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Make America Great Again


Nós gostamos de ver as coisas e as gentes de diferentes perspectivas e, por consequência disso, decidimos hoje divagar acerca do traseiro. Normalmente vemos os outros pela frente, no entanto, é uma interessante rotação antropológica, se os apreciarmos pela sua parte de trás.

As mãos, o rosto e os olhos têm todos uma excelente fama, não há quem não goste de apreciar essas partes da anatomia humana. Foram muitos os poetas que as cantaram e os artistas que as retrataram, já o rabo, coitado, não teve igual sorte.

É certo que apareceram uns quantos rabos ao longo da história da arte e da literatura, mas foram muito poucos, havia potencial para muito mais. 
Assim sendo, está na hora de corrigir essa injustiça histórica e dar ao rabo o lugar que ele merece.

Merece-o até, porque é uma parte plurisensorial, a sua riqueza é transversal, pois que ele não só agrada à vista, como também apela à audição e ao olfacto, uma vez que desabafando, é capaz de produzir excelsos sons e odores.

A capacidade de desabafando produzir sons e odores, não é coisa despicienda, tendo sido isso mesmo, o que pensaram uns senhores ingleses do século XVIII, que fundaram em Londres um espaço de convívio e cultura, a que chamaram “The Farting Club”.

Segundo os documentos históricos existentes, os membros desse clube reuniam-se para beber uns sumos, para de seguida desabafarem à larga, competindo entre si para verem quem conseguia produzir o mais potente som e o mais intenso cheiro.

Uma notícia da época dizia que “the members met once a month to give of their best.”



Para reforçarmos a ideia de que as ventosidades intestinais não são coisa sem importância, veja-se que até um imperador romano, Cláudio, que governou Roma de 41 a 54 d.C., publicou um decreto sobre esse assunto.
Nesse decreto, Cláudio autorizava a livre flatulência durante os banquetes. O imperador tomou essa decisão após um seu hóspede quase ter morrido com o enorme esforço que fez para se conter na sua presença.

Saliente-se ainda que o interesse pelos odores e sons produzidos pelo rabo atravessa diferentes culturas e civilizações. Repare-se por exemplo na gravura japonesa do século XVII mais abaixo, onde podemos contemplar rabos ao léu, em pleno desabafo de sons e odores.

Trata-se de uma obra do período Edo, época cuja arte se caracteriza por uma extrema elegância e por uma rara fineza e delicadeza.


Também em terras de Alá, os desabafos do rabo constituíam um tema para poemas e contos. Pense-se no clássico árabe, “As mil e uma noites”. Numa das histórias contadas pela bela Xerezade, fala-de da cidade de Kaukaban, em Al-Yaman, onde vive Aby Hasan.

Era o dia do casamento de Aby Hasan, quando a sua noiva chega, ele levanta-se lentamente, mas por causa da comida e da bebida ingerida, solta um terrível e grande peido. Muito embora os convidados agissem como se nada tivessem ouvido, Abu Hasan enche-se de vergonha e foge para muito longe.

Foi para a Índia, onde permaneceu por dez anos, até que um dia é tomado pelas saudades de casa e regressa. Quando está quase a chegar a casa, tenta averiguar se ainda alguém se recorda do dia do seu casamento. É então que ouve uma mãe dizendo o seguinte à sua filha: "Nasceste, ó minha filha, na mesma noite em que Abu Hasan se peidou". Abu Hasan foge de volta para a Índia e por lá fica o resto da sua vida.

Aqui chegados, cremos já ter dado a quem nos lê uma abrangente visão multicultural acerca do rabo, dos seus sons e odores, sendo que, ainda só falámos de um dos seus aspectos, ou seja, da sua capacidade de desabafar.

Nesse sentido, vamos agora falar de outros aspectos ligados ao rabo. Em boa verdade, nós não somos especialistas do assunto, razão pela qual, nos vamos socorrer de uma autora, que essa sim, é uma autêntica estudiosa deste tema.

O seu nome é Heather Radke, tendo ela recentemente lançado um livro que aborda as diversas dimensões do rabo. Questionada numa entrevista sobre qual a razão que a levou a escrever sobre o rabo, ela respondeu o seguinte: “Escrevi o livro porque tenho um grande rabo. Estamos numa década muito interessante na história das rabos e eu queria levar o assunto a sério e analisa-lo no contexto da crítica cultural."



Neste seu livro, a autora analisa como evoluiu a percepção dos rabos nos Estados Unidos desde o século XIX até ao presente. Uma das conclusões mais interessantes a que a Heather Radke chegou, foi que até ao início do século XXI, não se considerava adequado as mulheres terem um grande rabo, contudo, na actualidade, tudo mudou e um traseiro feminino de grande tamanho é visto como uma coisa atractiva.

Houve portanto uma mudança de paradigma, algo que a autora atribuiu à influência da cultura negra e latina nos Estados Unidos.

Provavelmente o slogan eleitoral do actual Presidente dos Estados Unidos, “Make America Great Again”, nada terá a ver com rabos, ainda assim, dir-se-ia que está em consonância com os tempos que vivemos.

Na realidade, o rabo parece estar sempre presente em momentos históricos. Um dos maiores acontecimentos da história ocidental, foi quando a igreja cristã se dividiu em duas, a católica e a protestante.

Martinho Lutero foi a figura central dessa cisão. Lutero, o pai da Reforma protestante, relatou uma conversa com o demo. Em 1532 escreveu o seguinte: “Esta noite, o diabo, falando comigo, acusou-me de ser um ladrão, de ter roubado o Papa e muitas outras ordens religiosas das suas propriedades. ‘Chupa-me o rabo’, respondi-lhe e ele calou-se”.

Em tempos distantes, não era de todo em todo incomum, que o rabo e a sua pluri-sensorialidade, aparecessem ligados a sermões e a outros eventos religiosos. Veja-se o exemplo abaixo, da época medieval, no qual um frade usa uma trompeta para dar toda uma outra musicalidade às suas melodias. A religiosa que assiste à cena, reza piedosamente, perante os sons celestiais que lhe são dados a ouvir.


Ao contrário do que nós, os que vivemos actualmente possamos pensar, melodias do género da gravura acima, eram muito apreciadas na Idade Média. Existem inúmeras gravuras cujo assunto é exactamente o mesmo. Aqui fica mais um exemplo de uma gravura medieval.


Feitas as contas, vamos terminar este nosso texto, uma vez que estamos em crer que já deixámos suficientes pistas a quem queira aprofundar mais este tema. Acreditamos que vão ser muitos os que nos lendo ganharam uma nova perspectiva sobre o rabo e sobre os seus aspectos culturais, históricos e sociais. 
E foi assim que mais uma vez cumprimos a missão didáctica e pedagógica deste blog.

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