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Nunca é demais, falar de Camané


Não raras vezes referimo-nos a Camané em textos deste blog, contudo, nunca lhe dedicámos um texto inteiro, coisa que ele inquestionavelmente merece. 
Não que o fadista se importe com o que nós escrevemos ou deixemos por escrever, na verdade, não saberá sequer quem somos ou o que fazemos. A nós sim, é que nos importa falar dele e dos seus fados.

Haverá muitos fadistas cheios de talento, todavia nenhum terá tanto na própria voz a alma de Lisboa e até de Portugal, como Camané a tem. É difícil dizer em que consiste isso em concreto, no entanto, há algo no tom de Camané, que é simultaneamente triste, malandro, atrevido, antigo, noturno, bairrista e que de algum modo soa a cais de partidas e chegadas. Enfim, há nele uma mistura de ternura, de nostalgia e de conversas de tascas rascas, que é certamente única.

É como se na sua voz ouvíssemos um rapaz que cresceu e brincou por entre becos, vielas e casas ancestrais, e ao mesmo tempo a maturidade de quem experimentou e sentiu as grandes venturas e desventuras da vida humana.

Mais do que isso, como que há despedidas e melancolias no seu tom, mas nunca desesperos, antes resignações mais ou menos líricas e também divertidas. Há na voz de Camané uma espécie de resistência de quem sabe que a vida é mesmo assim, ir e vir, chegar e partir, chorar e rir e, tomem lá disto, que venha a dolorosa, que nesta casa não se fia!

No fundo, quando canta, Camané tem com alguma frequência um leve tom jocoso de quem cresceu algures entre Alfama, a Graça e a Mouraria, e desde cedo aprendeu que tristezas não pagam dívidas, e que o melhor remédio é rir para não chorar.

A esse propósito, escute-se, por exemplo, o tema “Ai Margarida”, composto a partir de um poema de Fernando Pessoa.


Na canção há dois interlocutores, a dita Margarida e um seu pretendente. Este último, tende a fazer inflamadas declarações amorosas: “Ai, Margarida, se eu te desse a minha vida. Que farias tu com ela?”. Declarações essas, às quais a rapariga responde sempre algo jocosamente e com algum desdém: “Tirava os brincos do prego, casava com um homem cego, e ia morar para a Estrela.”

O pretendente bem que insiste: “Mas, Margarida, se eu te desse a minha vida, que diria a tua mãe?”. Porém, a resposta que leva da moça vai sempre no mesmo sentido: “Ela conhece-me a fundo, que há muito parvo no mundo, e que eras parvo também”.

Aqui fica “Ai Margarida”, com Camané acompanhado ao piano pelo excelente Mário Laginha:



Se as respostas da Margarida ao seu pretendente já são assim a atirar para o desdenhoso, que dizer então das disputas entre dois amantes no fado “A Guerra das Rosas”?

No decorrer da música são descritas situações de retaliação mútua, como por exemplo, esvaziar armários, rasgar diários, queimar jantares ou esconder as chaves do carro. Nada disto é coisa pouca!
A ironia e o sarcasmo são duas constantes no relacionamento deste casal, um torce contra a seleção nacional para irritar o outro, ou oferece um isqueiro sabendo que o outro não fuma e detesta o cheiro a cigarros.

Na verdade, fazem trinta por uma linha um ou outro, mas para além disso, ambos usam um certo tipo de frases e expressões, que advêm claramente de uma linguagem adquirida pelas ruas de certos bairros antigos de Lisboa: “…que fosses morrer sozinha”, “Saía para não ter de te aturar…”, “Os dois éramos caso arrumado” ou “…tu insiste que eu não presto”.

No fim, lá acabam por se entender, mais não seja porque, como canta o fadista, um “beijo acaba com o teu protesto”….



“Ela tinha uma amiga” é um outro fado de Camané, que termina com um “twist” irónico. Neste caso, o protagonista anda a arrastar a asa a uma rapariga cujo nome nunca nos é dito. O que sabemos é que a Maria, uma sua amiga, é que tomava conta das ocorrências.

Quando ele lhe telefonava, era a amiga Maria quem atendia para dizer que ela não estava. Quando ele lá ia e não a encontrava, era sempre a Maria que dizia que ela não tardava, que jurava que ela voltaria. Quando ele ia buscá-la e saíam, era todavia a Maria que os animava. Quando a convidava e ela não queria, era com a Maria que com ele reiteradamente dançava.


“Ela tinha uma amiga chamada Maria, a quem ela dizia pra dizer que não estava”, vai-se repetindo ao longo de toda a canção, contudo, mesmo no fim, surge-nos um “twist” irónico num verso em que o protagonista nos diz assim: “Até que outro dia ela me telefonou e eu disse, Maria vai dizer que eu não estou.”



Se formos a ver bem, muitos dos personagens que protagonizam os fados de Camané vão andando aos trambolhões ao logo das canções, mas no final lá se endireitam e se safam conforme podem.
Na verdade, são personagens do tipo de quem não se deixa ficar. A sua filosofia de vida poder-se-ia resumir do seguinte modo: “Ah ele é isso? Então espera lá que eu já te digo!”

Se é essa a relação que muitos dos personagens cantados por Camané estabelecem com a gente que os rodeia, é exatamente a mesma a que firmam com o mundo que os circunda. Sendo que, num caso em específico, a relação é com a sua própria rua.

No fado “A Minha Rua”, o personagem constata que tudo está mudado: “Não há roupas penduradas, nem há cravos nas janelas”, “O padeiro foi-se embora. Foi-se embora o professor”, “O Tejo já não o vejo, um grande prédio o tapou” e “A livraria fechou. A tasca tem outro dono”.

Como é timbre dos personagens dos fados de Camané, também o deste fado não se amofina muito com as mudanças, e a quem diz que a rua está agora mais sossegada, que está muito melhor assim, ele vai-lhes dizendo que sim. Contudo, o que na realidade pensa de si para consigo é o oposto, precisamente aquilo que diz no último verso:

Eu vou-lhes dando razão
Que lhes faça bom proveito
E só espero pelo verão
P´ra pôr a rua a meu jeito



O fadista Camané, não a pessoa, que dessa nada sabemos, é um lírico e um poeta. Mas dito isto, é igualmente um tanto ou quanto céptico. É o que deduzimos dos fados de que já falámos, e também de um dos seus maiores sucessos, “Se ao menos houvesse um dia”.

Logo o próprio início do verso, “Se ao menos…”, logo nos diz que Camané, o fadista, não tem assim muita fé. Com efeito, de cada vez que usamos a expressão “se ao menos…”, é certo que não seremos lá muito crentes no que afirmamos.

“Se ao menos” eu tivesse tirado um curso, “Se ao menos” eu lhe tivesse dito, “Se ao menos” naquele dia não tivesse chovido, “Se ao menos” ela gostasse de mim, “Se ao menos” as coisas não fossem assim, “Se ao menos”…

Em síntese, por aqui terminamos, e aqui fica o fado, “Se ao menos houvesse um dia”:

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