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O dia mais curto do ano, um piquenique, rosas e espinhos. Ou como tudo isto é relativo.


Faltam uns poucos dias para chegar o chamado dia mais curto do ano, 21 de dezembro. Em boa verdade, tal dia tem as mesmas 24 horas de todos os restantes, há é menos luz e está mais tempo escuro, mas isso apenas no hemisfério norte, onde só amanhece lá para as tantas e anoitece bastante cedo, muito antes da janta. Já no hemisfério sul, tudo sucede de modo oposto. Em síntese, o dia mais curto do ano é simultaneamente o mais longo, depende de onde estivermos, ou seja, é relativo.
Por cá, o 21 de dezembro é normalmente um dia frio e melancólico, não raras vezes cinzento e chuvoso, propício a que nos deixemos embalar por ténues lembranças e vagas recordações do passado. Como perguntava Fernando Pessoa, “E eu era feliz? Não sei: Fui-o outrora agora.”
A propósito do dito dia mais curto do ano, há quem desde há uns anos a esta parte aproveite a ocasião para mostrar curtas. Curtas são pequenos filmes, que em média duram entre 15 a 40 minutos.  
Vila do Conde é a capital das curtas. É lá que a cada verão se realiza o Festival Internacional de Curtas Metragens. Já no inverno, mais concretamente entre 21 e 22 de dezembro, é nessa mesma cidade chamada vila, que se celebra “ A Grande Festa da Curta Metragem”.  

Se fossemos a Vila do Cinde, iríamos logo diretos à secção “Curtas do Mundo” para ver o filme espanhol de 2022, “Arquitetura Emocional 1959”, realizado por León Siminiani.  
“Arquitetura Emocional 1959” conta-nos uma história de amor entre Sebastián e Andrea, passada na Madrid de 1959, aquando do momento em que os dois personagens principais iniciaram os seus estudos universitários.  
As diferentes classes sociais a que os dois pertenciam e a situação política espanhola de então, acabariam por se tornar obstáculos intransponíveis à continuação da sua relação, porém, as recordações desse passado mantiveram-se continuamente presentes para ambos ao longo das suas vidas. 
No filme, Sebastián e Andrea revisitam em 2022 os lugares da cidade onde em 1959 pela primeira vez se encontraram, se apaixonaram e passearam. Fazem ambas as coisas simultaneamente, ou seja, revisitam e encontram-se pela primeira vez num mesmo e só tempo. Tal só é possível, porque a narrativa se desenrola de um modo síncrono, estando os personagens coincidentemente em 1959 e também em 2022.  
Praticamente tudo mudou no espaço temporal que decorreu entre essas duas datas, no entanto, há um prédio, umas quantas ruas, um cinema e uns bancos de jardim, que continuam atualmente no mesmo exato lugar onde anteriormente estavam, quase como se o tempo que passou não tivesse efetivamente passado. É portanto a arquitetura que desperta as emoções e recordações desse e nesse outrora-agora.

O coração de “A Grande Festa da Curta Metragem” é em Vila do Conde, mas de norte a sul do país, há também muitas outras localidades que coincidentemente querem mostrar umas quantas curtas nesse dia, são as seguintes: Abrantes, Amadora, Amarante, Barcelos, Coimbra, Covilhã, Faro, Figueira da Foz, Guimarães, Leiria, Lisboa, Madalena (Pico), Maia, Mértola, Oliveira do Hospital, Ourém, Paredes de Coura, Portalegre, Porto, Sardoal, Setúbal, Sintra, Vila Nova de Famalicão, Vila Real e Viseu.  
Mas até mesmo para quem não quer sair de casa, há festa. A RTP 2 e o TVCINE também mostram curtas no dia mais curto do ano, é consultar a programação. 
Dito isto, também nós queremos falar-vos de curtas, mas não das mais recentes, das novidades, mas sim das de sempre, ou seja, daquelas curtas que resistem ao longo tempo. As que já antes vimos muitas vezes, mas que quando as revisitamos, é como se as víssemos pela primeira vez.
Escolhemos três, conforme a conta que Deus fez. São as melhores de sempre? Talvez sim, talvez não, é relativo.
Talvez a melhor curta para começarmos seja “La Jetée”, filme de 28 minutos, realizado por Chris Marker em 1962, que nos conta a história de um homem cujo destino ficou marcado por uma memória do tempo da sua infância. 
Quando criança, o homem ia frequentemente ao Aeroporto de Orly em Paris com os seus pais para ver os aviões. Um dia assiste a um acontecimento dramático, que só muito mais tarde na vida conseguirá compreender: alguém é alvejado e morre diante do olhar de uma misteriosa mulher, de quem ele guardará para sempre na memória os traços do rosto. 
Anos passados, dá-se a terceira guerra mundial. Em Paris, os sobreviventes abrigam-se em subterrâneos. Num deles, estranhos cientistas desenvolvem experiências com seres humanos para que estes possam viajar ao passado. O personagem principal da narrativa, que nesse momento é já um adulto, foi escolhido como cobaia. 
Enviado ao passado, passeia-se pelo Museu de História Natural de Paris onde surpreendentemente encontra a mulher cujo rosto recordava desde a sua infância. Envolvem-se numa relação amorosa. No entanto, os cientistas fazem-no regressar ao seu tempo, à época pós terceira guerra mundial. 
  
