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Neste verão, querem lá ver que há fitas (Meia-Noite em Paris)


O que terá Paris a ver com um rinoceronte? E será que uma rosa é uma rosa é uma rosa? Por que há gente pedante e casamentos destinados a falhar? E viajar no tempo, será porventura possível? E a Kiki, o que terá ela a ver com tudo isto? As respostas a todas estas questões chegam já em seguida, aqui, neste blog.


Caminhamos para o fim do mês e também para o término desta nossa série de textos dedicados a fitas de Verão. Mas por ora não, até lá restam-nos ainda uns últimos resquícios, ou seja, os derradeiros dias deste presente Agosto.


Como se sabe, quando Paris se encaminha para o desfecho de Agosto, não raras vezes a sua luz torna-se difusa, a folhagem das árvores fica dourada, há intermitentes nuvens e uma ou outra chuvada.


Paris no final de Agosto gosta de se apresentar com prenúncios de Outono. Foi essa atmosfera levemente melancólica, que Woody Allen captou no início do seu filme “Midnight in Paris”, uma fita de 2011.


Vejamos então como é Paris quando caminha em direção ao Outono. Façamos uma passeata pelas colinas de Montparnasse, pelos Boulevards próximos do Quartier Latin, pelos Campos Elísios acima e por mais uns quantos sítios.


Tudo isto fluindo ao som do jazz de Sidney Bechet, compositor, clarinetista e saxofonista nascido em 1919 em New Orleans, junto ao rio Mississipi, e falecido em Paris em 1959, não muito longe do Sena.



Na película “Midnight in Paris” Gil Pender e Inez (Owen Wilson e Rachel McAdams) estão noivos, consequentemente, como bons norte-americanos que são, rumam à cidade-luz, que desde há muito é o cartão-postal perfeito para as gentes românticas oriundas da América.


Ao longo de décadas e décadas, Hollywood vendeu aos americanos, e por extensão ao resto do mundo, a imagem de Paris como a cidade do amor. Não se percebe muito bem porquê, mas o facto indesmentível é que a coisa resultou e a reputação de Paris na América e não só, ficou para sempre associada ao romantismo.


Na realidade, a relação “romântica” entre a América e Paris teve origem no início do século XX. A capital francesa era então a meca das artes e letras, e por assim ser, muitos vieram de outras terras para aí se estabelecerem.


Entre esses conta-se gente como os pintores espanhóis Pablo Picasso e Salvador Dali, ou o também espanhol, o cineasta Luís Buñuel. A vontade de ir para Paris era tanta por esses anos, que inclusivamente houve uma série de figuras-chave da cultura portuguesa que por lá passaram e ficaram durante uns tempos, como por exemplo, Eça de Queiroz ainda no século XIX, e depois já no século XX, Mário de Sá-Carneiro, Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros e Maria Vieira da Silva.


Todavia, para os norte-americanos, Paris era ainda mais apetecível, pois a sua moeda era muito forte, e com um punhado de dólares viviam à vontade na cidade. Razão pela qual, escritores vindos do outro lado do Atlântico como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Gertrude Stein, ou artistas como Man Ray, se instalaram então à beira Sena.


Abaixo uma foto de Man Ray, na qual retrata Kiki de Montparnasse, moça que durante uns anos foi sua musa e amante.



Gil Pender, o personagem principal da fita “Midnight in Paris” é escritor e sonha viver segundo os parâmetros dos grandes americanos da história da literatura, como o são Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Gertrude Stein.

Já Inez, a sua noiva, é uma mulher pragmática, que aspira antes a uma vida estável em Malibu. Inez prevê que Gil ganhe a vida como escritor, mas sim em Hollywood e não em Paris.


Pela meia-noite, ébrio, Gil perde-se pela cidade e vive a mais extraordinária aventura da sua vida. Viaja no tempo até ao início do século XX e encontra-se com personagens que ele julgava existirem apenas no passado. Por magia, fica diante dos artistas e escritores que admira.


Nessa viagem ao passado, Gil encontra também Adriana, uma rapariga da Belle Époque. A pouco e pouco vão-se conhecendo, mas a determinado momento ele diz-lhe que veio do futuro, do século XXI, e que está noiva de uma tal Inez.


Ao que Gil diz, o mais que tem em comum com Inez, é que ambos gostam de pão de alho indiano, ou seja, de naan. Só por aí concluímos, que o futuro matrimónio está destinado a correr mal.


Como seria expectável, Adriana não fica particularmente entusiasmada com o teor da conversa e retira-se. Gil fica triste, mas é nesse instante que lhe surge pela frente Salvador Dali, que muito a propósito para um surrealista, lhe começa a falar de rinocerontes.


