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Obras na escola e obras de arte, vistas de rio, sexo, política e afetividade, e um crocodilo


Na imagem temos uma obra de arte, que parece ela própria estar em obras. Há obras intermináveis, umas porque nunca mais acabam, outras porque são infinitas. Seja em qual dos casos for, nós gostamos da ideia de obras que não terminam e que se perpetuam no tempo trazendo consigo memórias do passado e projetando-se no futuro.

Aquilo de que não gostamos é de obras paradas e estagnadas, que transformam o presente num sujo pântano onde não há sonhos, deixando-nos fracos e sem ânimo. Lá mesmo para o fim deste texto, contar-vos-emos uma lenda a este propósito.

Antes disso, vamos ao dia de anteontem, sexta-feira 13 de setembro, em que o jornal Público trazia um artigo relativo à Escola Secundária Camões em Lisboa. O artigo iniciava-se assim: “Fernanda Fragateiro mudou o rosto do Liceu Camões – toques de Midas numa ópera universal. Uma data, uma frase, uma cor. A partir deste ano lectivo, a escola de Lisboa quer estabelecer um diálogo ou uma discussão com a (sua) memória e com o que a rodeia.”

Como talvez os nossos leitores tenham conhecimento, o Liceu Camões foi sujeito a longas obras de requalificação. Nesse contexto, a prestigiada artista Fernanda Fragateiro colaborou com a escola, no sentido de explorar as possibilidades artísticas das palavras, e desse modo dar voz a anseios, angústias e visões dos alunos.
Para além disso, essa colaboração tinha também a intenção de dar a ver em forma de arte, as transformações que a escola iria sofrer em consequência das obras e guardar nos seus espaços as histórias e memórias daqueles que por lá passaram ao longo dos tempos.

Abaixo uma foto do Liceu Camões já recuperado, onde se pode ver/ler uma obra de Fernanda Fragateiro: “2019-2024 vieram de muitos lugares para reparar o tempo”.

Se nos pusermos a adivinhar, diríamos que a obra de Fernanda Fragateiro se refere ao tempo de duração das obras de requalificação do liceu, bem como aos muitos trabalhadores vindos de outros países e latitudes que aí laboraram, de modo a que os estragos que o tempo sempre traz, fossem reparados.



A colaboração com Fernanda Fragateiro iniciou-se ainda em tempo de pandemia, em setembro de 2020. Em tais circunstâncias, tudo começa em confinamento, contudo, isso não impediu que se avançasse, e que mais tarde, os alunos e a artista tivessem criado duas obras de arte para o ginásio da escola, que à época ainda não estava renovado.

A esse projeto foi dado o nome “Infinito Voz”, sendo que as obras criadas seriam necessariamente temporárias, uma vez que com o avanço das obras de requalificação acabariam por ter de ser destruídas. Todavia, o processo que levou à sua criação, esse sim será permanente na memória da artista e dos alunos.

As obras de arte consistiram na inscrição de duas frases nas paredes do ginásio, não de duas frases quaisquer, mas sim de duas frases que resultavam de um trabalho longamente desenvolvido, ou seja, duas frases plenas de significado.

FECHO OS OLHOS VEJO DIFERENTE

A UTOPIA DE UMA ESCOLA SEM MÁSCARA

Quem quiser saber mais sobre esse projeto e ver imagens dessas duas obras, poderá fazê-lo através do link abaixo:


Ao longo dos anos em que decorreram as obras de requalificação, existiram muitas atividades cujo objetivo era que alunos, professores e restante comunidade escolar refletissem sobre qual o papel das obras de arte nas escolas.
Nesse contexto, em abril de 2023, houve uma conferência intitulada “O barulho invisível de uma obra de arte”. Abaixo fica o link com um documento sobre esse evento, nele poderão ver, entre outras, três obras de Fernanda Fragateiro no Liceu Camões. Destacamos uma delas: “1963-1964 nunca ninguém lhe falara de coisas “proibidas”: sexo, política, afetividade”.


Destacámos a obra “1963-1964 nunca ninguém lhe falara de coisas proibidas: sexo, política, afetividade”, para nos pormos novamente a adivinhar. Diríamos que essa obra de Fernanda Fragateiro se refere ao início da década de 60, em que a maior parte dos jovens jamais tinha ouvido falar de certos assuntos, uma vez que nesse tempo em Portugal se vivia em ditadura, a censura era feroz e havia muita coisa acerca da qual quase ninguém se atrevia a abrir a boca.

Imaginamos ainda mais, ou seja, que a sala do Liceu Camões onde agora está colocada a obra “1963-1964 nunca ninguém lhe falara de coisas proibidas: sexo, política, afetividade”, é a mesma exata sala em que há décadas um professor decidiu arriscar e deixar por uns momentos de dar a matéria, e se pôs a conversar com os alunos acerca daquilo de que eles nunca antes tinham conversado. Imaginamos que essa conversa tenha sido importante e decisiva para muitos desses alunos da década de 60, e que a tenham guardado para sempre na memória. Agora essas memórias são arte e são visíveis, e portanto, todos os atuais alunos as podem ver na escola.

É natural que as obras de Fernanda Fragateiro estejam numa escola, pois elas não se limitam a estar em sofisticadas galerias de arte ou em museus não muito acessíveis, muito pelo contrário, vão para a rua, para sítios públicos. Por exemplo, em Lisboa, mesmo junto ao Tejo, há uma obra de Fernanda Fragateiro de 2009, que todos veem ao passar : “A paisagem não tem dono”.

