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Já não há estrelas no céu…ou há?

 


Portugal é o país europeu com mais iluminação exterior por habitante e por metro quadrado. É também aquele onde a luz artificial à noite mais aumentou nas últimas décadas. Ao que parece há uma fúria luminosa de norte a sul da nação, e não há avenida, rua, beco ou travessa, que não tenho uma imensidão de candeeiros públicos acesos ao longo de toda a santa noite.

Tal não se passa apenas nas cidades, pois quase não há vila, aldeia ou lugar de Portugal, que não esteja fortemente iluminado. É um sinal de progresso, claro está, não haver sítios nesta nossa pátria que fiquem às escuras.

É um tema de que pouco se fala, mas a verdade é que a excessiva iluminação nocturna da nação, causa profundos estragos na fauna e na flora nacional. Mas os males que provoca estendem-se também às pessoas.

Quem queira saber mais sobre este tema, poderá ler uma recente reportagem do jornal Público, que se intitula “A iluminação LED é o eucalipto da paisagem nocturna portuguesa”:


Nós não queremos aqui falar dos aspectos ambientais e de saúde ligados ao excesso de luz artificial, queremos sim falar dos danos que esse excesso causa à imaginação.

Segundo um especialista no assunto, em 1984 ainda era possível ver a Via Láctea a partir do centro do Porto, actualmente é difícil fazê-lo até mesmo em zonas rurais situadas a mais de mil metros de altitude.

A Via Láctea, desde tempos imemoriais, que cativava a imaginação dos homens, que contemplavam a sua beleza nas noites escuras, tanto em desertos longínquos, como no topo de montanhas remotas, como ainda nas buliçosas cidades.

Na Grécia antiga, a Via Láctea estava ligada a Hércules. Zeus, deus supremo do Olimpo, uniu-se com Alcmena, uma mortal, e dessa união nasceu Hércules. A deusa Hera, esposa de Zeus, não ficou agradada com a situação, porém, Zeus pretendia que o seu filho fosse imortal, o que só poderia acontecer se Hércules fosse amamentado, ao menos uma vez, pelo divino leite de Hera.

Zeus arranjou forma de colocar o bebé Hércules junto à sua esposa enquanto ela dormia e Hércules bebeu o leite dos seus seios, no entanto, Hera acordou sobressaltada e percebeu que estava a amamentar o filho de uma outra mulher.

Hera afasta Hércules bruscamente, e o seu leite derrama-se pelo céu, criando o caminho de estrelas a que chamamos Via Láctea. Esta é portanto a origem do nome "Via Láctea", que significa "caminho de leite". 

Abaixo a pintura “A Origem da Via Láctea”, obra de 1575, do mestre renascentista Jacopo Tintoretto.


Se porventura na antiguidade clássica já houvesse excesso de luz artificial, os homens jamais teriam imaginado a história da Via Láctea, o que na verdade teria sido uma pena.

Os gregos antigos viam nas estrelas histórias de deuses e heróis, sendo que muitas dessas narrativas resultavam dos ardores amorosos de Zeus. Já vimos a sua história com a mortal Alcmena, vejamos agora o que sucedeu com a ninfa Calisto.

Zeus seduziu Calisto, que deu à luz um seu filho, Arcas. Hera, a esposa de Zeus, descobriu a traição e cheia de ciúmes, transformou Calisto numa ursa. Calisto estava condenada a vaguear na floresta, evitando ser vista pelos caçadores. Um dia encontrou seu filho, Arcas. Ao tentar abraçá-lo, Arcas confundiu-a com um animal selvagem e quase a matou com uma flecha.

Zeus, para evitar que o filho matasse a mãe, transformou-os em constelações. Calisto tornou-se a Ursa Maior e Arcas tornou-se a Ursa Menor, puderam assim ficar juntos para sempre no céu. 


Mas deixemos os gregos e viajemos até ao outro lado do mundo, às terras da Nova Zelândia. É aí que vivem os Maori, um ancestral povo indígena. Para os Maori, a constelação de Orion e as suas vizinhas fazem parte de uma canoa celestial que navega pelos céus.

Segundo a mitologia maori, um homem chamado Tawhaki ascendeu ao mundo celestial através de uma liana para aprender os segredos espirituais. Navega pelas estrelas na sua canoa e aprende os segredos do trovão e os nomes ocultos das estrelas.

Tawhaki é para os Maori, o ser que liga o mundo espiritual e o físico. Abaixo uma mapa estrelar, donde emerge o desenho de uma canoa.


Assírios, sumérios, babilónios, gregos, romanos e árabes, nas estrelas do céu podem ver-se as histórias de todas essas grandes civilizações, mas também são visíveis as de pequenos povos e até as de tribos.

Por exemplo, os tuaregues, povo berbere constituído por pastores semi-nómadas, agricultores e comerciantes, que habita a região do Saara, usam as estrelas para viajar pelo deserto, todavia, eles também escrevem nelas as suas histórias. Veja-se esta no mapa estrelar abaixo, que retrata um chefe morto e a sua passagem para o céu, conjuntamente com o seu cão e o seu túmulo.


Muitas outras histórias há, por todos os lugares do mundo, que nasceram da imaginação daqueles que à noite olharam para o alto e viram estrelas. Triste seria que agora já não conseguíssemos vislumbrar e que as histórias acabassem.

Quando olhamos para o céu, percebemos o quão pequenos e insignificantes somos. Se pararmos de olhar para ele, não só não teremos mais histórias, como podemos inclusivamente deixar de saber qual é o nosso lugar no Universo.

Mas dito isto, tenhamos esperança pois certamente que haverá quem se interesse pelas estrelas. Assim sendo, terminamos com um poema de Adília Lopes, ‘A propósito das Estrelas”:

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

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