Na mais famosa peça de Shakespeare, a dado momento, um fantasma ordena a Hamlet que vingue o assassinato do seu pai, matando o Rei Cláudio, o autor do dito crime. No entanto, o fantasma adverte explicitamente Hamlet para não ferir a sua mãe, a Rainha Gertrudes, comprovada cúmplice do referido Rei Cláudio.
Ao invés de procurar vingar-se dela, Hamlet é instruído pelo fantasma a deixar a sua mãe em paz, e a aceitar que ela seja julgada por Deus ("o céu"), permitindo desse modo que esta ande eternamente atormentada pela sua própria culpa e consciência ("esses espinhos que em seu peito se moram"):
“But, howsoever thou pursuest this act,
Taint not thy mind, nor let thy soul contrive
Against thy mother aught. Leave her to heaven,
And to those thorns that in her bosom lodge
To prick and sting her."
Em 1945, John M. Stahl realizou um dos mais intensos melodramas de sempre, ao qual deu o título “Leave her to heaven”, filme que em português se chamou “Amar foi a minha perdição”.
Leva quase uma hora de filme, para percebermos o quão perturbadora esta história realmente é. A improvável Ellen Berendt, interpretada pela deslumbrante Gene Tierney, conhece o famoso romancista Richard Harland num comboio para o Novo México e, em apenas mais ou menos cinco minutos, consegue infiltrar-se para sempre na vida dele.
A ele bastou-lhe tão-somente deparar-se com olhar dela, para ficar completamente perturbado e, logo de seguida, rendido. Por consequência disso, sua vida começou a subitamente a desmoronar-se.
A narrativa vai avançando ao ritmo de um absurdo crescente. Tudo se inicia com um casual encontro romântico num comboio, ao qual se seguem comportamentos claramente manipuladores, passando-se depois para o horror absoluto, e por fim, tudo culmina num intenso drama, daqueles em que já nada faz sentido, e que em desespero total, só resta erguer os braços para os céus em sinal de total resignação e desespero.
Os céus radiantes, as ondas do lago azuis cintilantes e as montanhas rudes do sudoeste norte-americano, compõem um magnífico cenário, contudo, talvez nada disso se compare à extraordinária visão que é Gene Tierney, no papel de Ellen Berendt.
O simples arquear de uma sobrancelha, o quase imperceptível entreabrir dos seus sinuosos lábios, a sua predadora e impecável beleza trazem-nos à mente uma tão fascinante como perigosa medusa. Dir-se-ia que bastaria contemplar um seu único olhar, para imediatamente nos fazer o coração parar de bater.
Ellen Berendt viajava de comboio por ter ido ao funeral do seu progenitor. Mas seja espalhando as cinzas de seu pai, talvez amado até demais, por um desfiladeiro ao amanhecer, ou caminhando furtivamente pelo seu quarto, a Ellen de Gene Tierney, não é definitivamente deste mundo. Ela é mais do que uma anomalia humana, é quase uma piada cósmica.
No filme não há qualquer tentativa de psicanalisar esse aparente monstro que é Ellen, pois simplesmente assistimos, tão impotentes quanto o seu marido, como ela arrasta consigo todos os que a rodeiam, para o fundo de um abismo.
As maquinações vingativas e vis de Ellen parecem surgir quase do nada, no entanto, são aceites com uma atitude provavelmente desculpabilizante pela sua família. Diz o seguinte a sua mãe, a dado momento da película: “There's nothing wrong with Ellen. It's just that she loves too much”.
Ellen Berent apaixonou-se por Richard enquanto ambos viajavam de comboio, e isto devido à suposta grande semelhança deste com o pai dela, recentemente falecido, e a quem ela admirava obsessivamente.
Ellen está noiva de um ambicioso advogado de Boston, Russell Quinton, que lhe implora para não se casar tão depressa com Richard, temendo a repercussão negativa que isso traria à sua futura campanha política. No entanto, ela rompe o noivado com Russell e casa-se rapidamente com Richard.
A princípio Richard anda fascinado, não apenas pela beleza de Ellen, mas também por a sua intensa e exótica personalidade. Contudo, aos poucos, torna-se-lhe evidente que Ellen possui tremendos ciúmes de qualquer pessoa ou actividade à qual ele se dedique.
Danny, o irmão mais novo de Richard, que possui uma deficiência e a quem Richard ama profundamente, vai morar com o casal, apesar de Ellen implorar ao médico que não permita tal mudança.
Ellen irrita-se cada vez mais com a presença de Danny e com a atenção que ele recebe de Richard. Certo dia, enquanto ela e Danny passeavam de barco a remo, Danny decide ver até onde consegue nadar. No entanto, as suas pernas paralisadas arrastam-no para baixo, para o fundo. Ellen observa, sem qualquer compaixão ou reação, Danny a lutar por se manter à tona.
Danny afoga-se diante dela, enquanto Ellen, estática, não faz o menor gesto. Somente quando ouve Richard a aproximar-se do lago, é que Ellen começa a gritar.
Mais tarde, Ellen engravida, mas diz à sua irmã Ruth, que tem um profundo desprezo pelo “little beast” que carrega no ventre. Em seguida, provoca deliberadamente um aborto. Após passar algumas semanas no hospital, Ellen retorna a casa e logo acusa Ruth de estar apaixonada por Richard.
Dadas todas estas circunstâncias, Richard começa a suspeitar que Ellen é a responsável tanto pela morte do seu irmão, quanto pela de seu filho. Quando Ellen confessa que realmente deixou afogar o seu irmão e que o faria de novo, Richard abandona-a.
Ellen decide então envenenar-se, incriminando friamente Ruth por ter ciúmes da amizade calorosa, porém inocente, que Ruth mantinha com seu marido. Fingindo ser uma vítima, Ellen escreve ao seu ex-noivo, que entretanto tinha sido promovido a promotor público, relatando suas acusações de assassinato e alegando que Ruth queria vê-la morta.
Após tudo isto, Richard aparece a ser duramente interrogado por Russell, o promotor público responsável pelo julgamento de Ruth. Russell pressiona Ruth a admitir que sempre amou Richard. Em resposta, Richard, que antes não dizia muito, senta-se no banco das testemunhas e depõe sobre o ciúme doentio de Ellen e as confissões que ela lhe fizera.
Ruth é absolvida, mas Richard é condenado a dois anos de prisão por cumplicidade na morte do irmão, e isto por ter ocultado aos investigadores o que sabia.
O realizador Martim Scorsese analisou a mais infame cena do filme, aquela do lago em que a personagem de Tierney, Ellen, usando uns frios óculos escuros, observa calmamente o afogamento do irmão mais novo de seu marido, que possui uma deficiência.
Martin Scorsese admira a maneira como o realizador John M. Stahl filmou aquele momento aterrador, ou seja, sem um qualquer acompanhamento musical, apoiando-se em vez disso, numa atmosfera serena e silenciosa, facto que torna a impiedade de Ellen simultaneamente bela e cruel.
E pronto, por tudo isto o que foi dito, não há dúvida que para uns quantos certos seres humanos, amar será sempre a sua perdição.






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