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As mais desastrosas histórias de Verão (Os Anos)

Continuamos com a nossa série estival, dedicada a Verões desastrosos. Hoje, para este nono texto, o assunto é o livro “Os Anos”, da escritora francesa e Prémio Nobel da Literatura de 2022, Annie Ernaux, mulher nascida a 1 de Setembro de 1940, que acima vemos numa fotografia antiga, na companhia dos seus dois filhos.


Em “Os Anos” de Annie Ernaux, as férias de Verão funcionam como marcos sociais que vão revelando a evolução da sociedade francesa, as mudanças nos rituais de descanso e a ascensão do turismo de massas ao longo das últimas décadas.


No entanto, e para além desse seu lado social, as férias de Verão são na escrita de Ernaux igualmente um tempo íntimo e pessoal, um espaço de encontros e rupturas, de leituras e de um desejo (sempre frustrado) de escapar por um breve tempo às rígidas obrigações e regras do dia a dia.


Mas antes de mais, o que são na realidade as férias de Verão? É a esta interrogação que vamos tentar responder, para só depois irmos mais detalhadamente a “Os Anos” de Annie Ernaux.


Em primeiro lugar, há que referir, que as férias pagas espalharam-se pela Europa e depois pelo mundo (não todo) a partir de França. Em 1936, após fortes greves, o governo da época concedeu então duas semanas de descanso remunerado a todos os trabalhadores.


Estávamos na década de 30 do século XX, quando pela primeira vez na história da humanidade, os franceses se lembraram que seria uma coisa interessante, pagar um subsídio de férias aos trabalhadores, para que estes pudessem ir passar umas semanas onde muito bem lhes aprouvesse.


A título de comparação, relembre-se que em Portugal só houve férias pagas quatro décadas depois de em França, mais concretamente em 1976.


Nesses primeiros tempos tudo era uma maravilha, os franceses iam para a Riviera apanhar “soleil”, viajavam pelo país para conhecer locais históricos e, os mais audazes, subiam aos Alpes e aos Pirinéus para desfrutar do ar puro das altas montanhas. Em síntese, para todos os que trabalhavam, era “la fête”.


Abaixo, aqui os vemos, aos franceses, de partida para as suas primeiras “vacances”.


Annie Ernaux recorda na sua obra, que para a geração do seu pai, ex-operário que se tornou dono de um café e mercearia, as férias não existiam. O trabalho ininterrupto prevalecia e ausentar-se equivalia a perder dinheiro, que tão necessário seria.


Uns anos depois veio a Segunda Guerra Mundial e não havia tempo nem disposição para férias. Uma vez o longo conflito findado, a alegria e a felicidade foram a pouco e pouco regressando.


O confronto armado tinha deixado marcas, no entanto, havia um ambiente de grande optimismo pois cria-se que o pior tinha passado e jamais se voltaria a repetir. No pós-guerra, a canção “Ça sent si bon la France” dava bem conta desse espírito de esperança e confiança no futuro e, mais do que isso, de como era bom voltar a ir de “vacances” viajando pelos lugares de França.


Sim, os trabalhadores que iam de férias viajando pela França inteira encontravam sempre à chegada coisas maravilhosas e belas e gente amiga e boa. Vejamos algumas desses deleites estivais de então referidos na canção “Ça sent si bon la France”:

“On arrive enfin, fini le voyage. Un vieux copain vient vous sauter au cou (Finalmente, chegámos, a viagem acabou. Um velho amigo vem, atira-se-nos ao pescoço e abraça-nos).”

“Cette brunette aux yeux de paradis (Essa morena de olhos celestiais).”

“Ces grands blés mûrs emplis de fleurs des champs (Esses grandes trigais maduros, repletos de flores do campo).”

“Le petit bar où l'on vous fait crédit (O pequeno bar onde se bebe fiado).”


Enfim, estes são apenas quatro exemplos, mas o melhor mesmo é ouvirmos “Ça sent si bon la France” na voz de Maurice Chevalier, intérprete que naqueles felizes e inocentes anos representava o arquétipo do “parigot” (rapaz originário do meio popular e operário parisiense).


Por ser nado e crescido nessas ruas de Paris, Chevalier cultivava as características próprias das gentes desse lugar, ou seja, o lado “gouailleur” (trocista), “ironique et joyueux” e, sobretudo, o sotaque indígena com os erres (R) “légèrement roulés ou trés marqués”. É ouvir:



Mais tarde, na década de 60, foi a vez de uma nova geração que já tinha crescido com férias pagas garantidas, ir passar umas semanas para Saint-Tropez. Para esta geração, as férias eram um dado adquirido e não uma alegre novidade, como tinham sido décadas antes para os seus pais.


Ainda assim, houve uma nova vaga de alegria estival, que foi fundamentalmente simbolizada por Brigitte Bardot, o ícone maior para a juventude da época.



Na década de 60 francesa, as férias eram sinónimo de praia e de Saint-Tropez. Mas a verdadeira diferença, foi a de que as férias já não eram tão-somente um período de repouso, passaram a ser vistas e sentidas como o ponto culminante do ano.


