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O óbvio ululante

 



Num belo dia de 1969 o já então consagrado artista alemão Georg Baselitz teve uma ideia nada óbvia: pendurar os seus quadros de pernas para ar. Abriu-se-lhe todo um novo mundo pictórico à sua frente. Viu o que nunca tinha visto. A visão que teve perdura até aos dias de hoje.

 

Há coisas que nos parecem óbvias até alguém as estudar e se verificar que de óbvio afinal pouco ou nada têm. Parece-nos absolutamente óbvio que se um aluno do 1° ciclo não tiver bem consolidadas as suas aprendizagens, essas lacunas o vão de algum modo condicionar e limitar nos ciclos escolares seguintes.


Parece-nos óbvio que saindo um aluno “muito bem preparado” e com sólidas bases do 1° ciclo, estará sempre em vantagem nos ciclos de escolaridade subsequentes, relativamente a um outro aluno que termine o 1° ciclo com défices nas suas aprendizagens.

Parece-nos igualmente óbvio, que existe um efeito cumulativo, pois por um lado, os alunos melhores preparados vão ter mais facilidade em fazer novas aprendizagens, por outro, os menos preparados vão ter maiores dificuldades em adquirir novos conhecimentos. Consequentemente, a distância entre ambos tenderá a ir continuamente aumentando ano após ano, ciclo após ciclo, ao longo de todo o seu percurso escolar.

 

Os teóricos e especialistas chamam a esta obviedade o Efeito São Mateus, que em língua inglesa é conhecido por Matthew Effect. A aplicação deste conceito não se restringe ao universo escolar. O chamado Efeito São Mateus explica também, por exemplo, a razão pela qual a distância entre ricos e pobres aumenta progressivamente. Quem tem à partida muito dinheiro, consegue investi-lo e ir acumulando ainda mais, já quem tem pouco ou nenhum, limita-se a ir-se governando conforme pode.

 


O chamado Efeito São Mateus tem origem numa passagem bíblica. Em Mateus 25:29 pode ler-se o seguinte: “Porque todo aquele que tem, mais lhe será dado e terá em abundância. Mas ao que não tem, até o que tem, lhe será tirado.”

 

Na área da educação, há muito que por todo o lado do mundo se considera o Efeito São Mateus como algo de óbvio, ou seja, que quem vem melhor preparado dos ciclos iniciais de escolaridade, ao prosseguir estudos, tem uma vantagem cumulativa sobre os que estarão menos bem preparados.

Mesmo quem não faça a mais pequena ideia do que é o Efeito Mateus, sabe intuitivamente que na realidade assim é. É essa uma das razões pelas quais habitualmente se justificam as retenções: o aluno ainda não está preparado para o ciclo seguinte.

Tudo isto parece óbvio, só que afinal talvez não…

 

Vamos até à Austrália, um sítio que fica do outro lado do mundo e em que nada é óbvio, nem sequer os animais. Enquanto por cá temos cães, gatos, galinhas, patos e burros, por lá há cangurus, koalas, ornitorrincos e outras espécies nada comuns.

Mas deixemos a zoologia e concentremo-nos na pedagogia. Preocupados com o Efeito São Mateus, os australianos decidiram monitorizar o progresso escolar dos seus alunos durante vários anos, para mais eficazmente combaterem o dito efeito.

 

Para tal, seguiram o percurso escolar desde o 3° até ao 9° ano de escolaridade de 65 984 estudantes no estado de Victoria e de 88 958 no estado de South Wales. Os resultados foram surpreendentes. Verificaram que afinal talvez o Efeito São Mateus não exista, ou seja, que a maior parte dos alunos com dificuldades no ciclo inicial de escolaridade, acaba por alcançar os que nessa primeira fase não tiveram dificuldades. 

Na passada sexta-feira, o jornal britânico The Guardian publicou um artigo a dar conta desta inesperada conclusão. Poderão lê-lo em:

 

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2023/jun/30/research-shows-australian-students-who-are-behind-in-primary-school-can-catch-up-by-high-school

 

No gráfico abaixo, que consta do referido artigo, as linhas a negro representam o percurso de dezenas de milhares de alunos australianos desde o 3° ao 9° ano de escolaridade. Como é fácil de verificar, são linhas ascendentes, pois muitos dos alunos que no 3 ° ano se situavam na parte inferior da escala, com o passar dos anos foram recuperando e chegados ao 9° ano, a maior parte deles já se situava em níveis médios ou até superiores.

 


Já em 2014 tinha havido um estudo internacional sobre este mesmo tema, que envolveu países tão diferentes como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Finlândia, a Alemanha, a Grécia, o Canadá, a Áustria, a Suécia e a Holanda e cuja amostra incluía 425 685 estudantes. Também com surpresa, conclui-se que só uma quarta-parte dos alunos com dificuldades no anos iniciais de escolaridade, é que não recuperavam nos anos posteriores, todos os outros sim.

Significa isto, que na área da educação, há legitimas dúvidas de que realmente exista o chamado Efeito São Mateus.

 

Como todos sabemos, uma lei que só produz efeitos num quarto dos casos, não é bem uma lei. Uma lei só o é se for universal, ou seja, se for verificável em 100% dos casos. Por exemplo, se porventura a lei da gravidade só se aplicasse numa quarta-parte dos casos e não à sua totalidade, nem precisávamos de ir à Austrália, ou seja, ao outro lado do mundo, para andarmos todos por aí de pernas para o ar.

 


No fundo, o que quereremos dizer com toda esta conversa é só uma coisa, a maior parte dos alunos australianos, segundo os estudos realizados, mesmo que tenham tido dificuldades nos anos iniciais de escolaridade, acabam por recuperar nos anos seguintes. Sendo esse o caso, os australianos questionam-se sobre para que servirá chumbar alunos em tenra idade?

Curiosamente, as taxas de retenção na Austrália são muito mais baixas do que as que temos por cá, seja qual for a idade. Aliás, na quase totalidade dos países desenvolvidos, as taxas de retenção são muito mais baixas do que por cá. Talvez não fosse má ideia darmos uma volta a isto.

Talvez para que demos essa volta, precisemos ver as coisas numa perspectiva completamente diferente. Às vezes, só quando estamos de pernas para o ar é que vemos coisas novas que antes não víamos.

 


Há uns anos, na muito longínqua e nada óbvia ilha da Tasmânia, na região mais a sul da Austrália, um rico milionário decidiu mandar erguer um museu. Um museu também ele nada óbvio. Chamou-o Museum of Old and New Art.

Juntou peças de antigos mestres, de artistas contemporâneos, estátuas do tempo dos faraós, artefactos vindas da Babilónia, da clássica Atenas, dos Aborígenes, de anónimos artesãos e de modestos artistas de rua, e colocou tudo num mesmo espaço.

Lado a lado há coisas que valem milhões e outras que valem tostões. Lado a lado há coisas de há milhares de anos e outras de anteontem. Quem já lá foi, diz que viu algo de um modo que nunca pensou ver.

Terminamos com o testemunho de uns quantos:

 

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