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De cábula a marrão, é tudo uma questão de resolução



Para muitos professores e alunos, iniciou-se agora o 2° período. Mas não para todos, pois para alguns já não há períodos, há semestres. Um facto cientificamente provado, é que os semestres promovem o sucesso educativo. Há muitas razões para assim ser, mas também há muito quem não saiba quais são essas razões.

Imbuídos do espírito pedagógico que nos caracteriza, vimos por este meio explicitar, que uma dessas razões se prende com as chamadas resoluções de ano novo.

Para o fazermos, vamos começar por analisar, em contexto extra-escolar, qual a real consistência dessas resoluções.

 

Por alturas do ano novo, todos tomamos as nossas resoluções. Esfregamos as mãos de contentes e, cheios de determinação, prometemos a nós próprios: este ano é que é. 

Uma parte muito significativa dessas resoluções, relaciona-se com a adopção de um estilo de vida mais saudável, como por exemplo, deixar de fumar, beber menos, fazer exercício físico ou reformular a dieta alimentar.

Quem não fuma, não bebe, já faz uma alimentação saudável e exercício físico regular, está despachado, nada de melhor tem a esperar do novo ano. Em princípio, para esses, vai ser a mesma lengalenga do ano passado, ou seja, estafar-se em caminhadas, corridas ou no ginásio e comer verduras insossas acompanhadas com aguinha, que, para além de hidratar, é inodora, incolora e insípida. Bem bom, pois há quem tenha destinos piores, a saber: acompanhar as refeições com sumos Detox.

 


Há resoluções de ano novo, cujo propósito não é ficarmos mais saudáveis a nível físico, mas sim a nível psico-emocional. Resoluções tão radicais, como por exemplo abandonar o emprego que se odeia e passar a viver das prestações da Segurança Social, da mesada do pai ou da mãe, do ordenado do marido ou da mulher, ou então, de um outro alguém que nos ame incondicionalmente e amavelmente se disponha a financiar o nosso bem-estar psico-emocional.

 

Há também quem, vivendo na solidão ou mal acompanhado, no ano novo se decida a encontrar um qualquer ser humano que o/a preencha em toda a amplitude polissémica do verbo preencher. Fazem bem, ninguém gosta de sentir um vácuo existencial dentro de si.

 

Por fim, há ainda resoluções como escrever um livro há muito adiado. Uma auto-biografia que conte aos vindouros a vida que se viveu. Se bem que, se por acaso se passou muito tempo em caminhadas, no ginásio ou a comer verduras e a beber aguinha, há fundadas dúvidas que talvez não haja nada de particularmente interessante para se contar. Ainda assim, pode ser que sim, que haja, pois nunca se sabe o quão surpreendente pode ser a degustação de um rabanete fresquinho.

 

Por incrível que vos pareça, pelo menos a nós parece-nos, desde psicólogos a nutricionistas, passando por “personal trainers” e “influencers”, há uma enormidade de supostos especialistas que se dedicam a estudar cientificamente as resoluções de ano novo. Fazem-no, para melhor nos aconselharem sobre o modo como as poderemos concretizar e assim termos uma vida mais próspera, longa, saudável e feliz.

 

Os especialistas indicam-nos que as resoluções de ano novo se dividem em dois tipos, consoante os objetivos que se propõem atingir. Há um tipo de resoluções baseado em “objetivos de evasão", que, como se depreende pelo nome, envolve abandonar algo como os doces, o álcool ou as redes sociais. Há um outro tipo baseado em "objetivos de aproximação", que envolve a adopção de um novo hábito, como ir andar de bicicleta duas vezes por semana, ir aprender a tocar saxofone ou fazer um curso de cozinha criativa.

 

Para que não haja ilusões, ficam os nossos leitores desde já a saber, que todos os estudos comprovam, que a larguíssima maioria das resoluções de ano novo dura apenas umas horas, vá lá uns dias, quando muito umas semanas. São raríssimas as que efetivamente se concretizam duradoiramente. Após algum tempo, as resoluções de ano novo são pura e simplesmente adiadas para data a anunciar posteriormente.

 

Não é nossa intenção competir com os especialistas das resoluções de ano novo, contudo, vamos filosofar sobre o assunto, pois uma das nossas resoluções de ano novo, foi precisamente essa, a de que este ano vamos passar pelos menos um minuto por dia a filosofar.

Em boa verdade, não apreciamos verduras, a água não nos adianta nem nos atrasa, o exercício físico cansa-nos e não temos paciência para escrever um livro, por consequência, filosofamos. É uma resolução de ano novo tão boa como outra qualquer.

 

Dito isto, vamos lá então filosofar. Com base em intuições cognitivas e quiçá metafísicas, estamos em crer que, o que em essência verdadeiramente está presente em todas as resoluções de ano novo, é o desejo constitutivo do ser humano em ter uma vida mais saudável, mais longa, mais feliz e mais satisfatória. 

Esse desejo substancia-se no seio do Ser enquanto Ser, mas aspira realizar-se empiricamente substancializando-se em fenómenos concretos entendidos à luz do que foi teorizado por Kant em “Kritik der reinen Vernunft”.

O problema é que, na transposição desses desejos da esfera etérea do Ser enquanto Ser, para a esfera da realidade concreta enquanto tal, os desejos se metamorfoseiam em resoluções. Sendo que, a força de vontade para as concretizar ou não existe, ou se desvanece quase por completo, se não mesmo totalmente.

 


Pronto, já está, já filosofámos, e nem sequer necessitámos de usar conceitos complicados como “objetivos de evasão" e “objetivos de aproximação" para nos fazermos compreender, bastou uma referência a Kant e toda a gente nos entende.

 

Mas aqui chegados, voltemos então ao início deste texto, aos semestres e às suas vantagens pedagógicas. O que sucede, é que, quando se está em períodos, os alunos no início de janeiro dizem para si mesmos:

- Bom, dada esta miséria de notas que tive no 1° período, neste 2° período vou estudar o mais que puder e estar atento nas aulas.

 

Todavia, esta resolução dos alunos é tomada ali por volta do ano novo e, assim sendo, o cérebro coloca-a no mesmo espaço mental de todas as outras resoluções de ano novo. Consequentemente, ao segundo ou terceiro tempo do primeiro dia de aulas do 2° período, a resolução, como sucede com praticamente todas as resoluções de ano novo, já se desvaneceu. Não é culpa dos miúdos, é a neurologia a funcionar.

 

Por contraste, se essa resolução dos alunos for tomada lá para meados ou finais de fevereiro, ou seja, no final do semestre, não se confunde neurologicamente com as resoluções de ano novo e, por consequência, os alunos cumprem-na à risca.

 

Mesmo um aluno que no 1° semestre nada estudou e foi pouco atento, um cábula portanto, se logo no início do 2° semestre tomar esta resolução, metamorfoseia-se imediatamente num marrão, a sua atenção jamais se desvia do professor e põe-se a estudar que nem um perdido.

 

Em conclusão, viva os semestres, de cábula a marrão, é tudo uma questão de resolução.

 


 

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