“Sou um animal de sala de aula. Adoro tanto dar aulas que estou com medo de ter de me reformar aos 70”
A afirmação que dá título ao nosso texto de hoje, foi proferida pelo
Professor António de Castro Caeiro numa recente entrevista ao semanário
Expresso.
Nós, os deste blog, em tempos já distantes, conhecemos bem o então jovem
Professor António de Castro Caeiro. Tivemos inclusivamente o privilégio de
assistir à sua primeiríssima aula, ali pelo início dos idos anos 90 do século
passado.
O senhor a quem hoje chamam professor, por essa época era baterista da
mítica banda Mata-Ratos, grupo musical que se celebrizou com o tema “A minha sogra é um boi” e que teve um
relativo sucesso com títulos como “Expulsos
do Bar”, “Paralisia Cerebral” e “Tira,
enrola e come”.
Depois dessas aventuras de juventude, importa dizer sobre António de Castro
Caeiro, que é professor na Universidade Nova de Lisboa, na Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas, onde há muito lecciona Filosofia Antiga, Grego,
Latim e Alemão.
“Há em mim
espanto e fascínio relativamente a tudo e um elemento lírico que transforma o
horror em belo”.
No entardecer de um dia do já antes referido
início dos idos anos 90, António de Castro Caeiro falou-nos com toda a
seriedade e rigor científico deste mundo, de fenomenologia alemã e das concepções
do seu fundador, o filósofo Edmund Husserl (1859-1938).
Todavia, como vindo do nada, mas ainda assim a
propósito de tudo, e para o nosso mais absoluto espanto, decidiu recitar um
poema de Kaváfis.
Konstantínos Kaváfis (1863-1933) foi um poeta
grego que toda a vida viveu em Alexandria no Egipto, essa cidade
cujo nome vem de Alexandre o grande, que tem diante de si o Mar Mediterrâneo, e
que ainda que, em termos formais seja egípcia, ela é em termos
histórico-culturais fundamentalmente helénica.
O poema de Kaváfis, que António de Castro
Caeiro recitou, intitula-se “O sol da
tarde”:
Este quarto,
como o conheço bem!
Agora
aluga-se não só este, como também o do lado
para
escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios
de corretores, de comerciantes, de Sociedades.
Ah…neste
quarto nada me é estranho.
Junto à
porta, aqui, estava o sofá,
e diante
dele um tapete turco;
perto, a
estante com dois vasos amarelos.
À direita;
não, em frente, um armário com espelho.
Ao centro, a
mesa onde escrevia;
e as três
grandes cadeiras de palha.
Ao lado da
janela estava a cama
onde nos
amámos tantas vezes.
Devem estar
em algum lugar essas pobres coisas.
Ao lado da
janela estava a cama
o sol da tarde
chegava-lhe até a metade.
...Uma
tarde, às quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma
semana apenas ... Ai de mim,
aquela
semana tornou-se para sempre.
“Há alguma
relação possível entre andar à porrada, andar à pêra e ser bom filósofo?”, é uma questão que aparenta ser um tanto ou
quanto inusitada, mas à qual o Professor António de Castro Caeiro também
dedicou o seu tempo.
Há na verdade uma relação histórica e
etimológica entre o combate físico e a filosofia, para o sabermos, basta olharmos
para as raízes da disciplina na Grécia Antiga.
O nome "Platão" aplicava-se aos
lutadores, do grego Platys, que
significa largo ou amplo. Platão ganhou esse seu cognome, devido ao seu porte
físico, ou seja, aos seus largos e desenvolvidos ombros, semelhantes aos dos
lutadores. O nome que a Platão lhe tinha sido dado à nascença, era o de Aristocles.
Platão terá sido um praticante de Pankration,
uma modalidade de combate que misturava luta livre e boxe. Para os gregos
antigos, a busca pela verdade exigia o domínio do corpo. Um corpo forte e
saudável, era visto como sendo algo de indissociável e indispensável a uma
mente brilhante.
Mas para além disso, a filosofia foi muitas
vezes entendida como um combate. Filósofos como Nietzsche exploraram o conceito
helénico de luta ou disputa, como sendo estas o motor da inteligência humana.
