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Éramos felizes e não o sabíamos: acerca de La Habana e do amor docente

 

 


O que terá por estes dias uma escola do 1° ciclo a ver com a velha cidade de Havana, ou La Habana, como lhe chamam os cubanos? Aparentemente nada, na realidade tudo.

 

Só havia uma cidade e a cidade era Havana. É provável que esta frase conste no afamado romance “Três Tristes Tigres”, escrito pelo maior dos escritores cubanos, Guilhermo Cabrera Infante.

Não temos a certeza que sim, que conste do livro, mas nem fomos, nem iremos, verificar se assim o é. Partamos do princípio que sim, que a frase efetivamente consta do livro e que na realidade só havia uma cidade e a cidade era Havana.

 

E o que tinha a cidade de Havana, que outras não tinham? Tinha bares decrépitos onde pela noite afora, madrugada adentro, se ouviam boleros. Boleros onde mais não havia do que uma melodia e uma voz triste acompanhada por guitarras.

La Habana era ao tempo uma espécie de jardim zoológico onde podíamos ir visitar as mais diversas espécies de amores, de melancolias e de nostalgias completamente à solta. As jaulas abriam ao público desde as zero a.m. até às zero p.m.

 

Há muitas formas de amor, isso toda a gente o sabe. Também toda a gente sabe, que por mais que os anos passem, será sempre o amor romântico o mais cantado, ou seja, “A kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh, as time goes by.”

Há também muitas formas de melancolia e de nostalgia: umas tristes, outras meigas e muitas mais em múltiplos e variados tons de agridoce. As mais reconhecidas melancolias e nostalgias, são também as de origem romântica. Rick despede-se para sempre de Ilse com uma das mais melancólicas e nostálgicas frases de que há memória: “We’ll always have Paris”.

 


Rick e Ilse estão em Casablanca, mas a Casablanca desse tempo era semelhante a La Habana de sempre: uma certa decadência, um pouco de glamour, calor e corpos suados, bares e melodias, amores, melancolias e nostalgias e gente que se despede para sempre e cujo futuro é incerto.

 

Mas Rick diz também: “Where I'm going you can't follow. What I've got to do, you can't be any part of”. Frases que poderiam muito bem ser proferidas por uma professora do 1° ciclo aos seus alunos na última sexta-feira, uma vez findos os quatro anos em que diariamente estiveram juntos.

Os alunos seguem para o 2° ciclo, a professora recebe uma nova turma e daqui para frente, mesmo que guardem as memórias de “Paris” para sempre, os caminhos separam-se e o futuro será o que será.

 

Em muitas escolas do 1° ciclo deste país, a última sexta-feira foi um dia de despedidas. É coisa que não dá nas televisões, nem se lê nos jornais, mas o facto é que passando quatro anos juntos, faz com que nasça uma espécie de amor entre docentes e alunos e a separação tem qualquer coisa de agridoce, de melancólico e de nostálgico.

 

Como é evidente, não falamos de um amor romântico, tipo o de Rick e Ilse. Mas dito isso, esse amor entre docentes e alunos, desperta sentimentos muito afins aos que se cantam em certos boleros e foi precisamente por isso, que nos veio à ideia a velha cidade de Havana.

 

Estando tantos anos juntos, é inevitável que as almas de alunos e docentes se vão acercando. Daqui para o futuro, muitos anos mais irão passar, mas o sabor destes quatro que agora findaram, certamente que ninguém o negará e permanecerá nuns e noutros como uma presença que não se ausenta.

É tal e qual como naquele bolero, “Sabor a mí”, que há muito tempo Los Panchos, que por acaso eram mexicanos, tocaram numa antiga taberna de La Habana:

 



Temos muitas vezes a sensação de que para muitos alunos, esse primeiro amor foi também o último. Jamais voltarão a amar um docente. É certo que alguns sim, irão encontrar um docente de português que lhes despertará uma intensa paixão pela literatura, ou alguém de ciências que os fará querer fazer experiências ou ainda um outro alguém de história que os deixará apaixonados pela memória. Sendo isso certo para alguns, estamos em crer que para uma outra parte não o será.

 

Não temos efetiva certeza do que dizemos, mas parece-nos que para uma parte significativa dos alunos, uma vez terminado o 1° ciclo, é como se definitivamente se fechasse a porta pela qual deixavam entrar o amor à escola e aos professores. A partir desse momento, para muitos, só há médias e exames ou pior ainda, sonhos perdidos, ilusões para sempre abandonadas e portas fechadas.

 

Mais uma vez, reconhecemos aqui também afinidades com boleros cantados em La Habana à beira do mar do Caribe. Mais uma vez, são mexicanos quem canta, Los Tres Ases, “La Puerta”:

 


Muitos são aqueles, que já em idade avançada ou mesmo muito avançada, ainda falam da sua “professora primária” como se essa fosse quem tudo lhes ensinou e nada mais tivessem aprendido que valesse realmente a pena pelo resto da vida fora.

 

Entre as figuras públicas, como por exemplo políticos, atores, futebolistas ou meras celebridades de diversas idades, não raras vezes há referências à sua “professora primária” como tendo sido uma das pessoas mais marcantes das suas vidas.

 

É por exemplo do conhecimento público, que a D. Alice acompanhou o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa desde a primeira à quarta classe. Já agora, ficam também a saber que Marcelo Rebelo de Sousa repetiu a quarta classe porque não fazia os nove anos até ao fim de setembro desse ano. É certo que não chumbou, mas também é certo que repetiu o ano e isso ninguém esquece.

 

No romance “Três tristes tigres” há um personagem feminino chamado Estrella Rodríguez. Ela cantava boleros. Dispensava a orquestra. Era um edifício cantante que atuava em cabarés de segunda por toda a Havana. Em determinado momento da narrativa diz assim: “Soy una mujer que canta para mitigar las penas de las horas vividas y perdidas". Mas diz também o seguinte: “… a única coisa a que tenho um ódio mortal é ao esquecimento”.

E pronto, terminamos aqui. Despedimo-nos não para sempre, mas tão-somente por agora.

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