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O domingo passou a ser o dia mais odiado. Minha odiada segunda-feira: Te quiero todavía…



Hoje é sábado e muda a hora, razão pela qual, vamos falar-vos do domingo. Ou talvez não. Talvez vos falemos antes da segunda-feira, em que a conversa vai ser a mesma de todos os anos, ou seja, a de que dormimos uma hora a menos. Ou será uma hora a mais? Nunca nos entendemos com esta coisa da mudança da hora.

Mas daí, se calhar não vale a pena falarmos-vos disso, é assunto sem grande interesse, esse da mudança de hora e dos dias da semana. O melhor é falarmos-vos de coisas mais excitantes e calientes, como seja por exemplo, da música da América Latina: da Rumba, do Bolero, do Merengue, do Mambo e do Cha-Cha-Chá.

Enfim, estamos indecisos entre ser fiéis à nossa tristonha origem lusitana e falar-vos de assuntos insípidos e desinteressantes como as horas e os dias da semana, ou rendermo-nos aos hispânicos encantos, e falarmos-vos de coisas mais excitantes.

Estamos verdadeiramente indecisos...

 

Mas porque hoje é sábado, talvez comecemos afinal por arranjar um modo de sermos ao menos um poucochinho fiéis à lusofonia e falar-vos, por exemplo, do Brasil. De Portugal, não vale pena falar, basta ver o telejornal, para saber que está tudo tristemente igual.

Assim sendo, porque hoje é sábado, vamos então ao Brasil. Em boa verdade, a melhor forma que temos de falar do Brasil, é calar. Calar, para que alguém fale. Neste caso, para que fale o poeta Vinicius de Moraes e nos recite um dos seus mais belos poemas, “O Dia da Criação”, que se inicia assim: hoje é sábado, amanhã é domingo…



Uma vez tendo ido ao Brasil, regressamos a Portugal, pois, feitas as contas, escolhemos ser fiéis à pátria e tudo recomeçar, dando uma nova oportunidade à tristonha conversa nacional, mas como uma condição: vamos falar-vos tão-somente dos dias da semana, esqueçamos as conversas sobre a mudança da hora.

Quanto ao resto de que vos íamos falar, ou seja, da música da América Latina e de coisas excitantes e calientes, a pouco e pouco lá iremos pondo umas achegas pelo meio da conversa, não fica esquecido. É uma questão de quem nos lê, manter a fé e a concentração e não se dispersar.

Assim sendo, caros leitores, concentrem-se. Para já, vamos diretos e sem mais demoras ao assunto do dia: o domingo. Ou, se calhar não, vamos antes à segunda-feira. Está decido!

 

O ódio à segunda-feira é algo de transversal a todas as camadas da sociedade e a todos os países do ocidente e não só. É algo que semanalmente assola grande parte da humanidade, e que só se mitiga à base da ingestão de muitas chávenas de café.

Há académicos que tentaram explicar cientificamente as razões desse ódio com factores racionais, como por exemplo, a descontinuidade que os fins de semana provocam nos nossos níveis de sono e/ou as estratégias mentais que o nosso cérebro inconscientemente adopta para tolerar o stress semanal.

Há também estudos que indicam, que é na odiada segunda-feira, que existe a maior probabilidade estatística de se sofrer um acidente cardiovascular.


A segunda-feira foi, durante décadas e décadas, o dia mais odiado da semana, contudo, surpreendentemente, nos últimos tempos, todas as sondagens nos indicam, que o dia mais odiado da semana deixou de ser a segunda-feira e passou a ser o domingo. Se quiserem saber mais, é uma questão de pesquisarem, pois artigos sobre o assunto não faltam.

Basta atentar nalgumas publicações recentemente surgidas no mundo anglo-saxónico, para percebermos que houve uma revolução silenciosa. Se não, como explicar o grande sucesso em países de língua inglesa de títulos, como por exemplo, “I Hate Sundays” ou “Does Anyone Hate Sundays” ou ainda “I Seriously Hate Sundays”.

