Vamos hoje para o sexto texto desta nossa série estival, dedicada a Verões terríveis.
“Bonjour Tristesse” é um romance de Françoise Sagan, que posteriormente foi maravilhosamente adaptado ao cinema.
As cores da película são magníficas, sendo que toda a história decorre num luminoso Verão, tendo como paisagem de fundo a esplendorosa Côte d’Azur. Há namoros, festas, banhos de mar, sol e diversão, mas infelizmente por causa de futilidades, de ciúmes, de amores e desamores, tudo finda numa tragédia.
A narradora de 17 anos, Cécile, é uma moça manipuladora, mimada, caprichosa e que adora a sua vida sem rígidas regras. Raymond, o pai da rapariga, é um homem atraente, aparentemente fútil, viúvo e muito dado a namoricos com raparigas mais jovens. Elsa a actual e superficial amante de Raymond, também está presente neste início de Verão.
Cécile, Raymond e Elsa estão a passar um Verão idílico e completamente despreocupado numa magnífica casa alugada mesmo junto ao mar Mediterrâneo.
No entanto, a rotina dos três muda drasticamente com a chegada de Anne, que foi convidada por Raymond. Anne é uma amiga da falecida mãe de Cécile. É uma mulher elegante, inteligente, madura e crente em regras e princípios morais, tudo características que contrastam com as de Cécile e de Raymond, o que faz entrever um desastre.
Vejamos como a caracteriza Cécile: “Je me disais : Elle est froide, nous sommes chaleureux ; elle est autoritaire, nous sommes indépendants ; elle est indifférente : les gens ne l’intéressent pas, ils nous passionnent, elle est réservée, nous sommes gais.”
Uma vez instalada, Anne assume imediatamente o papel de educadora, tentando impor alguma ordem e disciplina na vida caótica do pai e da filha. Anne obriga Cécile a estudar para os exames escolares e proíbe-a de continuar a ver Cyril, um jovem universitário com quem ela tem um leve romance de Verão.
Com o decorrer dos dias, Raymond, o pai, acaba por se apaixonar pela classe e inteligência de Anne e assim sendo, deixa a superficial Elsa. Pouco depois anuncia que se irá casar com Anne e como seria expectável, Cécile, a filha, fica altamente contrariada e triste com tal matrimónio.
Pressentindo que a sua liberdade e a cumplicidade com o seu pai estão em risco, Cécile decide conceber um plano maquiavélico para afastar Anne. Cécile convence Cyril e Elsa a fingirem que estão apaixonados. O objectivo é fazer ciúmes a Raymond, o seu pai, ferindo o seu orgulho masculino. O plano funciona na perfeição, Raymond cai na armadilha e seduz novamente Elsa quando vão de passeio pela floresta.
O mal é que Anne apanha Raymond e Elsa juntos. Desesperada e profundamente humilhada, Anne pega no seu carro e conduz loucamente por entre as curvas e contra-curvas das apertadas estradas que circundam o mar Mediterrâneo.
Pouco tempo depois, o pai e a filha recebem a notícia de que Anne sofreu um acidente fatal numa ravina. Fica sem resposta se esse acidente o terá sido efectivamente, ou se porventura terá resultado de uma ação premeditada de Anne.
A segunda parte da história passa-se em Paris e já no Inverno, após os tristes acontecimentos estivais. O ambiente é agora outro, no filme tudo deixou de ser a cores, as imagens passaram a ser num melancólico preto e branco.
Inicialmente abalados pelo remorso, Raymond e Cécile, pai e filha, regressam portanto a Paris. Embora lamentem o desastroso destino de Anne, passado pouco tempo ambos voltam à sua antiga vida fútil, superficial e com frequentes festas.
Todavia, Cécile tem consciência de que a sua vida mudou, agora todas as manhãs ao acordar sente-se acompanhada por um novo sentimento de culpa e melancolia. Toda a despreocupada e alegre vida que levava antes era completamente inocente, contudo, neste momento, há em si um peso e um lamento que não se vão embora.
Peso e lamento ao qual ela dá as boas-vindas dizendo: “Bonjour Tristesse”.
Na cena final da adaptação cinematográfica, Cécile dança com Jacques, um rapaz que acabou de conhecer:
Jacques: May I take you to the races tomorrow?
Cécile: I'd love to go. Thank you, Jacques.
Cécile (em pensamentos): And after the races he'll take me to dinner and dancing again, and on Thursday to the tennis matches, and on Sunday to the country.
What a waste of time, dear Jacques. What a hopeless waste of time.
Juliette Gréco, musa inspiradora dos filósofos existencialistas dessa época, surge de seguida e canta assim:
I live with melancholy
My friend is vague distress
I wake up every morning
And say, "Bonjour tristesse"
E pronto, assim terminamos este sexto texto da série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve um outro haverá, é aguardar.




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