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Tudo já para a Rua!



Há quem se espante por atualmente os alunos não gostarem de estar nas aulas e se aborrecerem com a matéria. Todavia, a pergunta que nos ocorre fazer é a seguinte: mas quando é que alguma vez na vida, salvo raras excepções, os alunos estiveram interessados na matéria? A bem dizer, diríamos que nunca. A matéria é uma coisa chata e aborrecida, e sempre o foi, não é de agora.

Recuemos três séculos e meio. Estamos no ano de 1670, data em que o célebre pintor holandês Jan Steen compôs uma obra intitulada “Uma escola para meninos e meninas”, que pode ser visitada na National Gallery of Scotland.

Não é preciso ser especialista em arte, para se perceber imediatamente que o ambiente de sala de aula desta escola holandesa do século XVII é um tanto ou quanto caótico. Nem os alunos estão particularmente interessados na matéria, nem os professores parecem ralar-se muito com isso. Na tela pode observar-se um professor e uma professora, pelo que se presume que trabalham em coadjuvação. Dir-se-ia que cada aluno aprende ao seu ritmo: uns leem, outros conversam e ao fundo da sala, em cima de uma mesa, há um que faz umas graçolas.

 



As cenas da vida escolar fizeram tanto sucesso, que Jan Steen regressou várias vezes a esse tema. Em 1672 pintou uma outra obra, que intitulou “Sala de aula com o professor a dormir”. Também neste caso, não parece que haja grande interesse em dar ou em aprender a matéria, inclusivamente da parte do professor. Digamos que estamos perante um claro exemplo de pedagogia não diretiva.



Talvez haja entre quem nos lê, alguém que esteja a pensar para consigo mesmo, sim, no século XVII na Holanda, a escola era uma grande rebaldaria, mas de certeza absoluta, que com avançar do tempo e em sítios mais civilizados, nada disto se passava e a matéria era dada e aprendida. 

Avancemos então até ao século XIX e dirijamos-nos para a pátria das luzes, das artes e letras, ou seja, para o coração da Europa civilizada: França.

Joseph Beaume, pintor a quem foram comissionadas várias obras destinadas ao Palácio de Versalhes, decidiu pintar uma cena da vida escolar. Em 1831 compôs uma obra a que chamou “O mestre-escola adormecido”. Esta pintura pode ser vista no Museu Nacional da Educação em Rouen, na Normandia, no nordeste de França.

Também neste caso, não há dúvidas nenhumas, que quer os alunos, quer o professor, se aborrecem até à última com a matéria.



Viajemos para outras paragens, até à sólida e disciplinada Alemanha. Estamos em 1925, data de estreia do filme “O Anjo Azul”

O filme relata-nos a história de um professor. Ele descobre que os seus alunos não estão absolutamente nada interessados na matéria que ele lhes tenta dar, o que lhes interessa são umas fotografias de uma atriz que atua num cabaret local chamado Anjo Azul. O professor decide visitar o cabaret para restabelecer a ordem e pedir à dita atriz que não distraia os seus alunos, contudo, acaba por se apaixonar pela atriz e perder todo o interesse pelas matérias escolares.

A protagonista do filme é interpretada por Marlene Dietrich, de quem se dizia que o nome começava por acariciar, Marlene, para logo em seguida chicotear, Dietrich. Aqui fica o trailer:




O que todos estes exemplos nos demonstram, e muitos mais haveria, é que o desinteresse pelas matérias não é de agora, é de sempre. 

Há séculos que a escola anda a tentar que os alunos estejam quietos, sossegados e interessados, estando horas seguidas sentados dentro de uma sala de aula a ouvir quem lhes dá a matéria. Por vezes consegue-se, mas à custa de um esforço exaustivo de parte a parte, ou seja, de alunos e professores.

Talvez seja a altura de se tomar mais atenção às muitas investigações pedagógicas, que apontam um outro caminho, nomeadamente, o caminho da rua. Na rua é um mundo onde há museus, cinemas, teatros, exposições, monumentos, serviços, mercados, jardins, sol, chuva, vento e bairros com histórias das gentes que neles vivem e trabalham.

São muitas as investigações que indicam que a escola tem de se pensar a si mesma a partir da “não-escola”. Pela sala de aula adentro deve entrar a rua, o mundo, a “não-escola”, e não apenas as matérias. A sala de aula deve sair para a rua, para o mundo, para a “não-escola”, e ao invés das visitas de estudo e passeios serem momentos excepcionais, deveriam passar a ser a regra.

A “não-escola” é muito mais interessante que a matéria, sempre o foi, quer para professores, quer para alunos. Vamos lá então para a rua, pois lá fora há um mundo maravilhoso. É isso mesmo que nos diz a canção de Sam Cooke “What a Wonderful World, que se inicia com as seguintes matérias:

Don't know much about history

Don't know much biology

Don't know much about science books

Don't know much about the french I took…

…e que mais para frente continua com mais estas:

Don't know much about geography

Don't know much trigonometry

Don't know much about algebra…











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