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Muito riso, pouco siso


Faleceu há uns dias um dos maiores romancistas do nosso tempo: Milan Kundera. É provável que o seu mais conhecido romance seja “A Insustentável Leveza do Ser”, contudo, livros como “A Brincadeira”, “O Livro dos Amores Risíveis”, “A Ignorância” ou “A Festa da Insignificância”, são igualmente obras maiores, que continuarão a ser lidas durante séculos por todos aqueles que quiserem compreender a nossa época e civilização.

 

Em muitos dos seus escritos, Kundera fala-nos da atual decadência da civilização europeia. A Europa foi o berço de nascimento do pensamento crítico e da liberdade. Terão sido precisamente esses os dois principais pilares sobre os quais assentou toda a sua rica cultura artística, musical, literária, política, económica e científica.

 

Ao longo da história da Europa, a própria vida de cada indivíduo, até do mais humilde dos humildes, pautou-se por essa cultura baseada na liberdade e no pensamento. Mesmo nos momentos históricos em que se instalaram tiranias, nunca a liberdade e o pensamento deixaram de estar presentes, mais que não fosse como ideais, ou seja, como faróis que iluminavam o caminho a seguir.

 

Desde a sua origem na Grécia antiga, passando pelos esplendores do Renascimento, pelos Descobrimentos, pelas inúmeras revoluções, a francesa e outras, pelas grandes descobertas científicas e pelas intermináveis discussões nos cafés de Viena, Paris ou Berlim, a essência da Europa sempre foi a de usar a liberdade para pensar, discutir, falar, trocar ideias e também para rir.

 

Como um dia escreveu o reputadíssimo professor de Harvard e Cambridge, George Steiner, num dos seus estudos: “A Europa é feita de cafés. Estes vão desde do café preferido de Pessoa em Lisboa, aos cafés de Odessa, frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa dos cafés e obter­-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa”


A essência da Europa é a de que tudo seja pensado sobre os mais diversos ângulos e perspetivas, e de que nada seja definitivamente dado como certo. O mesmo é dizer, a Europa sempre debateu intensamente todas as certezas e verdades, para continuamente as reinventar e também assim se reinventar.

 

Para Kundera, a decadência da civilização europeia é uma consequência da “gigantesca estupidez educativa”, que consistiu na disseminação da ideia de que há certezas e verdades definitivas, ou seja, na negação da própria essência da Europa.

Há muito quem creia com muito siso e seriedade que há verdades indiscutíveis.

 

Essa “gigantesca estupidez educativa”, revelou-se a diferentes níveis. Revelou-se a uma escala tremenda e sumamente trágica, quando em regimes totalitários como o nazismo ou o estalinismo, autênticas barbaridades foram impostas a toda uma sociedade como sendo verdades absolutas.

 

Verdades que eram ensinadas nas escolas, propagandeadas nas rádios e difundidas em livros, filmes e jornais. Para que essas verdades indiscutíveis nunca fossem postas em causa por ninguém, criaram-se polícias brutais, como a Gestapo ou o KGB, que prendiam, exilavam, torturavam e eliminavam quem quer que se atrevesse a contestá-las.

 

Mas essa “gigantesca estupidez educativa”, revelou-se também em coisas menores. Menores quando comparadas com as coisas tremendas de que acima falámos, entenda-se. Pois quando tomadas por si mesmo, de menores nada têm. Pense-se por exemplo nos sistemas educativos que se limitam a transmitir conhecimentos sem os problematizar, sem os abordar em diversas perspetivas, sem com nada os relacionar e sem os discutir, pense-se nisso.

 

Os sistemas educativas que assim fazem, alardeiam rigor e exigência, não estão para brincadeiras, é tudo gente séria e por consequência sisuda.

 

Qualquer ramo do conhecimento, seja este artístico, literário, histórico, científico ou um outro, funciona como um corpo. Os norte-americanos até criaram uma sigla para isso: BoK (Body of Knowledge). E, tal como um corpo, o conhecimento movimenta-se, transforma-se, dança, ri e relaciona-se com outros conhecimentos.

