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O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso...(2ª parte)


A imagem acima é do pintor chinês Du Jin que esteve activo entre 1465 e 1509. É uma pintura da Dinastia Ming e nela vemos um grupo de mulheres a jogar à bola, actividade que era muito popular entre as cortesãs.

É uma imagem que nos demonstra que a bola não é tão-somente um assunto de homens, isto ainda que ao longo deste texto falemos do futebol como um terreno propício ao desenvolvimento da identidade masculina.

Continuamos portanto hoje a dedicarmo-nos ao futebol, o mesmo é dizer, a grandes emoções e a vastas reflexões artísticas e literárias. Para quem não nos leu ontem e perdeu a 1ª parte deste desafio, aqui fica o link: https://ifperfilxxi.blogspot.com/2026/06/o-futebol-nao-e-uma-questao-de-vida-ou.html

Ontem, a propósito de futebol, citámos autores como o multifacetado Pier Paolo Pasolini, o poeta italiano Stefano Benni ou o grande romancista espanhol Javier Marías, hoje começaremos pelo prestigiado escritor inglês Julian Barnes.

Julian Barnes é um escritor imenso, que já foi distinguido com alguns dos mais importantes prémios literários do mundo, no entanto, o clube de que é adepto, o Leicester City, equipa conhecida como os Foxes, nunca ganha nada. Para Barnes, apoiar tal clube significou passar décadas dividido entre "uma esperança moderada e uma decepção esgotante".

Aqui há uns anos, Julian Barnes encontrava-se de viagem por Santiago de Compostela, tendo depois a esse propósito dito o seguinte: “Em Março do ano passado, quando os Foxes estavam na cauda da tabela classificativa e toda a esperança parecia perdida, vi-me em Santiago de Compostela.”


Estando em Santiago, e como seria expectável, Julian Barnes foi visitar a catedral dessa ancestral cidade galega: “Atrás do altar principal da catedral, há um busto esmaltado e cravejado de joias de São Tiago, acessível por escadarias de ambos os lados. Aparentemente, a tradição é que os fiéis esperançosos abracem o santo por trás enquanto lhe fazem um pedido. Não é bem o meu estilo, mas disseram-me que, antes de entrar em campo para jogar o Mundial ou o Europeu, a seleção espanhola sobe as escadas, abraça o busto e pede a vitória.”

O escritor Julian Barnes, que não é propriamente um crente, teve ainda assim um momento de fé, ou quase. Vejamos como ele descreve o que sucedeu no interior do templo: “Então, mais ou menos ironicamente, dei um abraço ao velho São Tiago e pedi-lhe que garantisse que o Leicester City não cairia na segunda divisão. Quando estava prestes a descer pelo outro lado, sussurrei-lhe: se conseguires fazer isso, provavelmente terei de crer em ti.”

Contra todas as probabilidades, o Leicester City acabou por não descer para a segunda divisão nesse ano de 2015, todavia, Julian Barnes não ficou convencido que esse facto se devesse à bondade de São Tiago e à sua capacidade de executar milagres.

Barnes, para tirar as dúvidas, propôs então a São Tiago um novo desafio, um milagre maior, um praticamente impossível, a saber, que na temporada futebolística seguinte, o Leicester City se qualificasse para a Liga dos Campeões.

Aqui fica o modo como Barnes o contou: “Quando a época terminou e os Foxes não só evitaram a descida de divisão, como ficaram a meio da tabela, senti um certo desconforto moral. Assim sendo, e aqui talvez desafiando a sorte com esta minha teologia, falei ao santo na leve questão da Liga dos Campeões para a próxima temporada… disse-lhe: aí sim, acreditarei em ti.”

Não era nada expectável, que o Leicester City, que nunca ganhava nada e o mais que ambicionava era não descer de divisão, no ano seguinte ganhasse o campeonato inglês e se qualificasse para a Liga dos Campeões, no entanto, foi isso mesmo que sucedeu.

Essa vitória do Leicester City foi um dos maiores e mais improváveis feitos futebolísticas de sempre. O Leicester City, uma equipa modesta, ganhou nesse ano, em 2016, o campeonato de Inglaterra, competição onde há clubes cujos orçamentos são dos maiores do planeta, da ordem das centenas de milhões de euros.

As casas de apostas pagaram verbas nunca vistas aos poucos que apostaram no Leicester City campeão, e toda a gente se referiu ao feito como tendo sido um autêntico milagre. Só para que se saiba, o Leicester City está actualmente, ou seja em 2026, na terceira divisão inglesa.


