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O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso... (1ª parte)


Hoje prometemos-vos grandes emoções e vastas reflexões artísticas e literárias, como já terão adivinhado, vamos falar de futebol. A imagem que ilustra este texto é de Pablo Picasso e intitula-se “Futebolistas”.

O autor da frase “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso” foi Bill Shankly, o lendário treinador do Liverpool, durante as décadas de 60 e 70. Disse-a numa entrevista televisiva e desde aí as suas palavras têm sido imensamente citadas, o que se percebe, pois que o dito tem a sua graça.

Como outros antes, também hoje nós citamos Bill Shankly, uma vez que se aproxima a passos largos o início do Mundial de Futebol e queremos neste blog dar aos nossos leitores amplas, profundas e complexas perspectivas sobre o pontapé no esférico.

Nós não queremos ser daqueles que só repetem banalidades e lugares comuns sobre arbitragens, tácticas, onzes iniciais, chutes falhados, remates ao lado, frangos e outros dislates, nós queremos falar de futebol como se falássemos de arte, de filosofia ou de literatura. Por assim ser, nos próximos tempos vamos dedicar-nos ao futebol.

Abaixo um quadro de Kazimir Malevich de 1917, que se intitula “Realismo pictórico de um jogador de futebol”. A obra faz parte da coleção do Art Institute of Chicago.


Antes de continuarmos, temos aqui que render uma homenagem a um dos mais inventivos linguísticos portugueses, a saber, Gabriel Alves. O homem foi jornalista e comentador desportivo, tendo trabalhado na RTP entre 1975 e 1995.

Foi nesse canal que durante as transmissões de jogos de futebol, presenteou o país com algumas frases imortais, que dada a sua criatividade e originalidade, ainda hoje nos servem de inspiração.

Bem sabemos que as frases foram involuntárias, mas isso em nada as diminui. Digamos que o Gabriel tinha um talento inconsciente. Vejamos umas quantas dessas, uma espécie de Top-Ten:

“Fica na retina um cheiro de bom futebol.”
“No estádio está uma humidade relativa, muito superior a 100%."
“Um passe para a zona de ninguém, onde realmente não estava ninguém!"
“Juskowiak... a vantagem de ter duas pernas!"
“E aqui está, um golo substantivo que nem pode ser adjetivado."
“Vítor Baía, o melhor guarda redes do Mundo e provavelmente da Europa."
”Esférico para um lado, bola para o outro!”
“Lá vai Paneira no seu estilo inconfundível… mas não, é Veloso!”
“E aí está uma enorme cavalgada de Thuram... este homem é um leão!"

E por fim a nossa favorita, “Repare-se na movimentação dos jogadores do Bayern, movimentam-se como figuras geométricas..... o futebol é uma arte plástica.”

Gabriel Alves usava a língua portuguesa com uma inventividade surreal, sendo por isso justo, que lhe dediquemos a imagem abaixo de 1962, da autoria do pintor surrealista René Magritte.

A cena passa-se diante de uma balaustrada, onde num vasto relvado em frente a uma mansão, homens jogam futebol. À esquerda da pintura, emoldurada pela balaustrada, o jogo é reproduzido com exactidão.

As pinturas de René Magritte frequentemente exploram a relação entre um objecto ou uma situação e a sua representação, talvez neste caso, o pintor belga se tivesse inspirado na televisão, que já transmitia partidas de futebol no início da década de 60.


Deixemos o bom do Gabriel Alves e centremo-nos numa figura maior da cultura europeia, o cineasta, ensaísta, poeta e escritor Pier Paolo Pasolini (1922-1975).

Pasolini dissertou sobre futebol e disse-nos que há instantes no jogo que são equivalentes a um poema: “Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de golo. Cada golo é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada golo é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O melhor marcador de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano.”

Pasolini disse-nos igualmente que “A finta é também essencialmente poética. De facto, o sonho de todo o jogador (compartilhado por cada espectador) é partir do meio do campo, fintar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso.”

Abaixo uma escultura de Niki de Saint Phalle, “Futebolistas” de 1973.


“O futebol é a mais importante das coisas menos importantes da vida”, disse um dia o antigo treinador italiano Arrigo Sacchi, Javier Marías (1951–2022), que foi o mais importante romancista espanhol das últimas décadas, glosou essa frase escrevendo o seguinte: “O futebol é a única coisa séria e importante que acontece na vida de forma não séria."

Javier Marías escreveu um livro de crónicas dedicado ao pontapé na bola intitulado “Selvagens e Sentimentais”, no qual nos mostra como o futebol é uma mistura de sentimentalismo e selvajaria, uma escola de comportamento e nostalgia, e a encenação do épico ao alcance de qualquer um.

