Avançar para o conteúdo principal

As mais desastrosas histórias de Verão - Introdução


E eis que chegam as férias de Verão e, como todos os anos neste blog, desde o fim de Julho até ao término de Agosto, teremos uma sequência de textos todos eles dedicados ao mesmo tema. Muito embora os textos sejam muito diferentes uns dos outros, ainda assim serão afins, isto de modo a que conjuntamente formem uma série com princípio, meio e fim, mas não necessariamente por esta ordem.

Este ano vamos dedicar-nos às mais desastrosas histórias de Verão. Em boa verdade, a realidade fornece-nos todos os verões abundantes irritações, arrelias, acidentes, desastres e outras catástrofes, por consequência, matéria para tal não nos falta. 
Com efeito, em Agosto tanto há contrariedades menores, tipo a água do mar está fria ou pôs-se a chover durante três dias, como também há as maiores, como por exemplo, os incêndios e coisas terríveis desse género.

Apesar de a realidade todos os verões nos fornecer abundante matéria para falarmos de coisas desastrosas, nós preferimos antes falarmos de ficções, ou seja, de histórias. Entre a realidade e a ficção, optamos pela última, pois essa é efectivamente muito mais verdadeira e credível do que a primeira.

Em “O Homem que matou Liberty Valence”, certamente um dos mais belos westerns do mítico John Ford, o editor de um jornal local diz o seguinte: “When the legend becomes fact, print the legend".

Com o tempo, a frase acabou por ser atribuída ao próprio John Ford e não ao seu personagem, mas tal nada importa, o que interessa é que as lendas, ficções, contos e histórias, são sempre mais significativas, genuínas e autênticas do que a mera realidade.

Só por curiosidade, diga-se que há muito quem, traduzindo a frase do personagem de John Ford para português, o faça assim: “Quando a lenda é mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda”.

Como é evidente, com tal tradução, procede-se a uma alteração da rigorosa realidade dos factos, ou seja, na dita tradução há uma variação relativamente à frase original que efectivamente foi proferida. Para que a verdade factual seja restabelecida, aqui fica uma imagem do momento em que tudo aconteceu.


Estando a realidade dos factos restabelecida, a partir de agora, connosco vão ser só ficções, lendas, contos e histórias. É este o aviso que fica, quem eventualmente preferir ouvir rigorosas verdades, o melhor que tem a fazer é ir assistir ao Polígrafo nalguma TV e largar já este blog.

“Temos a arte para não morrer da verdade”, é um célebre dito de Frederich Nietzsche, com o qual ele pretendia afirmar que a realidade e a razão lógica podem ser cruas, chatas, frias e insuportáveis, e que de modo oposto, a arte cria mitos e metáforas, que geram novos sentidos para a nossa existência e nos fazem conviver com a beleza, com a fantasia e com a aventura.


Em síntese, a verdade e a realidade vão ser coisas com as quais pouco ou nada nos preocuparemos durante esta nossa série de textos de fim de julho e Agosto. No entanto, há mais. Como já dissemos, o nosso interesse vai estar centrado em lendas, ficções, contos e histórias de Verão, mas não em todas e só sim nas que acabam mal, ou seja, nas desastrosas.

Orson Welles dizia que o “happy end” é só uma questão de escolher até onde se pára de contar a história, sendo que nós escolhemos falar daquelas histórias que se detêm aquém ou além do “viveram felizes para sempre”. O mesmo é dizer, que escolhemos histórias de Verão, que na verdade (ou melhor dizendo, na ficção) acabam mal.

Imagine-se a história do Capuchinho Vermelho, se a narrativa terminasse com a menina e a avó dentro da barriga do lobo, dir-se-ia que o conto infantil teria tido um triste fim. Contudo, poder-se-ia também dizer, que da perspectiva do lobo tudo tinha acabado bem, uma vez que o bicho tinha ficado vivo e, ainda para mais, bem alimentado e refastelado.

Por consequência deste exemplo, percebe-se que uma história acabar bem ou mal, não raras vezes é uma questão de perspectiva. Todavia, nós queremos ir mais longe, e assim sendo, as histórias que escolhemos são daquelas que acabam mal seja qual for a perspectiva pela que as olhemos.