Esse milagre e muito mais, é o que Julian Barnes relata num belo artigo publicado no jornal “The Guardian”, cujo título é “My stupid Leicester City love”:


É altamente provável que Julian Barnes tenha ficado convencido, que o Leicester City foi campeão devido ao pedido que ele próprio fez a São Tiago. Na verdade, são muitos os adeptos do pontapé na bola, que crêem existir uma relação directa entre as suas existências e os sucessos e insucessos dos clubes que apoiam.

Nesse contexto, passemos agora a um outro escritor inglês, Nick Hornby, que com o seu romance de 1992 “Fever Pitch (Febre no Estádio)”, estabeleceu um antes e um depois na relação entre futebol e literatura.

“I fell in love with football as I was later to fall in love with women: suddenly, inexplicably, uncritically, giving no thought to the pain or disruption it would bring with it”, foi isso o que Nick disse, para que todos saibam do que ele fala.

Nick Hornby torce pelo Arsenal. Como todos os clubes, a equipa de Londres tem bons e maus anos, assim como também os tem péssimos e excelentes. O escritor associa esses resultados aos êxitos e falhanços da sua própria vida, coisa que como já dissemos, é comum em não raros adeptos.

Foi logo em muito jovem, quando pela primeira vez fez essa associação: “For the first time, but certainly not the last, I began to believe that Arsenal's moods and fortunes somehow reflected my own.”


O personagem principal de “Fever Pitch” chama-se Nick, um rapaz de onze anos, de classe média, que ficou meio desorientado com o divórcio dos pais. Aos sábados, Nick passa o dia com o pai, sendo que ambos não sabem bem o que dizer um ao outro, nem têm um assunto sobre o qual conversar.

Para passar o tempo, num sábado o pai leva-o a ver um jogo do Arsenal, a partir desse momento, tudo muda. Pai e filho têm agora um infindável tema de conversa, o Arsenal. Pai e filho compartilham agora as emoções resultantes quer de gloriosas vitórias, quer de humilhantes derrotas. Pai e filho encontraram um terreno comum no qual se conseguem relacionar.

Em “Fever Pitch” o autor faz uma análise do futebol como um definidor de carácter e como um símbolo de masculinidade. Hornby teoriza as suas intensas tardes nas bancadas do estádio, como sendo uma experiência de hiper-masculinidade, onde todos se aguentavam firmemente em pé durante todo o decorrer do jogo. Nesse tempo, em finais do século XX, o futebol ainda não se tinha transformado num confortável espectáculo sentado.

Mesmo que depois, em adulto, Nick se interesse muito por mulheres, em jovem elas são periféricas relativamente à sua verdadeira paixão, o Arsenal. Na verdade, as mulheres, os seus assuntos e as suas lutas, pouco interesse têm para Nick, uma vez que elas não são para se levarem a sério, pois nem sequer conseguem aguentar-se de pé na bancada do estádio do princípio ao fim do jogo: “How was I supposed to get excited about the oppression of females if they couldn't be trusted to stay upright during the final minutes of a desperately close promotion campaign?”.

Em finais do século XX, os tempos eram diferentes dos da agora, nas bancadas do estádio colegas, vizinhos, amigos e velhos conhecidos desde a escola primária, ficavam todos reunidos num mesmo lugar, era um mar revolto de cabeças, olhos e mãos, que certamente não seria um sítio adequado e seguro para senhoras.


A obra de Nick Hornby também funciona como um retrato sociológico, documentando a evolução do futebol desde finais do século XX, e mais especificamente, o modo como este se tornou um muito lucrativo negócio, e a subsequente mercantilização dos estádios e consequente transformação do jogo num mero espectáculo para se ver confortavelmente sentado.

O que genericamente os actuais espectadores de futebol não compreendem, é que um jogo cujo resultado é zero a zero, pode ser tão dramático e emocionante como um cujo resultado é um apertado cinco a quatro.

Para os espectadores de agora, um jogo sem golos é algo de chato e aborrecido, citemos a esse propósito Nick Hornby, que nesse contexto refere a trágica peça de Shakespeare, o Rei Lear, como exemplo: “Complaining about boring football is a little like complaining about the sad ending of King Lear, it misses the point somehow.”

Em resumo, como disse um dia o treinador italiano Massimilano Allegri, já um tanto ou quanto enfadado com a mercantilização do futebol e a sua transformação num evento festivo, “se querem ver um espetáculo vão ao circo”.

Mais abaixo, uma pintura de L.S. Lowry, em que pessoas vão à bola e não ao circo, “Going to the Match” de 1923.

