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Tudo depende do ponto de vista. Nada é a preto e branco



Os tempos são de extremos, ou preto ou branco, ou oito ou oitenta. Para onde quer que olhemos, seja para as redes sociais, para a política ou para as ruas, parecem ter desaparecido os moderados, os conciliadores e os que criam pontes.

 

Ainda há pouco eram muitos os que se esforçavam para que pontos de vista diferentes, e até opostos, encontrassem um ponto comum entre ambos. Subitamente, olhamos em nosso redor, e todos estão exaltados, intransigentes e irredutíveis. Obsessivamente convictos que o seu ponto de vista é o certo e não admitindo alternativas. Quase já ninguém quer saber do ponto de vista do outro, se este porventura não for idêntico ao seu. O que sucedeu para aqui chegarmos?

 

Se nos pusermos a adivinhar, diríamos que parecemos estar a perder a capacidade de ter uma visão profunda do mundo, das coisas e dos outros. Diríamos que cada vez mais nos limitamos a ter apenas um ponto de vista: o nosso.

Ter um só ponto de vista, é ver de forma obsessiva e superficial. Só se vê com profundidade o mundo, as coisas e os outros quando multiplicamos as perspetivas e os pontos de vista pelos quais olhamos.

Só nesse caso é que começamos verdadeiramente a compreender. Quando se permanece afincadamente e teimosamente num mesmo e único ponto de vista sem querer saber doutros, é como se vivêssemos caminhando sempre na mesma direção, em frente, sem olhar nem ver.

No sul de França, na Provença, há um trilho turístico no qual estão assinalados os vários pontos de vista a partir dos quais, um dos maiores pintores de sempre, Paul Cézanne (1839-1906), pintou a Montanha de Sainte-Victoire. Pintou-a dezenas e dezenas de vezes durante anos e anos.

Há um vento que desce das colinas nos campos em redor da bucólica cidade de Aix-en-Provence. Os locais chamam-no o Mistral. É um vento outonal que podemos sentir quando paramos e contemplamos a Montanha Sainte-Victoire nos exatos pontos de vista de onde Cézanne a pintou. São muitos os pontos onde nos podemos sentar, parar e olhar.

Nas tardes de domingo, há muito quem se dedique a seguir os passos de Cézanne passeando pelos campos e contemplando lá ao fundo a montanha. Tentam vê-la como Cézanne a viu.


À primeira vista, dir-se-ia que Cézanne tinha uma espécie de obsessão pela montanha, só que não, não é disso que se trata. Apesar da Montanha de Sainte-Victoire ter sido repetidamente retratada por Cézanne, este variava continuamente os pontos de vista a partir dos quais o fazia. Sinal de que, de obsessivo nada tinha, mas que de profundo tudo tinha.

A profundidade do olhar era aquilo que Cézanne buscava, ao de distintos pontos de vista olhar para a montanha para a ver, a pintar, a voltar a ver, a voltar a pintar e assim sucessivamente durante anos e anos. Queria compreendê-la, entender o que de profundo nela havia.

 

Quem quiser ver os muitos pontos de vistas da Montanha Sainte-Victoire pintadas por Cézanne, pode fazê-lo no link abaixo. A banda sonora é de Rachel Yamagata (Sunday Afternoon):




Num filme de culto de François Truffaut realizado em 1977 intitulado L'Homme qui aimait les femmes, o personagem principal, Bertrand, nunca viu numa única mulher tudo o que procurava ver. Talvez fosse essa a sua maior tristeza, por consequência, vagueava de mulher em mulher em busca da profunda visão pela qual ansiava.

Não é que Bertrand fosse um Casanova ou um Don Juan, não é disso que se trata. Logo nos primeiros momentos do filme, Bertrand confessa os seus propósitos: “A companhia das mulheres é-me indispensável. Se não a sua companhia, pelo menos, a sua visão. Pois nada há de mais belo para olhar do que uma mulher”.


Consequentemente, também neste caso, não estamos propriamente perante um olhar obsessivo. Como no caso de Paul Cézanne, estamos novamente na presença de alguém que quer ver de um modo profundo.

 

Na sua demanda pela profundidade, Bertrand não se limitava a observar os rostos ou as partes comummente mais apelativas dos corpos das mulheres. Procurava pontos de vista diferentes e inabituais. Focava-se principalmente nas pernas, como se estas dessem a ver uma harmonia mais vasta e profunda e que habitualmente se encontra oculta.

Diz-nos Bertrand que “As pernas das mulheres são compassos que circulam pelo globo terrestre em todos os sentidos, dando-lhe o seu equilíbrio e a sua harmonia.”

 

Para além de se focar nas pernas, Bertrand procurava aprofundar a sua visão sobre as mulheres, multiplicando também os pontos de vistas sobre os quais as observava. Era frequente que as contemplasse por trás. Segundo as suas próprias palavras ”Algumas são tão belas vistas por trás que hesito em ultrapassá-las, temendo ficar decepcionado. Porém, nunca me desaponto. Quando elas não me agradam de frente, sinto-me de certa forma aliviado, pois, infelizmente, não as posso ter a todas.”


Aqui vos deixamos o excerto inicial de L'Homme qui aimait les femmes na bela elegante língua francesa.

 


Nós não gostaríamos que os nossos alunos crescessem e tivessem um ponto de vista único sobre o mundo, as pessoas e as coisas. Gostaríamos antes que estes multiplicassem e diversificassem os seus pontos vistas. Que olhassem para dentro, para fora, para cima, para baixo, para sul, para norte, para este e oeste, e assim aprendessem a ver de um modo profundo.

 

Por essa razão, preparámos uma visita de estudo ao MAAT na qual tentámos que multiplicassem e diversificassem os seus pontos vista. Tentámos que o fizessem olhando para o próprio edifício do museu em si, mas também através da exposição que nessa ocasião foram visitar, “Plástico: Reconstruir o Nosso Mundo”.

 

Na dita exposição, o uso do plástico não é apresentado como sendo simplesmente mau e prejudicial para o ambiente. Também não é apresentado como sendo simplesmente prático, barato e de fácil utilização. A exposição multiplica e diversifica os pontos de vista sobre o plástico, não se resumindo a apresentar posições extremadas, a preto e branco. É esse o seu profundo interesse.

 Aqui vos deixamos um guião de aprendizagem de preparação para essa visita:

https://drive.google.com/file/d/178ICZYm4FzT9byVutvV-r5d1gukuaW7t/view?usp=sharing 

Ficha de exploração

https://drive.google.com/file/d/1AN6sKZyQrjaGpWV6L9X-oggZy-_ycZ9D/view?usp=sharing

 





 

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