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O que tu vês com os teus olhos, as tuas mãos o traçam na tela

 


Hoje é a noite de Santo António.

O Santo António é tido pelos lisboetas como sendo casamenteiro. É um santo popular, pois claro. A própria palavra “casamenteiro” reflete esse lado marialva e pagão dos encontros e namoricos por ele abençoados. Os manjericos e as quadras populares que os acompanham, mais não fazem que acentuar todo esse arraial associada ao santo.  

O dia de amanhã, 13 de Junho, está ligado ao nascimento de Maria Helena Vieira da Silva. Se o Santo António é a personagem que encarna a faceta mais popular e dada à brejeirice das gentes de Lisboa, Vieira da Silva encarna a faceta recatada e intimista.

Para essa tendência ao recolhimento de Vieira da Silva, terá contribuído o facto de ter passada uma infância solitária: 


"Era a única criança, numa casa muito grande, onde me perdia, onde havia muita coisa, muitos livros … não tinha amiguinhas, não ia à escola…"

Estreou recentemente um documentário que resulta da pesquisa sobre a correspondência íntima entre Vieira da Silva e Arpad Szenes. Intitula-se “Vieirarpad”. Já em 1978 tinha sido realizado um outro filme sobre o encontro dos dois, o título era: “Ma Femme Chamada Bicho”

Seja pelos filmes, seja pela leitura das cartas, percebemos que a relação de ambos, se baseava no facto de Arpad Szenes ter conseguido entrar no delicado casulo que Vieira da Silva albergava em si sem o danificar.

Arpad conseguiu que esse casulo deixasse de ser apenas o sítio no qual Maria Helena, tal e qual um bicho, se escondia e não se deixava ver. Arpad, conseguiu que nesse casulo crescessem cores, formas e linhas: vida.

Esse casulo foi o sitio onde pacientemente Vieira da Silva se pôs a tecer a sua pintura. Como materiais para a sua arte de tecer, usava os seus mais íntimos pensamentos, desejos e anseios, tudo aquilo que, antes de Arpad, escondia e abafava. Tecia-os de modo a que se metamorfoseassem em traços e nas linhas emaranhadas, entrelaçadas e abstratas que constituem a matéria primeira da sua obra pictórica.

Na sua pintura são reconhecíveis vários espaços, que qual casulos, são propícios a recolhimentos poéticos e criativos: quartos, ateliers, labirintos, bibliotecas e também cidades, cujas muitas ruas são como linhas que se cruzam e se entrecruzam num imenso contínuo. 

Um outro lugar de recolhimento poético e criativo, foi a correspondência que Maria Helena trocou com Arpad Szenes. Neste caso, não são linhas, cores e formas o que cresce e se metamorfoseia no casulo de Vieira da Silva, são palavras. Palavras que teriam ficado escondidas, que nunca teriam sido tecidas se porventura não se tivesse dado o encontro com Arpad.

Nos seus últimos anos de vida, Vieira da Silva regressou a Lisboa, e não por acaso, instalou-se num atelier situado na antiga fábrica de tecido de seda, junto ao mais secreto e íntimo jardim de Lisboa: o Jardim das Amoreiras. 

Amoreiras de cujas folhas se alimentam os bichos que de seda os seus casulos tecem. Foi nesse mesmo local que posteriormente veio a ser instalado o Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva.

No dia 25 de Abril de 1974, Maria Helena Vieira da Silva saiu por uma vez do seu recolhimento interior ao encontro do povo. Foi um momento de júbilo. Desse encontro, nasceu o icónico cartaz “A poesia está na rua”. 

Já anteriormente publicámos neste blog um guião de aprendizagem com esse mesmo nome, onde usámos imagens de obras de Vieira da Silva. Não está escondido, é fácil de o encontrar, é só pesquisar.

Hoje pela noitinha, haverá novos encontros e a poesia voltará a estar na rua, mais que não seja na forma de uma quadra popular...


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