“No tempo indeciso” é o título de um conto de Javier Marías no qual se relata a história de um jogador húngaro de rara habilidade quer com a bola, quer com as mulheres, que é contratado por um grande clube espanhol.

O título faz referência a um momento fascinante, quando o craque, num jogo importante, deixa todo o estádio em suspenso ao passar pelos defesas e pelo guarda-redes e de seguida interrompe o avanço com a bola, isto mesmo em cima da linha de golo.

Trata-se de um breve instante magistralmente descrito por Javier Marías. Acerca desse momento, o que sabemos é que o jogador abandonou uma mulher no seu passado, e que esta regressará à sua vida para o acompanhar no final da sua carreira de futebolista.


E que dizer de um poema de Stefano Benni (1947-2025) sobre um guarda-redes que se sente sozinho e esquecido pela sua equipa durante a maior parte da partida, e ao qual apenas lhe dão atenção quando há um penálti?

O guarda-redes grita desesperado que consegue interceptar a bola, que esta está ao seu alcance, que é sua (Era mia, mia, mia…), porém, o colega de equipa não o ouve (l'ho gridato e non hai sentito) e precipita-se sobre o avançado adversário, deitando-o por terra e assim cometendo uma grande penalidade (su di lui ti sei precipitato l'hai atterrato).

“Era mia, mia, mia
l'ho gridato e non hai sentito
su di lui ti sei precipitato 
l'hai atterrato.”

O guarda-redes está agora só na enorme baliza escancarada (Solo davanti a questa porta spalancata), tendo apenas por diante o temível avançado-centro, que o observa atentamente (mentre il centravanti mi guarda).

“Solo davanti 
a questa porta spalancata 
mentre il centravanti mi guarda.”

O guarda-redes revolta-se contra os seus colegas de equipa, que só se recordam dele quando há um penálti (Solo quando c'e' il rigore, vi ricordate di me, del vostro portiere) e pergunta-lhes porquê (ditemi perche').

“Solo quando c'e' il rigore 
vi ricordate di me, 
del vostro portiere 
ditemi perche'.”

Depois revolta-se também contra o árbitro, clamando que a falta tinha sido cometida fora da área (Era fuori, fuori,fuori, il fallo era fuori dell'area), e finalmente insulta o juiz da partida chamando-o cretino (quel cretino d'arbitro) por ter chegado e apitado (e' arrivato ha fischiato) imediatamente para a marca de grande penalidade.

“Era fuori, fuori,fuori 
il fallo era fuori dell'area 
quel cretino d'arbitro e' arrivato 
ha fischiato.”

Sozinho perante cem mil no estádio que ansiosamente o espreitam (Solo davanti a voi centomila che ansiosi spiate), o guarda-redes lamenta-se uma vez mais que só se lembrem dele nos penaltis (Solo quando c'e' il rigore, vi ricordate di me, del vostro portiere) e pergunta-se outra vez porquê (ditemi perche').

“Solo davanti a voi centomila 
che ansiosi spiate. 
Solo quando c'e' il rigore 
vi ricordate di me, 
del vostro portiere 
ditemi perche'.”

Acaba por se resignar, incitando o avançado-centro adversário a que atire a bola, a que chute (E dai tira, tira ,tira). O que espera o adversário para acabar com ele (cosa aspetti a finirmi?). Disparada a bola é como uma locomotiva que em direção a si avança (vedo il pallone calciato che arriva come una locomotiva).

O guarda-redes lança-se para o ar, como se voasse para o céu (e sono solo nel cielo), de modo a ir ao encontro do disparo (mentre volo incontro al tiro). Durante esses momentos, todos no estádio prendem a respiração (e voi trattenete il respiro).

“E dai tira, tira ,tira 
cosa aspetti a finirmi ? 
vedo il pallone calciato che arriva 
come una locomotiva 
e sono solo nel cielo 
mentre volo incontro al tiro 
e voi trattenete il respiro.”

Por fim, na estrofe final, o guarda-redes lamenta-se novamente da sua má sorte e deixa no ar a ameaça de quiçá não voltar a aparecer (chissa' se parero).
“Solo quando c'e' il rigore 
vi ricordate di me, lo so 
del vostro portiere 
chissa' se parero'.”

Só quem seja completamente insensível é que não se sentirá tocado pelo poema de Stefano Benni, que nos fala de solidão e de injustiça, e daqueles de quem os outros só se lembram em momentos de aflição. Perante este poema, a ninguém restará qualquer dúvida de que o futebol é efectivamente uma metáfora da vida.

Abaixo uma pintura de Sir Cecil Beaton, pertencente à National Portrait Gallery de Londres.


E com isto terminamos esta primeira parte dedicada ao futebol, amanhã teremos a segunda, posteriormente talvez um prolongamento e, possivelmente, ainda uma ida a penaltis.

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