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Ai, Portugal, dar-te conselhos é bem pouco original

 


"A neurociência deve ir para a sala de aula" é uma afirmação de Stanislas Dehaene. Não temos a menor ideia, se quem nos lê faz ideia de quem é Stanislas Dehaene. Nós, até ao dia de hoje, não tínhamos a mais pequena ideia de quem fosse Stanislas Dehaene. Não porque sejamos pessoas desinformadas, mas a verdade é que nunca nos tínhamos cruzado com esse nome, nem num noticiário, nem numa revista, nem num jornal, nem em sítio nenhum.


Nunca há notícias boas sobre educação na comunicação social portuguesa. Não é coisa de agora, é coisa de sempre. Entre outras, essa é uma das principais razões pelas quais nós temos o hábito dar uma vista de olhos pelos jornais estrangeiros. Não é que os jornais portugueses não sejam bons… estamos a brincar, tirando umas quantas excepções, os jornais portugueses não prestam absolutamente para nada. Não apenas por nunca terem boas notícias sobre educação (porque as há), mas também porque são mesmo maus.

Provavelmente quem os faz, aos jornais, claro está, serão honestos cidadãos, amigos do seu amigo e gente amada pelas suas respetivas famílias, por aí tudo bem. O problema é que escrevem mal, as informações que dão não são rigorosas e, sobretudo, os assuntos sobre os quais se debruçam pouco ou nada nos interessam. Nem a nós, nem a quase ninguém.

 

Não cremos que interesse a muita gente ler o enésimo artigo sobre os graves problemas da TAP e do novo aeroporto que um dia será ou não construído, ou ler que numa qualquer localidade um desgraçado se enfrascou na tasca, chegou a casa deu pancada na coitada da mulher e teve de vir a GNR, ou ler que as horas de espera nas urgências hospitalares dão para ir dormir a casa e voltar e ainda esperar, ou ainda, ler que, o clube de futebol tal vai vender o jogador tal por cinquenta e tal milhões de euros, isto mais coisa menos coisa. Tudo isso são notícias mais que requentadas e, em boa verdade, já cheiram um bocado mal.

 

Dizíamos nós, que temos o hábito de dar uma vista de olhos pelos jornais estrangeiros e, por vezes, descobrimos artigos sobre educação que, ao contrário do que cá se passa, não se limitam a desfiar os queixumes habituais, ou seja, que tudo está mal, que caminhamos para o abismo e que etc e tal.

 

O artigo que hoje descobrimos, fala-nos de Stanislas Dehaene, um neurocientista e professor no prestigiado Collège de France em Paris. Atualmente, exerce funções como presidente do Conselho Científico para a educação. Um conselho que foi criado pelo governo francês para ajudar a redesenhar todo o sistema educativo, apoiando-se para isso nas mais recentes descobertas científicas no âmbito da neurociência.

 

Não sei se repararam na diferença, enquanto em Portugal se gastam páginas e páginas de jornais e horas na TV a dizer o que está mal, em França procuram-se soluções baseadas nas mais sofisticados pesquisas científicas. Pesquisas essas cujos resultados aparecem nos jornais e nas TV’s.

Em Portugal perde-se uma enormidade de tempo a falar-se de facilitismo, de experimentalismos e de outras parvoíces do género. Enquanto isto, em França, o debate público centra-se em pesquisas científicas e soluções inovadoras.

 

Em França há um sindicato de professores, o Snuipp, que a propósito destes estudos, lançou um apelo: “As pesquisas científicas não devem ser instrumentalizadas em debates mediáticos que são frequentemente redutores”

 

O “Le Monde” é o jornal com maior tiragem de França, vende meio milhão de exemplares por dia, isto sem contar com a edição digital. É precisamente ao “Le Monde”, que vamos buscar uma entrevista de Stanislas Dehaene em que este afirma o seu credo: “enseigner est une science”. Fica o link:

https://www.lemonde.fr/idees/article/2013/12/20/enseigner-est-une-science_4338294_3232.html

 

Ensinar é uma ciência, ou seja, não é algo em que alguém tenha uma opinião, outro alguém tenha a opinião contrária e assim sucessivamente. Significa isto, que há modos certos de ensinar e outros errados.

No entanto, se por exemplo formos ler a edição francesa de uma publicação global, “The Coversation”, verificaremos que há quem afirme exatamente o oposto: “Enseigner n’est pas une science, c’est une culture d’action éducative”. Fica o link:

https://theconversation.com/enseigner-nest-pas-une-science-cest-une-culture-daction-educative-90396

 

Seja ensinar uma ciência ou uma cultura de ação educativa, o certo é que esse debate se situa a um nível muito além ao que se passa por cá.

Fica uma canção:

 



 


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