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Há muitos professores desesperados que se queixam da vida e só querem que a reforma chegue o mais rapidamente possível. Sonham passar tranquilos invernos junto à lareira, bem agasalhados, acompanhados por uma bebida aconchegante, a ler um livro. Sonham também passar plácidos verões à beira-mar, com os pés na areia quente, à sombra, a ler um livro. Sonham ainda em passar primaveras e outonos com roupa de meia-estação, com uma manta por perto, não vá dar-se o caso de subitamente arrefecer, sentados numa cadeira de baloiço num alpendre, a ler um livro. Em síntese, sonham que ninguém mais os chateie e desespere e os deixem em paz e sossego a ler um livro.

Já outros professores também estão desesperados. mas não pensam em ler, querem antes viver. Desejam ir-se embora, largar a profissão, mas para ir em busca de uma vida mais interessante e intensa. Sonham com novas e excitantes aventuras.

 

É para uns e para outros, que agora falamos de um respeitável professor, com um lugar de nomeação definitiva, com bastantes anos de serviço e colocado num dos escalões de topo da carreira docente. Um professor que perde a cabeça e se apaixona por uma atriz de cabaret, abandonando a sua profissão para mergulhar numa vida de sensualidade e luxúria que o conduzirá à ruína.

Resumidamente, é esta a história de “O Anjo Azul” (1930), um filme que transformou Marlene Dietrich numa das maiores e mais fascinantes estrelas de toda a história do cinema.

Marlene Dietrich: um nome que começa por acariciar (Marlene), para logo chicotear (Dietrich). Dizia-se que os seus beijos eram mais doces que o vinho, só que nunca ninguém os pôde apreciar durante longo tempo. Quando questionada a esse propósito numa entrevista, respondeu: “Husband? I never found a man good enough for that.”, Marlene sonhava com um ser que não existia.

 

Na base do filme “O Anjo Azul” está o livro “Professor Unrat” de Heinrich Mann. Há uma excelente tradução em português, é uma leitura que decididamente aconselhamos para os tempos de reforma.

 

Em boa verdade, Lola, o personagem interpretado por Marlene Dietrich, não era propriamente azul, e muito menos um anjo, era mais do tipo “femme-fatale”. Dadas as circunstâncias, a paixão repentina de um homem que representava o rigor, a exigência e a seriedade da classe docente, só poderia dar mau resultado.

O professor casa-se com Lola, mas como já se esperava, as núpcias não garantiram a felicidade. O casamento mais não foi que uma sucessão de humilhações, de traições e de discussões. O filme termina com uma cena noturna dele voltando à sua antiga sala de aula. Olha-a melancolicamente, pois sabe que jamais poderá voltar a ser professor.



Há quem diga que a felicidade surge quando encontramos um anjo. Os anjos habitam nas cidades, nos arredores e nos campos. Habitam por todo lado, porque por todo o lado há céu, esse imenso azul donde eles vêm.

Há quem diga que o mais e o melhor a que podemos aspirar na vida, consiste precisamente em irmos na direção desse imenso azul, ou seja, que uma vez tendo encontrado o nosso anjo, vivamos a vida alegremente como se estivéssemos no céu, andando felizes com a cabeça nas nuvens.

Claro que não foi nada disso que sucedeu em “O Anjo Azul”, foi o seu exato contrário. O professor não andava com a cabeça nas nuvens, perdeu sim a cabeça. Não encontrou um verdadeiro anjo e sim um demónio disfarçado de anjo. Mas dessa triste história já nós falámos, queremos agora falar-vos de histórias mais felizes.

 

Só os que são por essência otimistas, acreditam em anjos. É preciso uma imensa dose de otimismo para crer ser possível que existam seres com asas nas costas. É necessário um otimismo ainda maior, para acreditar que há seres cujos pés estão assentes na terra, mas apenas para que possam tomar impulso para voarem.

Como é evidente, não vos falamos de anjinhos, daqueles típicos das decorações natalícias, falamos-vos sim de anjos mais crescidos. Falamos-vos de anjos adultos, de homens e mulheres otimistas e felizes, cujas asas nem sempre se veem, mas que adivinhamos estarem nas suas costas. Adivinhamos porque pressentimos que podem voar no imenso céu azul e andam quase sempre com a cabeça nas nuvens.

 

“As Asas do Desejo” é um filme de Wim Wenders. Numa gélida Berlim, ainda separada pelo muro, há anjos que do céu observam aqueles que na cidade desesperam. Assistem às suas desventuras terrenas, mas nada podem fazer.

No entanto, cá em baixo, na cidade, há outros anjos que antes fizeram a transição do muro que separava os dois mundos, o terrestre e o celeste. Vindos das nuvens e do imenso céu azul, decidiram viver entre os humanos.


O filme conta-nos a história do anjo Damiel e da sua paixão por uma trapezista. No trapézio ela parece que voa. Para lhe poder falar e tocar, também Damiel, como outros anjos antes dele, decide fazer a transição do muro que separava os dois mundos e viver entre os humanos.

 

Pouco tempo depois da estreia de “As Asas do Desejo”, o muro de Berlim caiu. O filme foi uma premonição dessa queda. O que parecia ser completamente impossível, aconteceu. O que pareciam ser ideias demasiadamente otimistas de gente que andava com a cabeça nas nuvens, sucedeu.

O desespero desapareceu e a alegria tomou conta da cidade. Se os anjos vindos do céu tiveram algo a ver com o assunto, é coisa que não se sabe, mas que se consegue adivinhar.

 

É muito difícil que vejamos anjos, todavia, há espelhos que permitem que os vislumbremos, esses espelhos são as obras de arte. Em Pádua, em Itália, há uma capela na qual Giotto (1267-1337) pintou anjos envoltos num profundo azul celeste. Nenhuma imagem consegue restituir-nos a plenitude dessa visão, ainda assim, aqui fica uma:



Ou melhor, ficam antes duas imagens, para que possam vislumbrar alguns dos anjos com maior detalhe:



Quotidianamente tudo queremos ver com os pés bem assentes na terra, como se pessoas e objetos não pudessem ser diferentes de como vulgarmente os vemos. Por exemplo, há quem diga que um muro é um muro e desdenhe de quem ande com a cabeça nas nuvens a dizer o contrário. Mas não raras vezes, são precisamente esses para quem um muro não é um muro, que fazem com que as coisas voem pelos ares. Aconteceu em Berlim, num momento estava lá um muro, no momento seguinte tinha desaparecido.

 

O que a arte nos permite, é que tudo possa ser vislumbrado, para tal basta saber olhar. Quando alguém visita um museu ou uma galeria de arte e pela primeira vez se depara com um quadro monocromático, a primeira reação talvez seja de estranheza. Contudo, se olhar com tempo e atenção, e se ao invés de assentar com força os pés na terra tomar balanço e voar, vai certamente conseguir vislumbrar tudo o que lá não está.

 

Em meados do passado século XX, Yves Klein pintou telas num profundo azul que evocam as paisagens celestes de Giotto, basta olharmos para vermos anjos e nuvens.



Quisemos fazer com que os nossos alunos sentissem como é bom andar com a cabeça nas nuvens, voar com os anjos e arriscar mergulhar num profundo azul...

Guião de aprendizagem "Andar com a cabeça nas nuvens"

https://drive.google.com/file/d/1JEAwrlbnc9UZj27-F_oUsv9Pr4BXQ1ao/view?usp=sharing

Ficha de exploração "Andar com a cabeça nas nuvens"

https://drive.google.com/file/d/1Tw_36y0npP3wNin8CHShAxxT_VYZpI_h/view?usp=sharing

 

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