.
E não se ia embora. 
E não se foi embora.
Tão dócil doente encharcado.  
«Acho que morreu por mim.»
Acho que sei em que pensas. 
Chove muito, lá fora. 

Mesmo chovendo muito lá fora, neste caso falamos do estrangeiro, é possível dizer-se que noutros locais do mundo a chuva não desperta tão soturnos sentimentos, como o faz na alma portuguesa.

Muitos exemplos disso poderiam ser dados, mas vamos ficar-nos por um. Para tal escolhemos um quadro de 1877 do pintor francês Gustave Caillebotte, um que se intitula “Rua de Paris num dia chuva”.


Observando a pintura “Rua de Paris num dia chuva”, vemos que as gentes parisienses se passeiam e não parecem estar particularmente afligidas com a pluviosidade. Olhando, a ninguém certamente ocorreria dizer coisas como “Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza” ou “Há mil anos, e mais, que aqui estou morto, Posto sobre um rochedo, à chuva e ao vento”.

Em síntese, no fundo a mais sábia atitude a ter perante a chuva que cai, é aceitar o tempo, o que faz, e o que passa. É isso mesmo o que acontece num poema de Ruy Belo (1933-1978):

Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual é a relidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar e o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu : tu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora?
Talvez dizer apenas
Chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos

E pronto, dito isto por aqui ficamos, na espera por melhores dias…

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