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Cumpriu-se abril, Portugal é um país novo, irreverente e alegre, ou seja, moderno.


Todos sabemos que a revolução de abril foi iniciada pelos militares. Todos sabemos que as suas causas, para além das diretamente relacionadas com as guerras de África, eram políticas. Todos queriam melhores condições económico-sociais, mais desenvolvimento e, sobretudo, liberdade.

Isso já todos sabemos, razão pela qual, não é disso que vos queremos hoje falar. Queremos falar-vos de uma outra coisa que em abril também muitos queriam, a saber, ser modernos.

 

Terão sido muitos, os que no dia 25 de abril de 1974 finalmente perderam o medo e se deixaram ver, saindo para as praças, ruas e avenidas deste país. Assim foi, porque eram tantos os que já não aguentavam mais viver vidas esconsas e obscuras num país esclerosado e estagnado, em que o melhor que se podia esperar era não se ter grandes chatices, ir-se andando, e que a um dia se seguisse um outro igual ao anterior.

Muitos ansiavam por dias diferentes, melhores. Melhores não só em termos políticos, sociais e económicos, mas também mais arejados e modernos.

 

O anseio pela modernidade já vinha de antes, não surgiu apenas em 1974. Já vinha desde o início do século XX. É certo que ser moderno, nesses alvores do século XX, não era uma aspiração da maior parte da população portuguesa, nem nada que se parecesse.

Ser moderno era nessa época uma aspiração minoritária, de apenas uns poucos.

Os muitos que apareceram nas ruas em abril de 74, surgiram como a soma final de várias décadas em que lentamente outros se foram juntando àqueles poucos iniciais.

 

Com efeito, no começo do século XX português, eram tão-somente uns quantos os que desejavam ser modernos. Apenas alguns artistas e escritores de vanguarda, como por exemplo, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardozo ou Fernando Pessoa.

Esses poucos que desejavam a modernidade, sabiam que estavam praticamente sozinhos e que o país não estava preparado para eles nem eles para o país, consequentemente, o que havia era desdém de parte a parte.



Contudo, mesmo que nesse momento ser moderno fosse só uma aspiração de uns poucos e incompreensível para a maioria, o certo é que as sementes de modernidade estavam lançadas e o seu destino era que rapidamente se espalhassem, crescessem e se multiplicassem. Isto, caso não se tivesse instalado um regime político que durante décadas as abafou e reprimiu. Assim sendo, o caminho para a modernidade acabou por ser muito mais longo e lento.

 

Mas antes de irmos mais longe, convém esclarecermos um ponto: o que é afinal isso de se ser moderno?

Podemos começar a descobri-lo através de um vídeo da Fundação Calouste Gulbenkian dedicado ao tema. Há duas ou três ideias chave que podemos retirar desse vídeo. A primeira é que os modernos desse início de século XX português eram provocadores e irreverentes. A segunda é que eram descobridores da novidade. A terceira está resumida numa das mais célebres frases de Almada Negreiros: “A alegria é a coisa mais séria da vida”.

 

O vídeo foi realizado num estilo pouco irreverente e não muito alegre, mas ainda assim, vê-se razoavelmente bem. É um estilo um tanto ou quanto assim mais a atirar para o didático, provavelmente porque foi concebido para professores do 3° ciclo e do Ensino Secundário. Seja como for, aqui fica o link para quem eventualmente esteja interessado:

https://gulbenkian.pt/descobrir/ser-moderno-e-modernismo-modernidade-e-vanguardas/

 

No início do século XX, desde há muito que a irreverência, a novidade e a alegria, eram coisas nada usais em Portugal. Não só eram nada usais, como eram malvistas. Basta ler os dramalhões narrados em meados e finais do século XIX por Camilo Castelo Branco ou Eça Queiroz para o percebermos.

