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Tudo a saltar do lugar

 

Pensemos na cidade de Maastricht...

Nada nos ocorre. 

Pensar em Maastricht é pensar em nada. Se pensarmos em Veneza, Paris, Nova Iorque ou no Rio, imediatamente evocamos imagens, sons e histórias, mas com Maastricht não. Pensemos, por exemplo, em Roma. Lembramo-nos das suas ruínas, das suas fontes barrocas, e dos tantos gatos que passeiam pelos becos e vielas e vão saltando de telhado em telhado. Para os gatos de Roma, a cidade eterna não tem fronteiras.



Em Maastricht não há gatos pelas ruas. Mas que sabemos nós de Maastricht? 

Sabemos que deu o seu nome a um tratado europeu. Durante anos, os noticiários falavam com bastante frequência do Tratado de Maastricht.

Que mais sabemos nós? Sabemos que fica na Holanda. Melhor dizendo, nos Países Baixos, designação oficial do país que até há pouco se chamava Holanda. Que estranho povo deve ser esse, para ao fim de séculos, decidir administrativamente trocar o nome do seu país. Holanda é um nome bonito, Países Baixos nem tanto. 

Que destino mais triste o de Maastricht: uma pequena cidade, conhecida apenas por ter dado o nome ao tratado europeu em que se acordou a unificação monetária na União Europeia. 

Em princípio, não é um local no qual queiramos ir passar férias ou fazer um Weekend-Break. Com certeza que todos conseguimos pensar em lugares mais divertidos e estimulantes. 

A câmara municipal de Maastricht promove anualmente no verão, um concerto de música clássica no parque da cidade. 

Apesar do evento ser ao ar livre, muitos são os habitantes de Maastricht que se vestem para a ocasião como se fossem à ópera ou a um concerto de gala. Entre a assistência presente, não é difícil encontrar alguns fraques, laços e laçarotes, uns quantos vestidos de cetim e outras indumentárias do género. 

Provavelmente, o único filho famoso de Maastricht é o violinista André Rieu. Muito naturalmente, é a ele que convidam, para conjuntamente com a sua orquestra, atuar no referido concerto de verão. Os méritos musicais de André Rieu provocam reações extremadas. Por um lado, vende milhões de discos e os seus concertos esgotam auditórios pelo mundo fora, por outro, os puristas consideram que vendeu a alma ao diabo e perverte a sacro-santa música erudita, popularizando-a. 

Não vamos tomar posição nessa fascinante querela melómana, o que aqui nos interessa, é que, seja o homem um vendido ao gosto deseducado da populaça ou, pelo contrário, seja um pedagogo e divulgador da música erudita, entre aqueles que habitualmente não a escutam, o certo é que os espectadores dos seus concertos se divertem com melodias clássicas. Acerca disso, não há discussão. 

Num dos seus concertos de verão em Maastricht, André Rieu fez algo mais, promoveu um encontro transdisciplinar entre a música erudita e o Mambo. 

Naquele momento, derrubaram-se muros que se julgavam intransponíveis entre duas disciplinas musicais distintas. 

Nada levava a crer que uma orquestra clássica, herdeira da longa e sólida tradição musical do velho continente, se deixasse contagiar pelos calientes sons vindos dos trópicos latino-americanos. Nada fazia prever, que o circunspecto público de Maastricht fosse despindo os casacos, desapertando as camisas, tirando as gravatas, soltando os vestidos e se pusesse a bailar. Nada levava a pensar, que os habitantes da austera e séria cidade de Maastricht, repentinamente abandonassem as suas rígidas poses e, com a mesma agilidade com que os gatos de Roma vão de telhado em telhado, saltassem do lugar e se pusessem a dançar. 

O intérprete convidado para esse concerto com a orquestra de André Rieu, foi o cantor alemão Lou Bega. A biografia de Lou Bega é ela própria um exemplo de como ultrapassar fronteiras. Nasceu em Munique, a mãe é uma médica italiana da Sicília, o pai é africano do Uganda, e passou toda a sua infância entre Miami e a Baviera na Alemanha. 

Em boa verdade, a cidade de Maastricht é também ela um símbolo de como as fronteiras podem ser ultrapassadas, neste caso, entre países. O Tratado de Maastricht estabeleceu que os países da União Europeia abandonariam as suas moedas tradicionais e passariam a usar uma moeda transnacional: o Euro. 

Lou Bega, para além de ser um rapaz com origens multiculturais, a avaliar pelo refrão do Mambo n.°5, parece também ser dado ao experimentalismo, ao saltar de telhado em telhado, e a uma certa conjugação de múltiplas matérias: “A little bit of Monica in my life A little bit of Erica by my side A little bit of Rita is all I need A little bit of Tina is what I see A little bit of Sandra in the sun A little bit of Mary all night long A little bit of Jessica, here I am A little bit of you makes me your man” 

Fica o vídeo dessa noite de verão em Maastricht, vale a pena ver:

 






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