 

Na internet há muitos indivíduos que abundantemente escrevem sobre o seu ódio ao domingo, sendo que, uma das principais razões que apresentam para tão intenso sentimento, relaciona-se com traumas sofridos na infância, nomeadamente, com o trauma causado por em pequenos serem obrigados a assistir à missa dominical.

Uma outra razão que também surge com recorrente insistência, é a de haver quem se recorde dos domingos da sua juventude. Ao domingo, os jovens queriam divertir-se e aproveitar ao máximo o dia. No entanto, eram assombrados pelo pesadelo de logo na segunda-feira terem de regressar à escola. Isso paralisava-os. Deixava-os impotentes para fazer fosse o que fosse, causando-lhes uma frustração imensa que se prolongou pela vida afora.

 

Há psicólogos que escrevem livros de auto-ajuda, para nos informar que o domingo, mais não é que um dia como um outro qualquer, propondo-nos que dele desfrutemos como se fosse um outro dia. O segredo para tal, é que nos mantenhamos ocupados e não deixemos que as idas ao centro comercial ou à igreja, bem como os fastidiosos almoços em família, o estraguem.

 

Sabemos que muitos dos nossos leitores terão ficados espantados por esta recente e admirável descoberta da psicologia, ou seja, a de que o domingo, mais não é que um dia como os outros. Não é que nós tenhamos tido aprofundados estudos de psicologia, mas por acaso, essa era coisa que já sabíamos. Tinham-nos dito em 1998, numa canção em que Morrissey cantava assim: "Everyday is like Sunday. Everyday is silent and grey".

Podíamos dar-vos a ver o vídeo oficial desse tema, filmado na triste e deprimida cidade balnear britânica de Bristol em finais da década de 80, todavia, escolhemos antes uma versão gravada ao vivo no ano de 2012, na muito mais caliente e excitante cidade costeira chilena de Viña Del Mar:


Há estatísticas avassaladoras, que nos dizem, que 76% dos norte-americanos e canadianos, sofrem regularmente acessos de tristeza inexplicáveis ao domingo, coisa que é tecnicamente designada como o síndrome de domingo, ou mais poeticamente, como "The Sunday Blues". 

Outros estudos realizados na rigorosa Alemanha e nos austeros países nórdicos, confirmam-nos que também aí, a segunda-feira foi substituída pelo domingo como o dia mais triste e odiado da semana. Mas esses estudos, trouxeram-nos mais uma novidade, a de que não é o sobrevalorizado sábado o dia mais feliz da semana, mas sim a sexta-feira.

Nós temos pena da até há pouco muito odiada segunda-feira. Lamentamos que tenha sido destronada do seu lugar no coração das gentes pelo domingo. Pensamos agora na segunda-feira, como um dia traído e abandonado e queremos dedicar-lhe uma canção que o console.

Uma canção em que também se fala de abandono e de traição. A determinado momento, diz-se assim “Éramos tres en una relación de dos” e dói pensar que também na fiel relação de ódio que há muito havia com a segunda-feira, apareceu agora um terceiro: o domingo.

Diz o triste traído e abandonado da canção, “Y aunque sé que un día te voy a olvidar, ando manejando por las calles que me besaste, oyendo las canciones que un día me dedicaste”. E sim, nós recordamo-nos também de quando à segunda-feira lhe dedicavam canções de ódio, como por exemplo o fez, o grupo irlandês Boomtown Rats com o tema “I don’t like mondays”.

Mas tudo isso já lá vai, agora à segunda-feira já ninguém lhe liga nenhuma. Derramemos uma melancólica lágrima por aquela que preencheu o nosso coração e a quem tanto outrora odiámos. Façamo-lo escutando os sons vindos da América Latina, "La Bachata":


Ah…e não se esqueçam, hoje muda a hora.

 

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