Soube-se recentemente que o espólio do Hospital Miguel Bombarda pode vir a ser classificado como sendo de Interesse Público. O dito hospital era uma instituição psiquiátrica em Lisboa, que funcionou desde o início do século XIX até ao começo do XXI. O espólio que aguarda classificação engloba cerca de cinco centenas de desenhos e pinturas, que foram realizados por alguns dos milhares de pacientes que no hospital longos tempos permaneceram internados. Os clínicos que exerceram funções no Hospital Miguel Bombarda, incentivaram os doentes a desenhar e a pintar, usando a expressão artística como um método terapêutico. Existem igualmente fotografias, esculturas, poemas, versos, cartas e escritos diversos. O arquivo do hospital está cheio de histórias para contar, como por exemplo, as de um doente chamado Jaime, que desenhava obsessivamente, ou as de Valentim, que era bailarino, ou ainda as de um espanhol que montava instalações surrealistas. Desse es...
Não raras vezes referimo-nos a Camané em textos deste blog, contudo, nunca lhe dedicámos um texto inteiro, coisa que ele inquestionavelmente merece. Não que o fadista se importe com o que nós escrevemos ou deixemos por escrever, na verdade, não saberá sequer quem somos ou o que fazemos. A nós sim, é que nos importa falar dele e dos seus fados. Haverá muitos fadistas cheios de talento, todavia nenhum terá tanto na própria voz a alma de Lisboa e até de Portugal, como Camané a tem. É difícil dizer em que consiste isso em concreto, no entanto, há algo no tom de Camané, que é simultaneamente triste, malandro, atrevido, antigo, noturno, bairrista e que de algum modo soa a cais de partidas e chegadas. Enfim, há nele uma mistura de ternura, de nostalgia e de conversas de tascas rascas, que é certamente única. É como se na sua voz ouvíssemos um rapaz que cresceu e brincou por entre becos, vielas e casas ancestrais, e ao mesmo tempo a maturidade de quem experimentou e sentiu as grandes vent...