Em resumo, o conhecimento não é uma matéria morta, mas sim um organismo vivo.

Transmitir conhecimentos dando-os como se estes fossem “a matéria”, é não atender à vida que os move, e essa é uma das causas da decadência da civilização europeia.


Não há verdades definitivas nem na arte, nem na literatura, nem na política e nem sequer na ciência. Só para dar um exemplo com o seu quê de cómico, Plutão ainda há uns pouco anos era um planeta.

 

Onde antes na Europa havia pensamento, debates, discussões, inovações e liberdade, há agora verdades e certezas. Há certos e errados por todo o lado, logo desde os bancos da escola, onde muitos são “educados” para tão-somente darem a resposta certa às questões que lhes são colocadas em testes e exames, até às redes sociais, onde muitos mais escrevem coisas perfeitamente absurdas ou banais, que sisudamente são tomadas por outros tantos como sendo verdades absolutas.

 

Para Milan Kundera, a Europa é um continente metafísico e o romance uma das suas supremas invenções, através do qual ela exprimiu o primado de um espírito crítico capaz do riso e das mais profundas reflexões.

 

Não há nada de menos conforme à essência da civilização europeia, do que o tribunal do conformismo geral. Um tribunal que com muito siso constantemente decreta sentenças que afirmam que as coisas são o que são e que sempre assim foram, que há certos e errados e verdades absolutas.

 

Um tribunal que quer obrigar-nos a aceitar que nada há a fazer, se não viver como sempre se viveu e fazendo o que sempre se fez. Contra esse tribunal do conformismo geral, Milan Kundera propõe que recuperemos a essência do espírito europeu: a liberdade de pensamento, a liberdade das palavras e das atitudes.

 

São liberdades que fundam e se manifestam nas artes, nas ciências, na política e na educação, mas manifestam-se também no riso, na liberdade para ironizar e com tudo brincar. Com efeito, o humor é uma outra das grandes invenções nascidas no seio da civilização europeia.

 

Contra as forças, sejam elas quais forem, que nos querem roubar a liberdade e a capacidade de pensar, nada melhor que uma boa graçola e a consequente gargalhada.

 

Para Kundera, os lugares onde não havia humor e a ironia era mal vista, pareciam-lhe não só indesejáveis, como também perigosos. Uma das piores coisas que alguém pode ser é “agelasta”, cujo significado é “o que não sabe rir”.

 

Agelastas são os que não sabem rir, aqueles que estão convencidos de que a verdade é certa, de que todos os seres humanos devem pensar o mesmo e de que eles próprios são exatamente o que creem dever ser. Os sisudos nunca duvidam de si e das suas certezas.

Contudo, é precisamente quando se perdem as certezas e não há unanimidade sobre a verdade, que se dão as grandes coisas: nascem enormes obras de arte, escrevem-se brilhantes livros, descobrem-se factos que se desconheciam e inventam-se civilizações.

 

Na antiga Atenas de há dois milénios e meio, soprou uma brisa de liberdade e alguém decidiu começar a pensar, a questionar-se, a duvidar, a pôr em causa certezas e a fazer perguntas. O seu nome era Sócrates. Só sei que nada sei, disse então.

Desse momento inaugural nasceram as artes, a filosofia, a história, a matemática e todas as ciências e uma coisa inteira civilização, a europeia. Exatamente no mesmo momento e no mesmo lugar, Aristófanes começou a escrever comédias. Numa delas gozava à grande com Sócrates e com as suas pretensões a ser o grande educador da juventude ateniense.

Como muito bem viu Kundera, a essência da civilização europeia nasce da reflexão, de piadolas, de ideias perigosas, de provocações intelectuais, de conversas de café e de se saber o quão sério tudo isso é. Essa consciência, bem expressa nos seus divertidos romances, é a herança que nos deixa.


 

 

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