Eram tudo histórias de faca e alguidar e de fazer chorar as pedras da calçada. O talento literário de Camilo e Eça era enorme, mas a maior parte dos seus personagens era só gente com o destino marcado à nascença e completamente incapaz de o mudar numa vírgula que fosse. O conformismo, a estagnação e a tristeza eram o fado nacional. De alegria, irreverência e modernidade, neste país nada havia.

Abaixo uma antiga ilustração de “Amor de Perdição” do momento fatal em que se dá o trágico desenlace da história narrada por Camilo.



Ainda que abafadas e reprimidas, as sementes de modernidade lançadas no inicio do século XX não foram estéreis, nem foram em vão. Como acima dissemos, lentamente, a pouco e pouco, ao longo de décadas, cresceram, multiplicaram-se e outros se foram somando àqueles poucos primeiros que ansiavam pela modernidade.

 

Outros que também queriam ser modernos, mas que não eram intelectuais, artistas ou vanguardistas, eram apenas gente comum. Foi toda essa gente comum, na qual ao longo de décadas cresceu e se multiplicou o anseio pela modernidade, que finalmente perdeu o medo e se deixou ver nas praças, ruas e avenidas no dia 25 de abril de 1974. 

Antes desse dia, esse desejo de modernidade apenas por vagos momentos se deixou vislumbrar, sendo de alguns desses mais significativos vislumbres que agora vos queremos falar.

 

Logo na década de 30, há um claro vislumbre de que esse anseio pela modernidade não tinha morrido e lentamente crescia. Em 1933, em Lisboa, na Avenida Berna, é erigida a Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Foi a primeira igreja construída em Lisboa após a proclamação da República em 1910, estava portanto no centro das atenções.

O que esta igreja tem de especial, é que rompeu completamente com os cânones oficiais da arquitetura religiosa que então vigoravam. Foi um gesto audaz e logo no seio de uma das mais conservadoras instituições portuguesas, a igreja católica.

Pardal Monteiro, o arquiteto, foi suficientemente destemido para contra tudo e contra todos usar uma linguagem arquitetónica moderna. Na época, o edifício suscitou uma viva polémica, contudo, vingou. A maior prova disso é que ainda hoje lá está.

Não por acaso, o desenho dos vitrais e grande parte da decoração interior foram entregues a Almada Negreiros. Alegria e irreverência não faltam à Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Cor e luz também não.

 

Como é evidente, uma igreja não é de todo em todo um lugar para uns poucos nem exclusivo de vanguardas artísticas ou outras. É um lugar para a gente comum e para todos os que o desejarem frequentar. Que uma igreja moderna tenha sido erguida em Lisboa na década de 30, significa que as sementes de modernidade, ainda que de um modo ténue, já tinham fortalecido algumas raízes na população portuguesa, ou, mais que não fosse, nas gentes de Lisboa.

Tanto assim é, que apesar das polémicas existentes à época, foram muitos os lisboetas que quer logo na década de 30, quer nas seguintes, não hesitaram em deixar-se ver e mostrar-se nessa igreja nos atos mais simbólicos das suas vidas, como sejam batizados, casamentos e funerais. Em síntese, foram muitos os que conscientes ou inconscientes desse anseio, quiseram ser modernos.



Essas sementes de modernidade continuaram a crescer e multiplicar-se na década seguinte, nos anos 40. Em 1945 dá-se um outro vislumbre que assim foi. O então jovem artista Júlio Pomar pintou uma obra que muito barulho causou à época e que viria a ficar na história: “O Gandanheiro”.

 

Atualmente há um museu exclusivamente dedicado a Júlio Pomar em Lisboa, contudo, nesses seus primeiros tempos, o artista viu algumas das suas pinturas apreendidas pela polícia política e esteve inclusivamente preso.


Na pintura “O Gandanheiro”, a modernidade estética revela-se pelos limites da tela serem como que ultrapassados pela figura e pelos objetos. Ficam de fora a mão, o chapéu, o pé esquerdo e a lâmina da gadanha. “Essa posição da figura, quase a rebentar a tela, a querer sair do quadro, será uma referência para não se aceitar as coisas como são”, explicou então o pintor.



