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Nos teus olhos altamente perigosos




O poema “Um adeus português” foi publicado em 1958. Na Lisboa asfixiante de então, a vida era mansa, quase vegetal. O poeta Alexandre O’Neill apaixonou-se por uma francesa de “olhos altamente perigosos”. Passados uns tempos, ela teve de partir e o poeta pretendia ir a Paris encontrar-se com ela. Paris era a cidade aventureira onde o amor encontra as suas ruas.

Todavia, a sua família opunha-se à ida (o homem era casado) e meteram uma «cunha» junto da PIDE para que lhe negassem um passaporte. As autoridades questionaram-no sobre a razão pela qual queria viajar. O burocrata de serviço que o interrogou disse-lhe o seguinte: “Se calhar V. Exª quer ir, porque essa gaja lhe meteu alguma coisa na cachola.”. O poeta respondeu que nem ela era uma gaja e nem ele tinha cachola. Não conseguiu obter o passaporte. Ficou preso a Lisboa e ao seu modo funcionário de viver. Nunca voltou a rever a sua musa inspiradora. Escreveu-lhe uma despedida em forma de poema.

Nos teus olhos altamente perigosos

vigora ainda o mais rigoroso amor

a luz de ombros puros e a sombra

de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo

à roda em que apodreço

apodrecemos

a esta pata ensanguentada que vacila

quase medita

e avança mugindo pelo túnel

de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira

onde passo o dia burocrático

o dia-a-dia da miséria

que sobe aos olhos vem às mãos

aos sorrisos

ao amor mal soletrado

à estupidez ao desespero sem boca

ao medo perfilando-te 

à alegria sonâmbula à vírgula maníaca

do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo

em trânsito mortal até ao dia sórdido

canino

policial

até ao dia que não vem da promessa

puríssima da madrugada

mas da miséria de uma noite gerada

por um dia igual

Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta pequena dor à portuguesa

tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces

esta roda de náusea em que giramos

até à idiotia

esta pequena morte

e o seu minucioso e porco ritual

esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira

da cidade onde o amor encontra as suas ruas

e o cemitério ardente

da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio

de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia

mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

sem a moeda falsa do bem e do mal 

*

Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento

digo-te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti.

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