Com efeito, a filosofia clássica não era
apenas contemplação, mas sim uma exposição ao outro e uma constante tensão dialéctica,
apenas comparável ao confronto físico, ou seja, ao “andar à porrada, andar à pêra”.
“Umas vezes parecia
dançarem um slow e o movimento era lento, lânguido, voluptuoso. Outras vezes, parecia um combate entre dois lutadores que procuram encontrar o ponto fraco do adversário…”
Não raras vezes, António de Castro Caeiro
escreve sobre educação, contudo, a
forma como aborda esse tema, remete-nos para a antiguidade clássica e para a
origem primeira desse termo: “A palavra
que os gregos, em geral, usam para referir o que podemos chamar educação é
paideia. Habitualmente é a palavra que usamos para traduzir em grego o que
dizemos já nas línguas modernas para nos referimos a educação. Mas o que é que
os gregos pensavam que era a paideia. A palavra tem na sua raiz “pais, paidos”
que quer dizer criança. O sentido é mais o de uma brincadeira de crianças. A
situação crítica da padeia não refere apenas a circunstância de se pensar a
paideia para crianças, a sua instrução e educação, mas uma aprendizagem para a
vida. A paideia formalmente queria dizer uma brincadeira para se aprender a
compreender de que é que se trata na vida.”
O que António de Castro Caeiro nos diz, é que
a educação (a paidéia, para os gregos antigos) é fundamentalmente uma
aprendizagem para se aprender e saber viver.
A educação não é tão-somente apreender um
conjunto de conteúdos curriculares e de matérias diversas, pois o seu fim mais
digno e maior, é a vida, e isso fica tanto mais explícito na passagem abaixo:
“A padeia tal como era pensada por Platão não era um corpo de disciplinas que formava um currículo, para a instrução primária, ciclo preparatório, curso complementar, ensino superior, para usar o nome das etapas que uma miúda ou miúdo da minha idade tiveram que ultrapassar. Era uma outra coisa completamente diferente e que faz parte do que podemos chamar criação e o que está na base do modo como fazemos experiência das coisas na vida, como temos ou não temos experiência da vida, como temos ou não temos mundo."
A educação (a paidéia) é uma preparação para o
combate, assim como os melhores lutadores são os que sabem antecipar os
movimentos dos seus adversários, assim os melhores educados são os que sabem
antecipar as mudanças, imprevistos e adversidades da vida.
Não é decorando os passos e repetindo
exaustivamente os mesmos previsíveis gestos e movimentos, que se vence um
combate. Não é decorando conteúdos curriculares e repetindo exaustivamente os
mesmos previsíveis exercícios académicos que se educa e prepara para a vida.
A educação (paidéia) que prepara para a vida é
aquela que desenvolve competências, ou seja, capacidades de, tendo como base o
que se aprendeu, se ter a faculdade de se criar e inventar novos, originais e
imprevisíveis gestos e movimentos, e de se antecipar o que se segue, o futuro.
“O processo
de paideia de que Platão fala visa uma única coisa através de um processo
complexo e de uma lenta agonia. O objectivo é o combate e o objectivo do
combate é a vitória. Mas o mais importante é a compreensão de que nada do que
se aprendeu fará sentido se não houver a capacidade de antecipação. Poderíamos
falar de rotina de mecanismos. Podemos compreender que um jogador inato tem um
talento que desenvolve, mas é nas situações concretas mais difíceis que ele
inventa ou descobre a solução a partir do património de soluções que já estudou
mas que têm de sair como se estivessem a ser inventadas na hora. Quem sabe faz
a hora. Não espera acontecer.”
A educação (paidéia) não é uma espécie de
mecanismo em que se transmite aos alunos as aprendizagens que há para aprender,
é mais do que isso, é sobretudo o desenvolvimento de competências que nos
permitam não permanecermos paralisados perante o que não sabemos, não ficarmos
bloqueados pelo que não conseguimos e não estancarmos ante a vida e as suas
contínuas metamorfoses.
Em síntese, a educação ensina-nos que a vida é
luta. Luta, mas uma luta lúdica, que consiste em lutar pela alegria, por
ideias, por conhecimentos, pela beleza, pelas artes e letras, e também pelo
saber científico. Por consequência, educar para a vida é combater a tristeza, o
medo, a ignorância, a fealdade e a intolerância. A vida não é permanecer-se
estancado no passado, mas sim caminhar alegremente, quase a brincar, em
direcção a um futuro mais luminoso.
