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A fada do lar ou a educação das mulheres

 

Não há como não ler os sinais, os dois filmes que atualmente são mais propagandeados por todo o mundo são “Oppenheimer” de Christopher Nolan e “Barbie” de Greta Gerwig. É só ir ler os jornais para se perceber a enorme quantidade de salas de cinema ocupadas com estas duas películas.

Só em Portugal, e ainda antes de o filme estrear, já se tinham vendido mais de 47500 entradas para “Barbie”, o recorde de sempre em pré-vendas. "Oppenheimer" tem também números de espectadores bastante elevados, sendo que, desde a pandemia que as salas de cinema não atraiam tais multidões.

https://mag.sapo.pt/cinema/atualidade-cinema/artigos/barbie-e-oppenheimer-enchem-cinemas-os-numeros-da-febre-barbenheimer-em-portugal

 

Uma coisa é certa, a nós não nos apanham lá. Gostamos muito de cinema, mas não gostamos nada de nos misturar com multidões e muito menos gostamos de ver super-produções de Hollywood. As nossas regras são muito simples, se o filme é um “blockbuster”, ou seja, se a sua produção custou uma mão-cheia de milhões de dólares, nós não o vemos. Se passa numa sala de centro comercial, também não.

 

Uma vez que jamais assistiremos a estes dois filmes, vamos então falar deles. Se querem saber, nem sequer o trailer vimos, nem lemos qualquer crítica ou resumo, tudo isto de modo a que pudéssemos ter uma opinião perfeitamente sólida e fundamentada sobre “Oppenheimer” e “Barbie”.

Dizíamos no início deste texto, que não há como não ler os sinais, é certo que até ao momento ninguém nos questionou sobre quais sinais seriam esses, mas mesmo assim sendo, nós vamos dizê-lo.


Os dois filmes foram produzidos pelo mesmo estúdio, a Warner Brothers. Consequentemente, a estreia simultânea de ambos não foi casual, mas sim resultado de uma estratégia comercial. Apostamos que ainda nenhum de vós tinha pensado nisso, certo?

Mas há mais, a boneca Barbie foi criada em 1959 e Julius Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, atingiu o auge da sua fama precisamente durante a década de 50. Em síntese, Oppenheimer e Barbie são ambos representantes de uma mesma época. É claro que a Barbie continuou a vender-se para lá da década de 50 e até aos dias de hoje e a bomba atómica continua atual, contudo, o que os dois representam relaciona-se com a década de 50.

 

Tudo parece opor Oppenheimer a Barbie, pois ele era um conceituado cientista e ela uma frívola boneca, todavia, são a cara e a coroa de uma mesma moeda. A motivação de Oppenheimer para as suas investigações, era descobrir uma forma de energia limpa e inesgotável, contudo, à época o mundo estava em guerra, e as suas pesquisas acabaram por ser usadas para criar a bomba atómica, facto pelo qual Oppenheimer se culparia a si mesmo durante o resto da sua vida.

 


A invenção da bomba atómica e da energia nuclear fez com que os Estados Unidos da América se consolidassem como a primeira potência económica e militar do mundo. A década de 50 foi a mais próspera que alguma vez a América conheceu. The Fifties foram a chamada “Golden Era” do capitalismo norte-americano.

 

Na década de 50, foram milhões os homens que regressaram a casa após terem andado anos a combater, a Segunda Guerra Mundial tinha acabado de terminar. Assim sendo, os milhões de mulheres norte-americanas, que por falta de mão-de-obra durante a guerra trabalharam fora de casa, foram “incentivadas” a regressar ao lar.

E assim foi, os homem reocuparam as suas posições no mercado de trabalho, as mulheres voltaram ao lar, tendo havido todo um esforço nacional para aí as conservar.

 

Chegou a ser de 74% do total de alunos, a percentagem de mulheres que frequentavam as universidades. Mas em 1958, essa mesma percentagem já tinha descido para 35%. Em meados da década de 50, 60% das mulheres a frequentar as universidades norte-americanas, abandonaram-nas para se casarem ou por receio que o excesso de habilitações académicas pudesse ser um obstáculo para tal.

 

Nesses anos, a taxa de natalidade dos EUA esteve quase a superar a da Índia, foi a época do chamado “baby-boom”. Tudo isto está muito estudado e documentado, quem o quiser confirmar, é só ir pesquisar.

 

A dona de casa dos anos 50 tinha tudo, mas mesmo tudo, o que uma mulher podia desejar: um fogão moderno, um belo frigorífico, elegantes aventais e um homem que, não tendo de fazer serão, chegava as horas para jantar. 

Se pretenderem apreciar fotos vintage desse tempo, poderão fazê-lo em

https://clickamericana.com/topics/home-garden/how-to-be-a-perfect-fifties-housewife-in-the-kitchen

 


Os norte-americanas tinham tanto orgulho nas cozinhas e nas suas donas de casa, que durante a histórica ida do Presidente da URSS Nikita Krushchev aos EUA, foi precisamente numa cozinha totalmente equipada com todas as comodidades, que se deu o ponto alto dessa vista.

 


Ora bem, é neste contexto que surge a boneca Barbie, que imediatamente se torna um estrondoso sucesso, tendo vendido 350.000 exemplares logo no seu primeiro ano.

As feministas odiaram-na desde o primeiro momento, situação que se mantém até aos dias de hoje. Porém, equivocaram-se, pois a Barbie foi a primeira boneca norte-americana que não propunha às meninas que brincassem a ser mães de um bebé, propunha-lhes antes como brinquedo uma mulher adulta na qual podiam projetar as suas fantasias.

 

Ruth Handler, a criadora da boneca, entrevistada a esse propósito, afirmou que a ideia subjacente à Barbie , era que as meninas percebessem que poderiam ser tudo aquilo que quisessem ser. Disse mais, explicou que na década de 50, a sociedade confinava as mulheres ao lar, tendo sido a Barbie a trazer-lhe uma mensagem nova , a de que poderiam ser outra coisa se assim o desejassem.

 

Betty Friedman foi uma importante autora que escreveu um livro intitulado “The Problem That Has No Name”. Nessa obra, escreveu sobre o profundo mal-estar e a inexplicável angústia que acometia muitas dessas fadas do lar da década de 50, que aparentemente tinham tudo, menos ter qualquer outro papel, que não fosse o de doméstica.

 


E pronto, vamos terminar com uma sugestão cinéfila. claro que não aconselhamos nem a Barbie nem o Oppenheimer, mas sim um clássico de 1957 realizado por Douglas Sirk, “Tudo o que céu permite”.

Trata-se de uma história de amor entre uma viúva e o seu jardineiro. Sendo ele mais novo e de uma classe social inferior, ninguém aceita que a senhora tenha tal relacionamento, nem a vizinhança, nem os amigos, nem os filhos.

Contrariados por todos, acabam por se afastar um do outro. No fim, os filhos oferecem à mãe um aparelho de TV, outra das comodidades surgidas na década de 50. Agora sim, ela já tem algo com que se entreter e pode estar sossegada em casa contente e feliz.

 

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