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O futuro dos protestos de professores e não só

 

Falávamos ontem dos protestos dos ativistas ambientais nos museus, são ações fáceis de se fazer, é só escolher um quadro de um artista consagrado e borrá-lo todo. Não é nada muito complicado e foi por isso que nos pusemos a imaginar, o que sucederia se tal modo de protestar, se generalizasse a outros setores, nomeadamente, ao dos professores.


Que ninguém nos interprete mal, não pretendemos sugerir que tal efetivamente se faça, muito pelo contrário, cremos firmemente que tais ações de protesto são erradas, no entanto, como mero exercício de especulação, talvez a coisa possa ter a sua graça.


Imaginemos então, que temos um imenso conjunto de docentes revoltados com a sua situação profissional que, à semelhança dos ativistas ambientais, decidem organizar ações de protesto borrando pinturas num museu.

Digamos que até se poderia criar uma associação de âmbito nacional com nome, conta bancária, número fiscal e o mais que fosse preciso. Claro está que seria uma associação completamente independente de qualquer partido político ou estrutura sindical. Até já temos uma designação gira para tal associação, um nome que anunciaria imediatamente ao que se vinha: Pro(f)testARTE.


Não sei estão bem a ver, Pro(f)testARTE junta letras minúsculas e maiúsculas e olhem que isso não é para qualquer um. Ainda por cima, faz uma fusão com as palavras “protestar” e “arte”, e como se isso não bastasse, há lá uma espécie de “prof” pelo meio com parênteses e tudo. Em resumo, é um nome de grande categoria.


O primeiro problema que se poria aos associados da Pro(f)testARTE é onde o fazer. Não nos esqueçamos que estamos a falar de uma associação de âmbito nacional. Desse modo, consoante o local do país, é preciso decidir qual o museu ou instituição cultural onde ir protestar.

Se estivermos em Lisboa ou no Porto, há muito para escolher. No caso de estarmos em Coimbra ou em Évora, também há uns tantos sítios de assinalável prestígio disponíveis. Noutras quantas capitais de distrito, tipo em Braga, Aveiro ou Viseu, ainda se arranja qualquer coisinha que encha o olho, o problema é o resto da nação.

Bem sabemos que há museus por toda a pátria, todavia, daqueles que dão que falar e aparecem nos telejornais, desses não há assim tantos. Imaginem um docente deslocado, colocado numa pequena localidade deste país, por exemplo, em Alguidares-de-Baixo.

Imaginem ainda, que a autarquia de Alguidares-de-Baixo decidiu aplicar as verbas provenientes dos fundos europeus num imenso centro de exposições. É um equipamento que fazia muita falta, pois não havia sítio onde se pudesse expor as obras dos artistas da terra.


Temos então um docente associado da Pro(f)testARTE a exercer funções em Alguidares-de-Baixo, que se dirige ao centro de exposições da terra para protestar. Entra, olha para as obras de arte expostas e borra uma delas.

No entanto, ninguém lhe liga absolutamente nenhuma. Não aparecem as televisões nem os jornais e não há polémicas nem escândalos. A única reação foi a do contínuo do centro de exposições, que também está encarregue da segurança do sitio, que disse assim:

- Ó homem, deixe-se de doidices e ponha-se a andar daqui para fora. Vá para casa sossegar. Vosmecê ‘tá estafado, a miudagem anda a dar-lhe cabo do juízo.

A razão pela qual ninguém ligou nenhuma ao protesto do docente é óbvia. Falta prestígio nacional, já para não dizer internacional, aos artistas do Alguidares-de-Baixo. Tanto faz como fez, que as suas obras sejam ou não borradas.


Com efeito, a comunidade artística local é constituída por uns quantos velhotes do Centro de Dia da Santa Casa da Misericórdia que, fartos de jogar à bisca e à falta de melhor com que se entreterem, se puseram a pintar quadros.

Da comunidade dedicada às artes, faz também parte um jovem toxicodependente com muito jeito para o desenho, e ainda uns reformados holandeses que vieram para cá viver. Vestem-se como hippies, conversam com as árvores e só comem couves, rabanetes e alfaces. Acrescente-se a isso, que as suas obras de arte têm também como tema único, a mesma variedade de legumes, são naturezas mortas.

Em síntese, com tal comunidade artística, é normal que o protesto fique em águas de bacalhau, pitéu que quando bem cozinhado, acompanhado por umas verduras e regado com bom azeite, até nem cai mal.

Em conclusão, Alguidares-de-Baixo é local onde a Pro(f)testARTE não tem hipótese.

Mas imaginemos então que o protesto é numa localidade muito maior, digamos a antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto. O movimento Pro(f)testARTE teria aí muito mais por onde escolher. Contudo, há um grave problema.

A malta do Porto já se sentiu achincalhada pelos ativistas ambientais de Lisboa terem tido um artista de grande relevo internacional à sua disposição para borrar, um Picasso, que é coisa que no Porto não há. 

Consequentemente, agora com o protesto dos professores, não querem ficar novamente atrás das gentes da capital. Assim sendo, o artista a borrar na cidade à beira Douro, terá que ser de enorme prestígio mundial, equivalente ao do Picasso.

Não há que hesitar, a escolha é simples, os docentes portuenses em protesto deverão borrar nada menos nada mais, do que um Miró. Um dos muitos que fazem parte da coleção da Fundação Serralves.

Problema solucionado, pensará quem nos lê. Só que não.

O que acontece com as pinturas do Miró, é que elas próprias já só são um conjunto de borrões, existindo portanto uma forte probabilidade de que o borrão de protesto passe completamente despercebido. Que fazer perante tal dilema? Cum carago, a vida não está fácil para a Pro(f)testARTE.


Passemos à Lusa Atenas, a Coimbra. Aí tudo piaria mais fino. Talvez quem nos lê saiba que são coimbrãos os nossos dois mais afamados sindicalistas, ou seja, o Mário Nogueira e o André Pestana.
Nenhum deles quererá na sua cidade mais concorrência no protesto, já bem basta a que fazem um ao outro. Por consequência, reagiriam à Pro(f)testARTE com soluções de contestação alternativos.

Perante o movimento Pro(f)testARTE, o Pestana de certeza que não se deixava dormir, abriria a dita, e de olhos abertos, diante da ideia de algum docente andar a protestar por Coimbra a borrar obras de arte, convocaria imediatamente uma imensa borrada nacional, ou seja, incentivaria toda a classe docente a que durante uma semana inteira, ao invés de irem borrar quadros, cada um borrasse a sua escola.

Mas o Nogueira também não iria ficar parado perante o Pro(f)testARTE. Às borradas, o Nogueira chamar-lhes-ia um figo, pois que isto não vale a pena dar nozes a quem não tem dentes. O mais certo era convocar os professores para borrarem as escolas por distrito, cada dia um. De norte a sul do país, todos as escolas ficariam borradas.

Em resumo, apesar de haver belas obras de arte na Lusa Atenas, também não era aí que o Pro(f)testARTE se ia safar, pois os donos do protesto não o permitiriam e tentariam abafá-lo com outras formas de luta, castigando assim fortemente esse novo movimento.

Abaixo a imagem de uma peça da coleção do Museu Nacional Machado de Castro em Coimbra.


Dito isto, calculamos que no Algarve, no Alentejo, em Trás-os-Montes e em Lisboa e arredores, as histórias não seriam muito diferentes das que até ao momento já relatámos, assim sendo, o Pro(f)testARTE jamais conseguiria afirmar-se como movimento reivindicativo. A única conclusão possível de tudo isto, é que não é com borradas que vamos lá.

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