“Em causa está a situação lúdica ou da brincadeira séria com diversos limites de aprendizagem que não pretendem nunca uma repetição do que está a ser aprendido, uma lembrança em memória que diz tin tin por tin tin o que é repetido. Visa-se a resolução de uma situação crítica em face da qual, na vida, não há nenhuma espécie de solução. A filosofia não é o saber de tudo o que há para saber, a fim de obter uma repetição mecânica do que se aprendeu. Visa instruir-nos para as situações em que não sabemos nada da vida, não temos respostas e, ainda assim, temos de sobreviver o melhor possível. Quando não se sabe, quando não se pode, quando não se é capaz, talvez se possa gizar um sentido à luz do qual haja uma perspectiva com futuro.”
Aqui chegados, é de salientar que o Professor António de Castro Caeiro não se preocupa
apenas com a educação dos mais novos, mas também se dedica à educação de
adultos.
Será talvez impressão nossa, mas estamos em crer que nunca antes os adultos estiveram tão mal preparados para combater, o mesmo é dizer, tão pouco educados para vida.
Onde isso é mais visível, é na falta de
competências que muitos hoje em dia têm para lidar com sentimentos, seja com os
próprios, seja com os alheios. Terá sido por tal razão, que o Professor António
de Castro Caeiro se dedicou a promover uma série de conferências sobre os
sentimentos.
São imensos os que só sentem, mas que pouco ou nada
sabem do que sentem. Há uns versos de Luís Vaz de Camões que falam desse mesmo
desconhecimento, no entanto, de modo oposto ao do poeta que pelo menos sabia
que não sabia que sentimentos o invadiam, donde vinham e porque lhe doíam, actualmente
parece que nem isso se sabe.
Que dias há
que n’alma me tem posto
Um não sei
quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei
como, e dói não sei porquê.
António de Castro Caeiro falou sobre o Espanto, o Desejo, a Nostalgia,
a Melancolia, o Sublime, a Liberdade, o Amor e a Esperança. Não vamos dizer o
que ele disse, pois tudo isso pode ser ouvido em: https://www.ccb.pt/evento/sobre-os-sentimentos/
Para além de ouvido, pode também ser lido. Com
efeito, foi recentemente editado um livro que transcreve para o papel todas as
conferências.
“Sobre os sentimentos” propõe-se reconstituir
o que sucede quando sentimos. Inicia-se pelo espanto que nos retira do normal
quotidiano. Passa depois às experiências que nos “atiram para fora de nós”: o
desejo e a ira. De seguida, questiona-se donde nos chegam as saudades do
passado vivido e do que nunca vivemos, e por que razão há tanta melancolia.
Quer também aproximar-nos do sublime, da ânsia de liberdade e da possibilidade
de sermos susceptíveis ao amor. Termina com a esperança, sentir fundamental para
estes tempos de descontentamento, de ressentimento e de medo.
E bom, mais não nos alongaremos, excepto para
citarmos uma frase que o Professor
António de Castro Caeiro, também de
quando em vez, tem citado, no caso, uma do poeta helénico Píndaro (518 a.C-438 a.C), que muitos séculos mais tarde, o filósofo
Nietzsche traduziu por: ”Werde der, der
du bist!”.
Para quem eventualmente desconheça a língua
alemã, informamos que ”Werde der, der
du bist!”, pode ser traduzido para português de várias formas, como por
exemplo, “Torna-te tal como tu és, tendo
aprendido o que isso é”, ou “Sê
verdadeiro contigo próprio, agora que aprendeste que tipo de homem tu és”, ou
ainda “Tendo aprendido, torna-te em quem
tu és” ou, e finalmente, a tradução de que mais gostamos, “Sê quem sabes que és”.
Seja qual for a tradução escolhida, o certo é
que a frase de Píndaro nos fala de educação, seja de crianças, seja de
adultos, e o igualmente certo, é que só podemos estar felizes por no início dos
idos anos 90, a termos ouvido dita pelo jovem António de Castro Caeiro, o então baterista da banda Mata-Ratos.








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