Mas mais do que essas considerações estéticas e formais, o que Júlio Pomar deu a ver, foi aqueles que nunca apareciam na arte portuguesa de então, ou seja, a gente comum que diariamente labuta pelo seu pão.

Fê-lo novamente com uma outra pintura que também viria a agitar as águas estagnadas desse Portugal manso e acanhado. Essa pintura intitula-se “O Almoço do Trolha" e encontra-se atualmente na Fundação Calouste Gulbenkian.

 

A obra de Júlio Pomar é toda ela plena de alegria e irreverência. Cor e luz também não lhe faltam. É absolutamente moderna por todas essas razões, mas o que aqui nos importa realçar, é como nessas suas primeiras obras, Júlio Pomar trouxe as gentes comuns bem para o centro da modernidade artística.

Através dessas suas obras, Pomar retratou aqueles que nunca eram vistos e se escondiam e que só num dia de abril, décadas mais tarde, saíram alegremente para as praças, ruas e avenidas e perderam o medo de se mostrar.

 

Passemos agora à década de 60, para um último vislumbre desse anseio de modernidade, que como uma torrente, haveria de desaguar em abril de 74. É nos anos 60 que surge o chamado “Cinema Novo”. Em Portugal há um filme que é absolutamente icónico desse período, “Os Verdes Anos” de Paulo Rocha.

 

“Os Verdes Anos” conta-nos a história de um rapaz que se muda da província para Lisboa para tentar a sua sorte como ajudante de sapateiro. Uma vez instalado, conhece uma jovem empregada doméstica e prende-se de amores por ela. A coisa acaba mal por causa da ciumeira dele.

Para além da modernidade formal dos planos e da montagem cinematográfica, algo de completamente inédito até então no cinema nacional, o que pela primeira vez um filme português nos deu a ver são personagens que podiam ser reais.



Não nos deu a ver personagens mais típicas do que reais, como as dos filmes “A Canção de Lisboa”, “O Pátio das Cantigas” ou “O Costa do Castelo”. As personagens de “Os Verdes Anos” assemelham-se a gente que realmente existia e não a figuras caricaturais como as que antes eram interpretadas pelo Vasco Santana ou pela Beatriz Costa.

A modernidade do gesto cinematográfico de “Os Verdes Anos” foi trazer para o ecrã de uma sala de cinema as gentes que viviam escondidas em caves de sapateiro, em quartos de criada, que entravam e saíam das casas pelas traseiras, subindo e descendo pelas escadas de serviço.

“Os Verdes Anos” trouxe-as para a modernidade, deu-as a ver. Na década seguinte, em 25 de abril 74, seriam elas a atrever-se a vir para as praças, ruas e avenidas e a assumirem o papel de protagonistas.

 

Por aqui terminamos, mas não sem antes vos deixarmos uma cançoneta intitulada “Ser moderno”. A cançoneta nada tem de didático, é toda ela feita de irreverência e alegria:




Durante a presente semana não quisemos falar aos nossos alunos do dia 25 de abril de 1974, nem do que significa a liberdade. Quase cinco décadas depois dessa data, muito mal estaríamos se isso já toda a gente não o soubesse. Sabem-no as gentes comuns, sabem-no as vanguardas e sabem-no também as crianças e jovens que frequentam as escolas. Quisemos antes falar-lhes do que é ser moderno. Quisemos dizer-lhes que no fundo, ser moderno, é ser-se atrevido.

 

Aqui fica o guião de aprendizagem "Ser Moderno é Ser Atrevido!"

https://drive.google.com/file/d/1ZvKZYBVpvRWvdjOX2uTBpzjw6jD5Xqst/view?usp=sharing 

Ficha de exploração "Ser Moderno é Ser Atrevido!"

https://drive.google.com/file/d/1kLHl68KNpN6AZUNWVkPkl_ku8I_L9toF/view?usp=sharing

 




 


 

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