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Vamos à igreja. É tão sensual...

 


Começamos por confessar que não somos, nem nunca fomos, praticantes. Participámos em cerimónias religiosas por ocasião de baptizados, casamentos e funerais, mas não mais do que isso.

Como sucede com a maioria dos portugueses e europeus, a nossa matriz sócio-cultural é judaico-cristã, contudo, também o é grega e, sinceramente, sempre nos identificámos mais com a nossa herança helénica do que propriamente com a judaico-cristã.

 

Em certo sentido, sentimo-nos tentados a concordar com Friedrich Nietzsche (1844-1900), que terá sido um dos primeiros a afirmar que a doutrina cristã, mais não é do que uma simplificação “popular” das sofisticadas construções filosóficas de Platão sobre o Bem e sobre o Belo. Para Nietzsche, o cristianismo seria uma espécie de platonismo para as massas. É a sua opinião, há que respeitar o que Nietzsche disse.

 


Apesar de ser indiscutível que as concepções teológicas cristãs tiveram origem em Platão e na antiga Grécia, há algo que parece ter sido transposto para a cultura cristã de um modo radicalmente diferente relativamente à forma como existia na cultura helénica, a saber: a relação com o corpo e, por extensão, com as coisas sensíveis.

 

Os antigos gregos exaltavam o espírito, mas isso não impedia que simultaneamente celebrassem o corpo, as coisas sensíveis e os seus muitos prazeres. Por oposição, no cristianismo o corpo sempre foi visto como a fonte de tentações pecaminosas, pois a carne é fraca e desvia o espírito do recto caminho, ou seja, da via que o conduz à perfeição e à pureza etérea.

 

No cristianismo, o corpo sempre teve que ser domado, controlado, contido e, inclusivamente, castigado. No entanto, e de forma paradoxal, houve uma área em que as autoridades cristãs quase sempre permitiram, e até incentivaram, que os corpos, as coisas sensíveis e os seus prazeres fossem exaltados: a arte.

 

Poderíamos usar milhares de exemplos da história da arte cristã, em que, mesmo sendo o tema representado de cariz bíblico, o que não falta é sensualidade e, sobretudo, subliminares sugestões eróticas.

A título de exemplo, atente-se na representação abaixo da caridade, uma obra de 1612 de Peter Paul Rubens.

 

É inegável, que mesmo a célebre escultura do século XVI de Cristo realizada por Miguel Ângelo, deverá muito mais às sensuais exaltações helénicas do corpo, do que propriamente às espirituais concepções cristãs. É ver.


Se quisermos ser ainda mais óbvios, basta olhar para o rosto, e para como se contorce Santa de Teresa de Ávila na escultura de 1652 de Gian Lorenzo Bernini, para tudo perceber.


Em síntese, apesar da igreja cristã sempre ter visto o corpo como o local de todas as tentações e que urge abafar e esconder, o facto é que através da arte este está constantemente a ressurgir em todo o seu esplendor e sensualidade.

Ressurge nas pinturas do interior de escuras capelas, em pequenos nichos e nas esculturas que adornam as fachadas das igrejas, assim como os andores e altares.

Se olharmos para a história da arte, dir-se-ia que o cristianismo sempre teve um irresistível fascínio pelo corpo.

 

Mas não é só na pintura e na escultura que se manifestou o fascínio do cristianismo pelo corpo e pelas coisas sensíveis, é também na arquitetura.

Nesse contexto, em Lisboa há pelo menos duas igrejas às quais vale pena ir de excursão. Haverá outras mais, seja por Lisboa, pelo resto do país ou pelo mundo, mas nós queremos destacar estas duas, pelas suas peculiaridades arquitetónicas e sensoriais.

 

Uma delas é a Igreja de São Domingos, situada no largo com o mesmo nome, junto ao Rossio. A primeira pedra da igreja original foi lançada em 1241. Por consequência, a Igreja de São Domingos existe quase desde os primeiros alvores da nação. Ao longo dos séculos, a igreja foi destruída e reconstruída por diversas vezes. Foi vítima de grandes tumultos, de diversos terramotos e de incêndios.

Em 1959 sofreu um grave incêndio que destruiu quase por completo o seu interior. Só em 1994 é que teve obras de recuperação. Obras nas quais os arquitetos optaram por não esconder as marcas do fogo, e também por não reparar as visíveis rachas nas colunas de mármore, cuja causa foi o intenso calor provocado pelo incêndio.

A peculiaridade sensorial da atual Igreja de São Domingos, é essa mesmo, a de o seu interior apelar aos nossos sentidos para nos dar a ver o intenso calor do fogo. É essa a sua lição, a de que há fogos que nos consomem por dentro e cujas chamas nos queimam para sempre.

 


Uma outra igreja que vale pena visitar, é a do Sagrado Coração de Jesus. Igreja que se situa não muito longe da Avenida da Liberdade e foi inaugurada em 1970. Está classificada como monumento nacional.

Nesta igreja, o betão foi deixado à vista. O betão, que normalmente é tido como um material rude e agressivo, mostra-se nesta obra como delicado e sofisticado. As suas texturas rugosas aparentam desvanecer-se quando observadas no todo do edifico, transmitindo-nos uma sensação de leveza, gentileza e luminosidade.

E esta é a lição que esta igreja nos traz, a de que mesmo um material rude e agressivo pode ser pleno de sensualidade.

 


E pronto, é isto vamos lá então à igreja…









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