Foi um dos mais populares pintores britânicos do século XX, L.S. Lowry (1887–1976) nasceu em Stretford, território do Manchester United em Old Trafford, mas quis o destino que ele fosse adepto do clube rival, o Manchester City.

L.S. Lowry pintava num estilo quase infantil, os lugares e as pessoas da sua cidade, Manchester. As suas obras retratam os rituais e ritmos da vida da classe operária do norte da Inglaterra, sendo que, nenhum deles era mais importante do que os desafios de futebol às três da tarde de sábado, e isso mesmo que no estádio não houvesse lugares sentados nem abrigados, e que o dia estivesse extremamente frio.


O livro de Nick Hornby “Fever Pitch” deu origem a dois filmes, um britânico de 1997 protagonizado por Colin Firth e Ruth Gemmell, e um outro de 2005 vindo de Hollywood, e cujas estrelas eram Drew Barrymore e Jimmy Fallon.

Nessas adaptações, as personagens femininas deixam de ser figuras periféricas e transformam-se em adeptas tão profundamente conectadas e autênticas como Nick, o personagem central do livro.

No livro não havia uma história de amor que atravessasse toda a narrativa, pois os amores de Nick não eram propriamente lineares. No livro, a relação de Nick com o seu clube era profunda, muitas vezes sombria e de um fanatismo obsessivo, nos filmes, ir ao estádio é uma coisa gira e divertida, um entretenimento perfeito para casais românticos. Em conclusão, os filmes são uma porcaria, o livro é excelente.

Dito isto, já falámos o suficiente de Nick Hornby, falemos agora de outra gente. Falemos então de Rafael Alberti (1902-1999), um dos maiores poetas espanhóis do século XX, e um dos melhores amigos do pintor Pablo Picasso, a quem dedicou o livro “Picasso, el rayo que no cesa”.


Num tempestuoso dia de maio de 1928 foi disputada a primeira das três partidas que decidiriam o vencedor da Taça do Rei entre a equipa catalã do Barcelona e a Real Sociedad, equipa basca da cidade de San Sebastián.

A final disputava-se em Santander, mesmo perto do bravo Mar Cantábrico. Nessa época, ainda não havia prolongamentos nem pénaltis, o vencedor seria o primeiro a vencer um jogo em noventa minutos.

A Real Sociedad dominava a partida e, numa jogada bem executada, o seu centroavante, avançou em direção à baliza com tudo a seu favor para marcar golo. Platko, o guarda-redes húngaro do Barcelona, atirou-se aos pés do atacante do clube de San Sebastián quando este se preparava para chutar e levou uma pancada brutal na cabeça. Ele evitou o golo, mas deixou o campo atordoado e com a cabeça ensanguentada, levaria depois seis pontos.

Nesse tempo, as substituições ainda não eram permitidas, e a saída de Platko deixou a sua equipa reduzida a dez jogadores. No início da segunda parte, o guarda-redes não apareceu vindo do túnel, e para piorar a situação, houve um outro jogador do Barcelona que se lesionou e teve de sair do campo.

Após receber uma injeção antitetânica e umas incómodas ligaduras, que ele acabaria por perder ao longo do jogo, Platko retornou ao campo sob uma estrondosa ovação, fez algumas magníficas defesas e o jogo acabou empatado um a um. No fim, os loiros cabelos de Platko eram uma lamacenta mistura de sangue e pó.

Abaixo um retrato de Platko, que pela sua imponente presença, coragem e força, ganhou o elogioso cognome de Urso da Hungria.


O poeta Rafael Alberti estava na bancada do estádio nesse dia chuvoso, ventoso e frio, tendo ficado maravilhado com a actuação do guarda-redes húngaro. Alberti ficou tão impressionado com o comportamento heróico de Platko que lhe dedicou uma ode, aqui ficam os versos iniciais:

Ninguém se esquece Platko,
não, ninguém, ninguém, ninguém
urso loiro da Hungria

Nem o mar
que diante de ti saltava sem poder defender-te.
Nem a chuva. Nem o vento, que era quem mais rugia.
Nem o mar, nem o vento, Platko
loiro Platko de sangue
guarda-redes envolto em pó
pára-raios
Não, ninguém, ninguém, ninguém.

E com os versos de Alberti terminamos esta segunda parte deste desafio intitulado “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso...”, no entanto, ainda não dissemos tudo o que queríamos dizer acerca deste tema, e por consequência disso, em breve teremos um prolongamento.

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