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Folhetim de verão - Capítulo IV - Anita e o facilitismo

 


O Cunha não sabia bem como reagir perante o ar ofendido com que a Professora Anita se retirou para os seus aposentos. No entanto, uma coisa ele sabia, não era de todo em todo avisado da sua parte tentar remediar o assunto nas próximas horas, para não dizer dias. O mais sensato era deixar que a Professora Anita assentasse as ideias e depois logo se veria. 

O Cunha tinha uma longa experiência com professoras. Primeiro em criança como aluno. Depois, como adulto em exercício das suas funções. Como aluno, não poucas tinham sido as vezes em que a professora primária, fosse lá ele perceber porquê, lhe tinha assente um bom par de solhas nas ventas. Como adulto, já tinha tido assistido a uma ou outra altercação de professoras e era algo que não recomendava a ninguém. 

Mesmo aquelas professoras que aparentavam ser cordatas e pacíficas, transfiguravam-se quando por alguma insondável razão lhes subia o caldo verde ao nariz. Nessas ocasiões, não valia sequer a pena tentar argumentar. O mais sensato era permanecer calado e ir saindo de mansinho, não fosse o diabo tecê-las e ainda se aleijar. Curiosamente, nunca tinha tido problemas com professores, só com professoras. Coisas da vida pois então, o que é que se há de fazer! Em qualquer dos casos, baseado na experiência adquirida, o Cunha decidiu que relativamente à Professora Anita, o melhor era chutar para canto e esperar para ver o que a casa gastava.

Nestes entretantos, a Professora Anita permanecia recolhida no seu quarto com uma valente enxaqueca e nem sequer desceu à sala de refeições para jantar. Contentou-se com um chá de camomila e umas bolachinhas sem sal. Não conseguia tirar do pensamento o topete do Cunha ao pôr em causa a sua avaliação! Safa que o homem era de raça. Pois se ela até lhe tinha dado um feedback e tudo! Que mais queria ele? Uma destas nunca lhe tinha sucedido. 

Por ela, o teste estava acabado. Não queria cá saber mais de testes para nada. Tanto trabalho que tinha tido a consultar a bibliografia para conceber seis exercícios adaptados ao Cunha, e logo ao segundo, ele sai-se com uma daquelas. Que pouca consideração. Irra que era demais. 

Com o passar das horas lá se foi acalmando, a enxaqueca foi-se desvanecendo e a Professora Anita dormiu profundamente durante toda a noite. Ao despertar, sentia-se rejuvenescida. Desceu à sala de refeições para tomar o pequeno almoço. Vinha cheia de apetite e bem disposta. Já só tinha uma vaga recordação das arrelias do dia anterior. 

Num primeiro momento não viu o Cunha, não estava no lugar habitual. Contudo, num segundo momento, viu-o sentado num outro lugar, mesmo junto à mesa do buffet, acompanhado por uma pindérica qualquer. Ficou paralisada durante uns minutos. Ainda assim, conseguiu observar a cena em toda a sua dimensão. O Cunha serviu-se de várias espécies de frutos vermelhos, acompanhou-os com um sumo natural e até uma fatia de pão barrada com compota caseira comeu. Nada de café. Muito saudável o Cunha, sim senhora. Quem haveria de dizer! Ainda por cima, riam-se, ele e a pindérica.

Não se conteve, dirigiu-se à mesa e proclamou o seguinte: 


- Saiba o senhor que revi a sua avaliação. Fui demasiado rigorosa. Nos tempos que correm é tudo para passar, não é assim? Pois então teve 20 nos dois exercícios que fez ontem. E nem precisa de fazer os quatro restantes, também nesses tem 20. Tem vinte a tudo. Está satisfeito?


O Cunha levantou-se, deu três passos até à mesa de buffet, serviu-de de um iogurte com bífidos ativos e fez-se de engraçado:


Então a Professora Anita agora também aderiu ao facilitismo?


E nisto começa a cantarolar o refrão do célebre sucesso dos The Commodores, “Easy”: Ooh, ooh, that's why I'm easy, I'm easy like Sunday morning, yeah, woah…

Foi a gota de água. Nesse instante, os olhos da Professora Anita faiscaram, passou-lhe uma coisa má pela vista, foi acometida por uma fúria e atirou-se ao Cunha. Felizmente que este possuía reflexos rápidos e conseguiu desviar-se a tempo. Assim sendo, o resultado da investida acabou por saldar-se tão-somente num aparatoso e vigoroso embate entre a Professora Anita e a mesa do buffet.

A Professora Anita estatelou-se no soalho, mas nesse movimente descendente arrastou consigo a toalha de mesa, assim como  todo o buffet. O sarrabulho foi de monta. Afortunadamente, não houve consequências físicas. Por consequência, a Professora Anita reergueu-se prontamente, e com a elegância possível de quem se encontra com a roupa encharcada em leite, sumo, iogurte e esborratada com manteiga, queijo e compota, atravessou dignamente a sala de refeições e retirou-se.

Depois do nefasto incidente, a Professora Anita encerrou-se nos seus aposentos donde não mais saiu durante o resto do dia. Ficou novamente a chá de camomila e a bolachas sem sal. O estabelecimento termal não tinha Room-Service e a ela não lhe apetecia mostrar-se. 

No dia seguinte, tinha chegado a uma decisão. Não ia deixar que um qualquer Cunha lhe arruinasse as suas férias grandes. Decidiu que precisava de companhia. Ter vindo sozinha não tinha sido uma boa ideia. Nesta época do ano, as companhias disponíveis não eram muitas. Todavia, sabia da pessoa ideal: o colega Esteves. 

Muito embora como figura o Esteves estivesse muito longe de ser uma estampa e por vezes fosse um tanto ou quanto secante, ainda assim, desde há muito que era um sincero admirador da Professora Anita. Se ela lhe pedisse, ele fazia fosse o que fosse. Por vezes ela até o evitava, contudo, desta vez a situação era distinta. Já se tinha informado com a recepção do estabelecimento termal e havia um quarto vago na cave que serviria muito bem para o Esteves, pois que não era homem dado a grandes luxos e sofisticações.

Para grandes males, grandes remédios. O Esteves iria ser o instrumento da sua vingança. O Cunha queria brincadeira? Havia de as pagar. A Professora Anita sorriu para si mesma, pegou no seu smartphone e pôs-se a ouvir os The Commodores. Ai ele é easy, ela dava-lhe o easy:




E agora?  Qual será o plano da Professora Anita? Estará o Cunha em risco de ser liquidado? E o Esteves? Será um homem sério? Um baboso? Ou será talvez um crápula da pior espécie? As respostas a tudo isto e a muito mais surgirão no quinto capítulo deste fascinante folhetim de verão.

                                                                                              (continua)

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