Annie Ernaux descreve no seu livro como a sociedade da época passou a projectar a vida em função das pausas laborais, transformando o descanso numa meta: “A imaginação do futuro limitava-se a emoldurar, logo a partir do início de Setembro, os feriados e dias de férias na agenda.”


Ao dizer que a imaginação do futuro se limitava a "emoldurar os dias de férias na agenda", Ernaux assinala como o quotidiano moderno e estruturado restringe a nossa capacidade de imaginar. Um futuro melhor deixa de ser um espaço de infinitas possibilidades e passa a ser apenas o planeamento do próximo período de descanso.


Assim sendo, o acto de marcar as próximas férias logo no início de Setembro, funciona como um mecanismo de sobrevivência psico-emocional, uma panaceia e um consolo para enfrentar os meses de trabalho e de rotina que se avizinham.


Foi portanto precisamente nessa época, que o fim das férias começou a ser vivido com uma certa melancolia, tão só mitigada pela esperança de que no ano seguinte mais haveria.


É essa melancolia que Brigitte Bardot canta ainda de forma doce em “La Madrague”, o nome da sua casa junto ao mar. Vejamos primeiro os versos e depois ouçamos a linda canção de Bardot, que anuncia o Outono:


Sur la plage abandonnée (Na praia abandonada)

Coquillage et crustacés (Conchas e crustáceos)

Qui l'eût cru déplorent la perte de l'été (Quem diria? Lamentam a perda do verão)

Qui depuis s'en est allé (Que desde então se foi)

On a rangé les vacances (Guardamos as férias)

Dans des valises en carton (Em malas de papelão)

Et c'est triste quand on pense à la saison (E é triste pensar na estação)

Du soleil et des chansons (Do sol e das canções)


Pourtant je sais bien l'année prochaine (No entanto, sei bem que no ano que vem)

Tout refleurira nous reviendrons (Tudo florescerá de novo e voltaremos)

Mais en attendant je suis en peine (Mas, enquanto isso, sofro)

De quitter la mer et ma maison (Por deixar o mar e a casa)



Tendo as férias de Verão deixado de ser apenas o período de repouso e passado a ser o momento culminante do ano, muito naturalmente recaíram sobre elas todas as expectativas e desejos.


Sendo as férias tão aguardadas, deixaram de ser tão-somente um tempo de descanso e adquiriram o peso de ser o momento em que finalmente podemos ser quem somos e fazer o que efectivamente queremos fazer, sem ter compromissos, obrigações e afazeres para nos atrapalhar a vida.


Como é evidente, estando as férias de Verão carregadas de tantas expectativas, o mais provável é que acabassem por ser o tempo onde desaguam todas as frustrações e desejos não cumpridos.


Em síntese, se para a primeira geração com férias pagas estas eram um momento de pura alegria, na década de 70 eram já um período em que existia a “obrigação” de se ter um tempo divertido, de lazer e interessante.


Na década de 70, Annie Ernaux, que era professora no ensino público francês, passava as férias de Verão com o seu marido e com os seus dois filhos pequenos. Para ela, as férias de Verão não significavam diversão e descanso, mas sim uma simples mudança geográfica do trabalho doméstico.


Em “Os Anos”, a autora conta que nas férias, enquanto o marido se repousa, ela cuida da organização doméstica, das refeições e da supervisão das crianças, os filhos Éric e David.


As férias na praia ou na montanha reproduzem a estrutura do lar. A solidão da mãe, cercada pela família, o mal estar da mulher que sente um profundo sentimento de alienação. Estando de férias, Annie Ernaux sente-se privada do seu tempo livre e da sua identidade como escritora e professora. Em férias, Annie é simplesmente a dona de casa.


É esse o tema explorado no filme “Les Années Super 8” de 2022, que foi realizado pelo seu filho David. As imagens mostram cenas de férias aparentemente felizes (viagens, praias, brincadeiras de criança), no entanto, a narração em “off” de Annie Ernaux lança sobre elas um olhar crítico e sociológico. Ela denuncia a invisibilidade do seu próprio trabalho como mãe e a onipresença do modelo familiar que lhe foi imposto.


Aqui fica o trailer do filme “Les Années Super 8”, que é o complemento visual do livro “Os Anos”:



No ano de 1981, Annie Ernaux fez uma viagem de férias de Verão a Portugal acompanhada pelo seu marido, Philippe Ernaux, e pelos seus dois filhos, seria a última feita em conjunto.


A viagem foi documentada através da câmara de filmar da família. Estas imagens foram integradas no já referido documentário biográfico “Les Années Super 8”, realizado décadas mais tarde pelo seu filho David.


Na narrativa da autora, as filmagens em Portugal assinalam o fim próximo do seu casamento. Ela destaca a melancolia dessas imagens, pois nessas gravações feitas em Portugal "já ninguém sorria". O divórcio aconteceria pouco tempo depois.


Ao tempo alegre das primeiras “vacances”, sobreveio depois o tempo melancólico das férias como um objectivo a cumprir, mas cujas promessas serão sempre frustadas, mais desastroso do que isto, é quase impossível.


E pronto, assim terminamos este nono texto da série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve um outro haverá, é aguardar.

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