Passados uns momentos, juntam-se a eles, Man Ray e Luís Buñuel, ambos também surrealistas. Por o serem, não lhes causa a menor estranheza que Gil lhes diga ter vindo do futuro, parece-lhes até algo muito natural.


Aqui fica a cena que se inicia com Gil Pender a conversar com Adriana acerca do seu futuro casamento com Inez, e termina com Dali a falar-lhe de rinocerontes.



Gil e Inez estão em Paris, no século XXI, e encontram um casal conhecido, Paul e Carol. Paul é um professor e amigo de Inez. O docente pode ser descrito numa só palavra: um grande pedante (afinal foram três).


Enquanto Gil anseia por viver como os escritores e artistas que admira, Paul discorre de forma pretensiosa e didáctica sobre esses mesmos personagens. Quando os dois casais vão juntos a um museu e se deparam com um quadro de Picasso, Paul começa imediatamente a dar mostras dos seus extensos conhecimentos sobre o tema.

No entanto, nesse entretanto, em sucessivas meias-noites, Gil já tinha viajado por várias vezes ao passado onde conheceu Picasso. Por assim ter sido, contraria convictamente Paul e diz-lhe o que sabe.


Todos ficam espantados com o atrevimento de Gil, sendo a mais espantada Inez, que inclusivamente lhe diz para se calar a ver se aprende alguma coisa com as palavras de Paul. Gil não lhe liga. Fez bem.



Entre as suas idas e vindas ao passado, Gil reescreve o seu romance e entrega o rascunho a Gertrude Stein, para que ela o leia e lhe dê a sua opinião. Stein era a pessoa ideal para aconselhar Gil, pois de literatura sabia ela. Para quem não saiba, a escritora ficou para história da literatura pelo seu célebre poema “Rose is a rose”.


Vale a pena aqui transcrevermos o poema na íntegra:

Rose is a rose is a rose.

Sim, o poema é só um verso, contudo, na sua simplicidade, “Rose is a rose” desafia as noções tradicionais de significado e linguagem, enfatizando a importância da repetição e da autonomia das palavras. Pela sua brevidade, o poema descontrói a relação entre significante e significado, incitando o leitor a questionar-se sobre a natureza arbitrária da linguagem.


Claro que tudo isto poderia ser dito em tom didáctico e pedante, tal e qual como o faz o personagem Paul, mas como nós neste blog somos assim mais a atirar para o nonchalant, e por isso dissemo-lo de uma forma desprendida e desinteressada, quase como se não fosse nada.


Em qualquer dos casos, Gertrude Stein elogia a escrita de Gil. Diz-lhe ainda, que Hemingway também leu o seu manuscrito e não acredita que o protagonista não perceba que a sua noiva (baseada em Inez), tem um caso, ou um “affaire” para sermos mais elegantes, com o personagem baseado em Paul, o pedante. Vejamos essa cena:



Depois disso, Gil retorna ao século XXI e confronta Inez, que admite ter dormido com Paul, mas considera a experiência como algo sem significado e não dá grande importância à conversa. Gil termina com ela e decide não regressar à América, e ficar em Paris.


No fim da película, Gil caminha junto às margens do Sena pela meia-noite, mas desta vez nada se passa, permanece no presente. De repente, encontra Gabrielle, uma rapariga que conhece vagamente.


Gabrielle diz-lhe que há dias se lembrou dele, a propósito de umas canções de Cole Porter. Começa a chover e Gil oferece-se para a acompanhar, descobrem que ambos adoram Paris debaixo de chuva. Como no início do filme, ouve-se novamente o fluir do jazz de Sidney Bechet.


Mas não é com essa melodia que vamos terminar, mas sim com uma de Cole Porter. Na primeira das viagens ao passado, Gil encontra-se subitamente numa festa e não sabe muito bem onde está. Nisto depara-se com o compositor Cole Porter, mais um americano em Paris. Cole canta “Let’s do it”:


…birds do it, bees do it

Even educated fleas do it

Let′s do it, let's fall in love

In Spain, the best upper sets do it

Lithuanians and Letts do it

Let's do it, mama let′s fall in love


Oh the Dutch in old Amsterdam do it

Not to mention the Finns

Folks in Siam do it, think of Siamese twins

Some Argentines, without means, do it

People say in Boston even beans do it

Let′s do it, let's fall in love…



E acabámos, com o fim de Agosto, virão neste blog os derradeiros textos dedicados a fitas de Verão.

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