Aqui chegados, e uma vez que citámos os realizadores John Ford e Orson Welles, talvez se pensasse que nós nos vamos concentrar sobre ficções cinematográficas, só que não. Vamos sim falar-vos de ficções literárias, e mais concretamente daquelas cujas histórias narram Verões desastrosos.


Só para que se tenha ideia do menu que propomos, teremos obras como “Crematório”, que se inicia logo com um funeral numa das mais solarengas e turísticas localidades de Espanha, “Bonjour Tristesse” que nos relata um autêntico desastre emocional e rodoviário na Riviera Francesa, “O vento atravessando as gruas”, cuja narrativa se situa junto ao mar no Algarve, “Morte em Veneza” cujo título explica tudo, “Bruscamente no Verão Passado” em que também nada do que acontece é alegre, “Na Praia de Chesil” onde não só tudo acaba mal, como igualmente começa de forma péssima, e ainda muitas outras histórias mais, todas elas bem tristes e depressivas.

Haverá quem eventualmente possa pensar, que tudo isto que propomos é um menu pouco apropriado para o Verão, em que o que se quer são refeições leves e frescas. Nós dizemos que não, pois o Verão é uma época tão boa como outra qualquer, para se andar abatido e macambúzio.

Acabe-se de vez com tais preconceitos, se o Outono é dado à melancolia, o Inverno a constipações e angústias existenciais e a Primavera a alergias várias, por que não pode o Verão ser também dado a sentimentos e sensações negativas, pesadas e desesperantes? Pois claro que pode, ora essa!

No fundo, há que encarar esta nossa triste e depressiva jornada literária por Agosto adentro como uma espécie de vacina ou antídoto. Quem está feliz e contente da vida de férias na praia, no campo, na cidade ou simplesmente no lar de papo para o ar, ficará certamente ainda mais satisfeito se inocular uma pequena dose ficcional de depressão, tristeza e miséria, pois desse modo desenvolverá anticorpos contra esses vírus.

E pronto, terminamos por aqui esta introdução, agora é só esperarem pela primeira dose, que provavelmente chegará amanhã ou depois, e a seguir a essa mais virão, até ao derradeiro dia de Agosto.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Os professores vão fazer greve em 2023? Mas porquê? Pois se levam uma vida de bilionários e gozam à grande

  Aproxima-se a Fim de Ano e o subsequente Ano Novo. A esse propósito, lembrámo-nos que serão pouquíssimos, os que, como os professores, gozam do privilégio de festejarem mais do que uma vez num mesmo ano civil, o Fim de Ano e o subsequente Ano Novo. Com efeito, a larguíssima maioria da população, comemora o Fim de Ano exclusivamente a 31 de dezembro e o Ano Novo unicamente a 1 de janeiro. Contudo, a classe docente, goza também de um fim de ano algures no final do mês de julho, e de um Ano Novo para aí nos princípios de setembro.   Para os nossos leitores cuja agilidade mental eventualmente esteja toldada pelos tantos comes e bebes ingeridos na época natalícia, explicitamos que o fim do ano letivo é em julho e o início em setembro. É disso que aqui falamos, esclarecemos nós, para o caso dessa subtil alusão ter escapado a alguém.   Para além da classe docente, são poucos os que têm esta oportunidade, ou seja, a de ter múltiplas passagens de ano num só e mesmo ano...

Que bela vida a de professor

  Quem sendo professor já não ouviu a frase “Os professores estão sempre de férias”. É uma expressão recorrente e todos a dizem, seja o marido, o filho, a vizinha, o merceeiro ou a modista. Um professor inexperiente e em início de carreira, dar-se-á ao trabalho de explicar pacientemente aos seus interlocutores a diferença conceptual entre “férias” e “interrupção letiva”. Explicará que nas interrupções letivas há todo um outro trabalho, para além de dar aulas, que tem de ser feito: exames para vigiar e corrigir, elaborar relatórios, planear o ano seguinte, reuniões, avaliações e por aí afora. Se o professor for mais experiente, já sabe que toda e qualquer argumentação sobre este tema é inútil, pois que inevitavelmente o seu interlocutor tirará a seguinte conclusão : “Interrupção letiva?! Chamem-lhe o quiserem, são férias”. Não nos vamos agora dedicar a essa infrutífera polémica, o que queremos afirmar é o seguinte: os professores não necessitam de mais tempo desocupado, necessitam s...