Se nos pusermos mais uma vez a adivinhar que interpretação dar à obra, somos capazes de dizer que é um protesto poético. Logo ali ao lado, a uns poucos metros do local onde está instalada “A paisagem não tem dono”, há imensas esplanadas com vista de rio. Sendo que, os proprietários das ditas, cobram preços exorbitantes a locais e a turistas por uma mera garrafa de água, por um café ou por uma laranjada, pois os clientes acreditam que uma boa vista se paga, e os donos das esplanadas agem em conformidade, como se fossem eles os donos da paisagem.

Ainda bem que está onde está a obra de Fernanda Fragateiro, para a todos nós recordar que “A paisagem não tem dono”.



Em Vila Nova da Barquinha também há, num jardim, uma obra de Fernanda Fragateiro, é de 2012 e chama-se “Concrete poem”. Quem olha para essa obra (imagem abaixo) pode sentir aquela estranheza que por vezes se sente quando estamos diante de obras de arte contemporânea, que resulta de não se perceber qual é o seu significado.

Contemplem a imagem de “Concrete poem” por uns momentos e vejam lá se adivinham o que significa.



Nós não vos vamos dizer o significado de “Concrete poem”, primeiro porque não sabemos, e depois porque são muitos os significados possíveis. Saber-se o “verdadeiro” significado de uma obra de arte contemporânea não tem grande importância, o que verdadeiramente importa é o significado que cada um consegue encontrar.
Na verdade é fácil encontrarmos um significado, basta que tenhamos boa vontade e não tenhamos a mente fossilizada e a sensibilidade entorpecida, basta termos memória do tempo em que éramos crianças e vivermos com alguma poesia.



Atente-se nesta obra de Fernanda Fragateiro que tem sido instalada nos mais diversos sítios do país, “Caixa para guardar o vazio”.



O vazio é algo que podemos preencher com tudo o que quisermos, se para isso tivermos vontade. No vazio há espaço para memórias, para poemas, para o futuro, para entrar e sair e até para brincar.



Uma vez que já demos uma pequena volta por obras de Fernanda Fragateiro, voltemos ao Liceu Camões. Numa das salas de aula está instalada a obra “10.12.2023 eu prometo não vou desistir”.

A frase foi dita pelo Presidente das Nações Unidas em 10 de dezembro do ano passado, e referia-se à sua vontade de continuar a lutar para que os bombardeamentos em Gaza terminem.
Até ao presente momento não cessaram, no entanto, o que no contexto deste texto nos importa, é que a obra “10.12.2023 eu prometo não vou desistir” reflete uma preocupação dos atuais alunos e vai ficar como um testemunho deste nosso presente para os vindouros, fazendo assim uma ponte entre o tempo que passa e o que há de vir.

“10.12.2023 eu prometo não vou desistir” pode ser vista na conta Instagram da artista:


Vejamos uma última obra de Fernanda Fragateiro no Liceu Camões, “08.09.1999 o crocodilo acordou”. Esta obra refere-se às manifestações ocorridas em Portugal, em setembro de 1999, exigindo a independência de Timor-Leste.
Como já calcularão, nessa ocasião, os alunos e docentes do Liceu Camões também participaram nessas grandes manifestações, sendo portanto uma memória da escola que merece ser guardada para o presente e para o futuro.



Como o prometido no início deste texto, e para por hoje terminarmos, aqui vos deixamos a lenda do nascimento de Timor:

Um crocodilo sonhador, sonhava crescer e ter um tamanho descomunal. Tudo era estreito à sua volta, somente o seu sonho era grande. Vivia num pântano com as águas paradas, pouco fundas, sujas e sem abundância de alimentos. Era um sítio onde o crocodilo não poderia realizar o seu sonho de crescer. Passaram-se séculos e séculos, e o crocodilo... sozinho, abandonado, e a passar fome, sentia-se fraco e sem ânimo. Os seus olhos iam-se encerrando e já quase não podia levantar a cabeça e abrir a boca. Vivendo nesta situação, reuniu todas as suas forças para ir procurar comida, mas essas forças eram tão poucas que não davam para tanto.

Um dia passou um rapaz, um rapaz também sonhador que, ao ver o crocodilo naquele estado, prontificou-se a ajudá-lo. Levou-o até ao charco e o crocodilo agradeceu-lhe prometendo levá-lo um dia pelo mar afora. O rapaz gostou da ideia, era esse o seu grande sonho.

Passado algum tempo, o rapaz foi ter com o crocodilo, mais gordo e bem alimentado, pedindo que ele lhe realizasse o sonho prometido. E o crocodilo realizou... Dia e noite, noite e dia, nunca pararam, viam ilhas de todos os tamanhos, de onde as árvores e as montanhas lhes acenavam e as nuvens também.

Não sabiam se eram mais bonitos os dias e as noites, se as ilhas e as estrelas! Caminharam, navegaram, sempre voltados para o sol, até o crocodilo se cansar... Mas entretanto já cansado, virou-se o crocodilo para o rapaz e disse-lhe que não podia mais e que o seu sonho tinha acabado.
O rapaz não quis aceitar o que ele lhe dizia, o seu sonho ainda não tinha terminado! Ainda o rapaz sonhador não tinha dito a última palavra quando o crocodilo aumentou de tamanho, e sem nunca perder a sua forma inicial transformou-se numa bonita ilha, carregada de montes, de florestas e rios... e por isso Timor tem a forma…
                                              … de um crocodilo…

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