Continuamos com a nossa série estival, dedicada a Verões desastrosos. Hoje, para o sétimo texto, o assunto é “O Mensageiro”, obra célebre pela sua marcante frase inicial, cujo tom e musicalidade é provavelmente intraduzível para português: “The past is a foreign country: they do things differently there.”
“O Mensageiro” foi escrito por L. P. Hartley em 1953, em 1973 foi adaptado para o cinema por Joseph Losey, tendo o filme recebido imenso prémios e inclusivamente a Palma de Ouro no Festival de Cannes desse ano.
A narrativa começa décadas depois de tudo se ter passado, quando o protagonista, Leo Colston, um homem agora já nos seus sessenta e muitos, encontra um seu antigo diário, onde relata o que lhe aconteceu no quente Verão de 1900.
Leo tinha então 12 anos e estava de visita a Brandham Hall, em Norfolk, a propriedade da família de Marcus, um seu colega de colégio, pertencente à mais alta aristocracia britânica, que o convidou a passar o Verão consigo na sua casa de família.
Leo vê-se numa posição inferior em Brandham Hall, pois aí mais não é que um mero mortal que circula entre semi-deuses e semi-deusas de nobre porte e cuja riqueza é imensa. "Pela primeira vez na vida, tive consciência plena da minha inferioridade social”, concluiu Leo logo nos momentos iniciais da sua estadia.
Porém, ele decide manter o seu humilde status em segredo, isto muito embora a mãe do seu colega Marcus, a Sra. Maudsley, possua uma capacidade extrema, a de só com um olhar o meter imediatamente no seu lugar.
Marian, a irmã mais velha de Marcus, é a primeira visão de Leo na vida da beleza feminina. “É então assim a beleza”, pensa Leo de si para consigo.
Marian é encantadora e percebe o constrangimento de Leo relativamente à sua condição social, no entanto, decide não abordar tal assunto. Marian vê que Leo não trouxe roupas adequadas para o Verão e leva-o a Norwich, a cidade mais próxima, para lhe comprar um fato verde de enorme estilo estival.
O noivado de Marian com um jovem visconde local, Hugh Trimingham, será em breve anunciado. Trimingham retornou recentemente da guerra com uma metade da cara desfigurada. Faz a sua vida mostrando-se ao mesmo tempo ferido e elegante. É um homem sensível e inteligente e tem plena consciência do que acontece em seu redor, no entanto, prefere nada deixar transparecer daquilo que realmente pensa.
Abaixo Leo e Trimingham numa das muitas conversas que os dois tiveram ao longo desse longínquo Verão.
O que na verdade está a acontecer é o seguinte: Leo está prestes a aprender os factos da vida. À medida que o Verão decorre e o calor aumenta, Leo transforma-se no mensageiro secreto entre Marian e seu amante, um lavrador local, Ted Burgess. Leo leva e traz as cartas de amor de Marion para Ted e vice-versa.
Leo está algo confuso relativamente ao seu papel nesta história e ao que pensar sobre a situação. Sabe que Marian está próxima de ser oficialmente noiva de Trimingham, pessoa que estima e com quem gosta de conversar, porém, vê-a encontrar-se e trocar cartas íntimas com Ted, o lavrador.
Leo também gosta de Ted, mais a mais que este lhe prometeu ensinar como funcionam as coisas quando o tema é namoro, romance e amor. Com efeito, Leo é muito inocente e necessita de alguns ensinamentos, como ele próprio diz para si mesmo: “the facts of life were a mystery to me, though several of my schoolfellows claimed to have penetrated it."
A dado momento, Leo é assaltado por problemas de consciência, sente em si remorsos por estar a colaborar com Marian e Ted e, por consequência disso, também ele estar de algum modo a ludibriar Trimingham.
Após o anúncio oficial do noivado de Marian e Trimingham, Leo assume ingenuamente que o caso secreto com Ted terminou. Sentindo-se confuso, culpado e preocupado com a duplicidade da situação, o rapaz de 12 anos informa então Marian que não entregará mais nenhuma carta.
Ao ouvir a recusa do rapaz, a fachada protectora e carinhosa de Marian desaparece instantaneamente, reage com extrema agressividade e relembra-o cruelmente do seu estatuto social inferior. Em tom gélido e cortante insulta-o diversas vezes.
Num acto de grande frieza emocional, Marian oferece a Leo dinheiro pelos seus serviços de mensageiro, destruindo assim a ilusão deste, de que ela gostava dele de forma autêntica.
A imagem idealizada e quase divina que Leo tinha de Marian fica estralhaçada, contudo, a explosão de fúria fá-lo ceder, consente levar a Ted uma última mensagem. Será precisamente essa a carta, que acabará por desencadear a fatídica descoberta do secreto caso amoroso por parte da mãe de Marian.
Um dia, estando Marion bastante atrasada para o repasto familiar, a sua mãe, a Sra. Maudsley, desconfia que Leo saberá onde ela estará. Arrasto-o consigo até um casebre na fazenda e apanha os dois amantes em pleno acto sexual. Esse choque destrói para sempre toda a inocência de Leo.
Dominado pelo desespero, Ted comete suicídio com a sua própria arma na cozinha da sua quinta. Marian acaba por casar com o nobre Visconde Hugh Trimingham, conforme o planeado pela sua família. Marian terá um filho fruto da sua paixão com Ted, que Trimingham aceita e cria como se fosse seu.
Em consequência de tudo isto, o jovem Leo sofre um grave esgotamento nervoso e reprime grande parte das memórias daquele desastroso Verão. Leo cresce e torna-se um adulto solitário, céptico e emocionalmente seco, tudo reflexos do medo do amor que adquiriu nesse último Verão da sua infância.
Muitos, muitos anos depois, ao encontrar o seu velho diário de 1900, Leo decide regressar a Norfolk e reencontra uma envelhecida Marian.
Marian teve uma vida longa mas amarga, tendo o seu casamento durado apenas dez anos, até à morte precoce de Trimingham. Idosa e viúva, Marian vive agora isolada quando se reencontra com Leo.
Recordam o passado, “a foreign country”, e Marian pede a Leo que volte a ser o seu mensageiro, por uma última vez. Marian revela-lhe a magnitude que aquela paixão tragicamente interrompida teve na sua vida e pede a Leo que ajude a aproximá-la do seu neto, cujo avô era Ted.
O neto de Marian, Edward, um jovem na casa dos vinte anos, vive atormentado pela crença de que existe uma “maldição familiar”, isto devido ao passado conturbado e aos segredos da sua família. Por esse motivo, ele recusa-se a amar e a procurar a felicidade. Marian deseja que o neto saiba que é fruto de um amor puro e apaixonado, e que, sabendo-o, se liberte do seu medo de viver e amar.
Ao contrário de Leo, que carrega o peso da culpa e do arrependimento, Marian não se culpa nem se arrepende do passado. Ela defende convictamente que o seu amor por Ted Burgess era belo, puro e a única coisa verdadeira na sua vida. Perante isto, Leo cede novamente ao encanto e à vontade de Marian, aceitando levar a sua mensagem ao neto.
“Tell him there's no spell or curse except an unloving heart". é o que o Marian lhe diz.
Feitas as contas, “an unloving heart” é a única maldição que existe, e foi precisamente essa a desastrosa calamidade que atormentou Leo desde o fim de Verão de 1900 e pelo resto da sua vida inteira.
E pronto, assim terminamos este sétimo texto da série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve um outro haverá, é aguardar.






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