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Amar foi a minha perdição

Na mais famosa peça de Shakespeare, a dado momento, um fantasma ordena a Hamlet que vingue o assassinato do seu pai, matando o Rei Cláudio, o autor do dito crime. No entanto, o fantasma adverte explicitamente Hamlet para não ferir a sua mãe, a Rainha Gertrudes, comprovada cúmplice do referido Rei Cláudio. Ao invés de procurar vingar-se dela, Hamlet é instruído pelo fantasma a deixar a sua mãe em paz, e a aceitar que ela seja julgada por Deus ( "o céu" ), permitindo desse modo que esta ande eternamente atormentada pela sua própria culpa e consciência ( "esses espinhos que em seu peito se moram" ): “But, howsoever thou pursuest this act, Taint not thy mind, nor let thy soul contrive Against thy mother aught. Leave her to heaven , And to those thorns that in her bosom lodge To prick and sting her." Em 1945, John M. Stahl realizou um dos mais intensos melodramas de sempre, ao qual deu o título “Leave her to heaven”, filme que em português se chamou “Amar foi a minh...

As mais desastrosas histórias de Verão (O Vento Assobiando nas Gruas)

Cá prosseguimos com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo texto, o tema centra-se no romance de Lídia Jorge, “O Vento Assobiando nas Gruas”, obra publicada em 2002, cuja ação decorre no sotavento algarvio, em finais da década de 90 do século XX. Lídia Jorge nasceu em 1946, em Boliqueime, no concelho de Loulé. Cresceu num Algarve antigo e profundo, esse que existia antes da explosão do turismo de massas. No entanto, em “O Vento Assobiando nas Gruas”, é do Algarve contemporâneo que ela nos fala, uma região fortemente marcada pelo excesso de construção civil e pela consequente transformação da sua paisagem original. É em Loulé, perto donde Lídia Jorge nasceu e cresceu, que encontramos a Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen. Foi bem nomeada a biblioteca, pois apesar de Sophia ter nascido no Porto e vivido a maior parte da sua vida na Graça em Lisboa, a poeta homenageou em muitos dos seus poemas um Algarve de lenda. Para Sophia, o Algarve era ...

As mais desastrosas histórias de Verão (Os Anos)

Continuamos com a nossa série estival, dedicada a Verões desastrosos. Hoje, para este nono texto, o assunto é o livro “Os Anos”, da escritora francesa e Prémio Nobel da Literatura de 2022, Annie Ernaux, mulher nascida a 1 de Setembro de 1940, que acima vemos numa fotografia antiga, na companhia dos seus dois filhos. Em “Os Anos” de Annie Ernaux, as férias de Verão funcionam como marcos sociais que vão revelando a evolução da sociedade francesa, as mudanças nos rituais de descanso e a ascensão do turismo de massas ao longo das últimas décadas. No entanto, e para além desse seu lado social, as férias de Verão são na escrita de Ernaux igualmente um tempo íntimo e pessoal, um espaço de encontros e rupturas, de leituras e de um desejo (sempre frustrado) de escapar por um breve tempo às rígidas obrigações e regras do dia a dia. Mas antes de mais, o que são na realidade as férias de Verão? É a esta interrogação que vamos tentar responder, para só depois irmos mais detalhadamente a “Os Anos” d...

As mais desastrosas histórias de Verão (O Mensageiro)

Continuamos com a nossa série estival, dedicada a Verões desastrosos. Hoje, para o sétimo texto, o assunto é “O Mensageiro”, obra célebre pela sua marcante frase inicial, cujo tom e musicalidade é provavelmente intraduzível para português: “The past is a foreign country: they do things differently there.” “O Mensageiro” foi escrito por L. P. Hartley em 1953, em 1973 foi adaptado para o cinema por Joseph Losey, tendo o filme recebido imenso prémios e inclusivamente a Palma de Ouro no Festival de Cannes desse ano. A narrativa começa décadas depois de tudo se ter passado, quando o protagonista, Leo Colston, um homem agora já nos seus sessenta e muitos, encontra um seu antigo diário, onde relata o que lhe aconteceu no quente Verão de 1900. Leo tinha então 12 anos e estava de visita a Brandham Hall, em Norfolk, a propriedade da família de Marcus, um seu colega de colégio, pertencente à mais alta aristocracia britânica, que o convidou a passar o Verão consigo na sua casa de família. Leo vê-s...

As mais desastrosas histórias de Verão (Bonjour Tristesse)

Vamos hoje para o sexto texto desta nossa série estival, dedicada a Verões terríveis. “Bonjour Tristesse” é um romance de Françoise Sagan, que posteriormente foi maravilhosamente adaptado ao cinema. As cores da película são magníficas, sendo que toda a história decorre num luminoso Verão, tendo como paisagem de fundo a esplendorosa Côte d’Azur. Há namoros, festas, banhos de mar, sol e diversão, mas infelizmente por causa de futilidades, de ciúmes, de amores e desamores, tudo finda numa tragédia. A narradora de 17 anos, Cécile, é uma moça manipuladora, mimada, caprichosa e que adora a sua vida sem rígidas regras. Raymond, o pai da rapariga, é um homem atraente, aparentemente fútil, viúvo e muito dado a namoricos com raparigas mais jovens. Elsa a actual e superficial amante de Raymond, também está presente neste início de Verão. Cécile, Raymond e Elsa estão a passar um Verão idílico e completamente despreocupado numa magnífica casa alugada mesmo junto ao mar Mediterrâneo. No entanto, a r...

As mais desastrosas histórias de Verão - Introdução

E eis que chegam as férias de Verão e, como todos os anos neste blog, desde o fim de Julho até ao término de Agosto, teremos uma sequência de textos todos eles dedicados ao mesmo tema. Muito embora os textos sejam muito diferentes uns dos outros, ainda assim serão afins, isto de modo a que conjuntamente formem uma série com princípio, meio e fim, mas não necessariamente por esta ordem. Este ano vamos dedicar-nos às mais desastrosas histórias de Verão. Em boa verdade, a realidade fornece-nos todos os verões abundantes irritações, arrelias, acidentes, desastres e outras catástrofes, por consequência, matéria para tal não nos falta.  Com efeito, em Agosto tanto há contrariedades menores, tipo a água do mar está fria ou pôs-se a chover durante três dias, como também há as maiores, como por exemplo, os incêndios e coisas terríveis desse género. Apesar de a realidade todos os verões nos fornecer abundante matéria para falarmos de coisas desastrosas, nós preferimos antes falarmos de ficçõ...