Se a escola não mostrar imagens reais aos alunos, quem lhas mostrará?

  Que imagem é esta? O que nos diz? Num mundo em que incessantemente nos deparamos com milhares de imagens desnecessárias e irrelevantes, sejam as selfies da vizinha do segundo direito, sejam as da promoção do Black Friday de um espetacular berbequim, sejam as do Ronaldo a tirar uma pastilha elástica dos calções, o que podem ainda imagens como esta dizer-nos de relevante? Segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, no pré-escolar a idade média dos docentes é de 54 anos, no 1.º ciclo de 49 anos, no 2.º ciclo de 52 anos e no 3.º ciclo e secundário situa-se nos 51 anos. Feitas as contas, é quase tudo gente da mesma criação, vinda ao mundo ali entre os finais da década de 60 e os princípios da de 70. Por assim ser, é tudo gente que viveu a juventude entre os anos 80 e os 90 e assistiu a uma revolução no mundo da música. Foi precisamente nessa época que surgiu a MTV, acrónimo de Music Television. Com o aparecimento da MTV, a música deixou de ser apenas ouvida e pa...

Chove na alma de Portugal - Capítulo III

Continuamos hoje esta nossa série de textos dedicados à alma portuguesa, sendo que nos dias que correm, só há uma certeza, a de que chove, e muito. A lusitana nação pode ser tudo ou não ser nada, mas o que é certo, é o que nos últimos tempos está constantemente toda encharcada. Não é comum vivermos desta forma, nesta espécie de contínuo dilúvio, mas ainda assim, é possível entrevermos a alma portuguesa, mesmo com tanta e tão intensa chuva. Para tal, nada melhor do que falarmos da poesia nacional. Vejamos para começarmos, este breve poema de Nuno Júdice (1949-2024): Chove como sempre. E, sempre que chove, as pessoas abrigam-se (as que não estavam à espera que chovesse); ou abrem, simplesmente, o chapéu-de-chuva - de preferência com fecho automático. Porque, quando chove, todos temos de fazer alguma coisa: até nós, que estamos dentro de casa. Vão, uns, até à janela, comentando: "Que Inverno!" sentam-se, outros, com um papel à frente: e escrevem um poema, como este. Diga-se de p...

A alma de Portugal cheira a peixe - Capítulo IV e final

  Para terminarmos esta nossa série de textos dedicados à alma de Portugal, vamos ser simultaneamente peixeiros, poéticos e populares. Todavia, não o seremos necessariamente por esta ordem, ou seja, iremos efabular acerca desta tríade de assuntos, peixes, poemas e uma música popular, mas sem estabelecermos qualquer hierarquia entre esses três temas. Poder-se-ia bem dizer que temos um triângulo de temáticas, ou seja, uma figura geométrica com três lados iguais e os respectivos vértices onde cada uma das linhas se encontra com as restantes. Significa isto, entre outras coisas, que hoje nos vamos concentrar na poesia nacional, no peixe fresco e numa canção popular, uma trindade que a nosso ver, reflecte plenamente a alma portuguesa. Comecemos por um dos vértices do dito triângulo temático, a saber, o que une peixe e poesia. Bem sabemos que nesta nossa amada pátria, há quem seja muito intelectual e que, por consequência disso, não goste de misturar poesia com peixe. Para a fina intelec...

