Olhamos pelos ecrãs para o Médio Oriente e não vemos. Desde Beirute ao Cairo e até Bagdade, pouco ou nada sabemos de tais gentes e desses locais, excepto as notícias sempre iguais, guerras, miséria e conflitos político-sociais, em síntese, que vemos nas TV’s.
Talvez uns quantos de nós ainda se recordem do que aprenderam na escola, ou seja, que essas terras foram o berço das civilizações iniciais, os sítios por onde andaram aqueles povos de quem tanto herdámos, como por exemplo, os sumérios, os babilónios, os assírios, os mesopotâmicos ou os antigos egípcios.
Por entre os três grandes rios que atravessam essas terras, o Nilo, o Tigre e o Eufrates, nasceram deuses, inventou-se a escrita, concebeu-se a matemática e ergueram-se as primeiras grandes cidades da história da humanidade.
Abaixo uma imagem de como seriam os jardins suspensos da Babilónia, cidade que se situava no que é hoje o Iraque.
Sim, estamos muito esquecidos, que foi nessas terras, que teve origem a civilização. Porém, para além da História, estamos ainda mais esquecidos, ou não sabemos de todo, que por esses lados, desde inícios do século XX, existem enormes anseios de modernidade.
Olhamos e não vemos, ou não sabemos de todo, que por esses lugares também houve gente, que através da sua arte, expressou o intenso desejo desses povos de serem modernos, desenvolvidos e livres. Percorramos três cidades e três artistas que nelas habitaram. As urbes são Beirute, Cairo e Bagdade.
Moustafa Farroukh (1901–1957) nasceu em Beirute no Líbano e acreditava piamente que os artistas eram tão necessários para o desenvolvimento e modernização do seu país, quanto o eram os engenheiros, os médicos, os professores e os cientistas.
Partiu para Roma aos 23 anos de idade para aprender a ser um artista moderno. O seu objectivo era regressar ao Líbano, uns anos depois, ou seja, logo após ter concluído os seus estudos. E foi isso mesmo que fez.
No entanto, os primeiros tempos no Ocidente não foram fáceis, pois Moustafa Farroukh estava muito longe de imaginar aquilo por que iria passar. Ele conta-nos tudo numa espécie de diário, que escreveu enquanto esteve em Roma. Livro ao qual deu o título, “O meu caminho para a arte”.
A sua primeira aula do curso de desenho foi um choque violento, que o marcou para a vida inteira. Vindo do Médio Oriente, e tendo sido repentinamente posto perante uma modelo nua, Moustafa Farroukh atrapalhou-se.
“A minha boca ficou subitamente seca e as pernas começaram a tremer-me. Tentei resistir a essa penível e involuntária reação, mas em vão”, foi isso o que ele disse.
Abalado, Farroukh decide deixar a sala de aula e ir rezar, todavia, a sua perturbação manteve-se. Decidiu de seguida tomar um duche frio, mas o efeito foi nulo. Pôs -se então a ler o Corão, e foi a potência de Deus, que finalmente lhe deu coragem e força para prosseguir os seus estudos de anatomia e ver nus.
A partir daí conseguiu olhar e desenhar um corpo humano, como sendo este uma manifestação da criação divina, tendo-o feito pela vida adiante, frequentemente.
Na verdade, Moustafa Farroukh levou para o Líbano a pintura de corpos nus e isso foi algo que à época muito contribuiu para desenvolver e modernizar esse país. Não se trata de uma graça ou ironia, foi mesmo assim o sucedido.
Uma artista libanesa desse mesmo tempo, Omar Onsi (1901–1969), num quadro de 1932, retrata a excitação que era à época no Líbano ir ver arte moderna, e muito particularmente, quando nas obras expostas havia representações de corpos nus.
Veja-se na imagem abaixo, no já referido quadro de 1932 de Omar Onsi, como as mulheres libanesas observam entusiasmadas com uma pintura numa exposição, e como há inclusivamente uma criança, que sendo ainda pequena, parece já estar muito interessada em arte moderna.
Por outras paragens do Médio Oriente, e mais em concreto pelo Egipto, havia também anseios de modernidade expressados através da arte.
Um dos melhores exemplos disso mesmo, é a artista Inji Aflatoun, mulher nascida no Cairo em 1924 e falecida nessa mesma cidade em 1989.
Inji Aflatoun era oriunda de uma próspera e prestigiada família muçulmana, que ela própria descreveu como sendo "semi-feudal e burguesa". Por consequência disso, quando decidiu ser artista e fez as suas primeiras exposições, as pessoas questionavam-se sobre as razões que levariam “uma rapariga de uma família rica a ser tão atormentada.”
As razões de Inji Aflatoun para ser artista, sendo complexas, no fundo eram simples, ela queria através da sua arte expressar o anseio de modernidade do seu povo e, muito particularmente, das mulheres.
No entanto, as coisas não lhe correram bem, isto porque, apesar do regime egípcio de então se dizer progressista, na realidade não estava preparado para tolerar demasiadas liberdades e, assim sendo, Inji Aflatoun foi presa, tendo permanecido quatro anos encarcerada.
Aqui a vemos abaixo, num auto-retrato enquanto artista e prisioneira.
Posteriormente, Inji Aflatoun haveria de ser reabilitada pelas autoridades, sendo hoje unanimemente aclamada no seu país como uma das maiores artistas modernas do Egipto.
Viajemos agora para a terceira cidade, Bagdade, a urbe das mil e uma noites, onde Xerazade contava histórias fantásticas por cada madrugada afora. Entre muitas outras, “Ali Babá e os quarenta ladrões”, “Simbad, o marinheiro” ou “Aladim e a lâmpada maravilhosa”, todas elas narrativas saídas directamente da mente e da boca de Xerazade.
Jawad Salim (1919-1961) é conhecido de todos os habitantes de Bagdade, pois foi ele que criou o enorme monumento dedicado à independência do Iraque, que se encontra numa das principais praças da cidade.
Mas para além desse monumento, Jawad Salim pintou muito. Olhando para os seus quadros, para a geometria que lhes está subjacente, vemos que neles está presente uma cultura milenar. Vejamos alguns dos padrões abstractos, típicos do Médio Oriente há longos séculos.
Vejamos agora como padrões semelhantes nos aparecem na pintura moderna de Jawad Salim. No caso da obra abaixo, é só olhar e ver, essa síntese entre antiguidade e modernidade.
E aqui chegados, tendo passado por Beirute e pelo Cairo, e finalizado em Bagdade, terminamos esta nossa viagem através do moderno Médio Oriente.
Da próxima vez, falaremos sobre a extraordinária história do Museu de Arte Moderna de Teerão, no Irão. É estarem atentos.









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