American Friends

  Há muito quem por cá, e também pelo resto da Europa, sofra de um complexo de superioridade relativamente aos Estados Unidos da América. É certo que nos últimos tempos se têm verificado na grande nação norte-americana, alguns acontecimentos mais inusitados, contudo, e ainda assim, há poucas razões para alguém no chamado velho continente, se sentir superior às gentes dos bons USA.   São muitos os exemplos que se poderiam apresentar, de como os EUA´s são superiores à Europa em quase tudo o que fazem, todavia, nós escolhemos ao dia de hoje, centrar a nossa atenção em apenas um desses aspectos, a saber, na estreita e íntima relação existente entre universidades e arte.   Só para iniciarmos a conversa, veja-se a imagem abaixo do   Weisman Art Museum, pertencente à Universidade do Minnesota.                     O edifício do museu da Universidade do Minnesota foi...

A propósito de “rankings”, lembram-se dos ABBA? Estavam sempre no Top One.

Os ABBA eram suecos e hoje vamos falar-vos da Suécia. Apetecia-nos tanto falar de “rankings” e de como e para quê a comunicação social os inventou há uma boa dúzia de anos. Apetecia-nos tanto comentar comentadores cujos títulos dos seus comentários são “Ranking das escolas reflete o fracasso total no ensino público”. Apetecia-nos tanto, mas mesmo tanto, dizer o quão tendenciosos são e a quem servem tais comentários e o tão equivocados que estão quem os faz. Apetecia-nos tanto, tanto, mas no entanto, não. Os “rankings” são um jogo a que não queremos jogar. É um jogo cujo resultado já está decidido à partida, muito antes sequer da primeira jogada. Os dados estão viciados e sabemos bem o quanto não vale a pena dizer nada sobre esse assunto, uma vez que desde há muito, que está tudo dito: “Les jeux sont faits”.   Na época em que a Inglaterra era repetidamente derrotada pela Alemanha, numa entrevista, pediram ao antigo jogador inglês Gary Lineker que desse uma definição de futebol...

Avaliação de Desempenho Docente: serão os professores uns eternos adolescentes?

  Há já algum tempo que os professores são uma das classes profissionais que mais recorre aos serviços de psicólogos e psiquiatras. Parece que agora, os adolescentes lhes fazem companhia. Aparentemente, uns por umas razões, outros por outras completamente diferentes, tanto os professores como os adolescentes, são atualmente dos melhores e mais assíduos clientes de psicólogos e psiquiatras.   Se quiserem saber o que pensam os técnicos e especialistas sobre o que se passa com os adolescentes, abaixo deixamos-vos dois links, um do jornal Público e outro do Expresso. Ambos nos parecem ser um bom ponto de partida para aprofundar o conhecimento sobre esse tema.   Quem porventura quiser antes saber o que pensamos nós, que não somos técnicos nem especialistas, nem nada que vagamente se assemelhe, pode ignorar os links e continuar a ler-nos. Não irão certamente aprender nada que se aproveite, mas pronto, a escolha é vossa. https://www.publico.pt/2022/09/29/p3/noticia/est...

Aos professores, exige-se o impossível: que tomem conta do elevador

Independentemente de todas as outras razões, estamos em crer que muito do mal-estar que presentemente assola a classe docente tem origem numa falácia. Uma falácia é como se designa um conjunto de argumentos e raciocínios que parecem válidos, mas que não o são.   De há uns anos para cá, instalou-se neste país uma falácia que tarda em desfazer-se. Esse nefasto equivoco nasceu quando alguém falaciosamente quis que se confundisse a escola pública com um elevador, mais concretamente, com um “elevador social”.   Aos professores da escola pública exige-se-lhes que sejam ascensoristas, quando não é essa a sua vocação, nem a sua missão. Eventualmente, os docentes podem até conseguir que alguns alunos levantem voo e se elevem até às altas esferas do conhecimento, mas fazê-los voar é uma coisa, fazê-los subir de elevador é outra.   É muito natural, que sinta um grande mal-estar, quem foi chamado a ensinar a voar e constate agora que se lhe pede outra coisa, ou seja, que faça...

Luzes, câmara, ação!

  Aqui vos deixamos algumas atividades desenvolvidas com alunos de 2° ano no sentido de promover uma educação cinematográfica. Queremos que aprendam a ver imagens e não tão-somente as consumam. https://padlet.com/asofiacvieira/q8unvcd74lsmbaag