Após várias aventuras, o homem pede para ser definitivamente enviado para o passado, mais concretamente para o tempo em que ia ver os aviões ao Aeroporto de Orly. Fazem-lhe a vontade.
Quando se encontra no aeroporto, vê a mulher cujo rosto recordava desde criança e corre para ela, no entanto, alguém dispara sobre ele. O homem compreende então, que a memória que guardava desde a sua infância, era a da sua própria morte. 
Todo o filme é composto por imagens estáticas, fotografias que se seguem umas às outras. É como se fossem pedaços ou estilhaços de memórias. Quem quiser ver o filme completo pode fazê-lo em: 

Passamos à nossa segunda escolha, que é muita apropriada para esta época do ano, “A chuva”. Um filme de 12 minutos realizado pelo cineasta holandês Joris Ivens em 1929. Trata-se de uma sinfonia poética composta com múltiplas imagens da cidade de Amsterdão, antes, durante e depois de uma tempestade. 
“A chuva” é um retrato lírico traçado por meio de breves vislumbres de canais ondulantes, de mares de guarda-chuvas, de crescentes lençóis de água e de parapeitos gotejantes. Foi filmado ao longo de dois anos, mas transmite-nos a sensação de decorrer apenas durante os breves instantes que dura um dia. Como se sabe, o tempo é relativo.

Vamos vendo diversos lugares de Amsterdão, iniciando-se o percurso numa manhã ensolarada e terminando numa tarde chuvosa e escura. Às imagens alegres da manhã, em que a luz do sol brilha e se reflete nas águas do rio e dos canais, seguem-se as imagens com os primeiros pingos de chuva que a pouco e pouco se vai intensificando.   
Pelos vidros das janelas escorrem abundantes gotas de água, aumenta o vento, os pássaros procuram um abrigo e centenas de pessoas abrem os seus guarda-chuvas. Como num poema pleno de melancolia, a cidade acinzenta-se, arrefece e escurece.  
Mesmo no final, vemos os barcos a atravessar os canais da cidade, e as casas que lhes são próximas. A chuva esmaece e surgem efémeros raios de sol. O filme termina. Quem o quiser ver do princípio ao fim, é só clicar no link abaixo: 


Quando chove muito, mesmo as mais fortes, convictas e sólidas das cidades, acabam por perder consistência. Debaixo de chuva, qualquer cidade fica tão fluída e liquida, que tudo se torna muito mais contingente e relativo.
A relatividade tem a sua poesia, como nos mostra o filme “A chuva” de Joris Ivens, e como nos mostram também as curtas “Arquitetura Emocional 1959” e “La Jetée”, pois nelas vemos a beleza de se poder estar em Madrid em 1959 e simultaneamente em 2022, assim como o espanto de se estar no Aeroporto de Orly ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro.
A nossa terceira e última curta intitula-se “Powers of Ten”. Foi realizada em 1977 por Charles e Ray Eames. Não dura mais do que 9 minutos, todavia, nesse breve período de tempo leva-nos numa viagem que vai até ao ponto mais longínquo do universo, para logo de seguida nos transportar ao ponto mais minúsculo da matéria, o núcleo de um átomo de carbono. Tudo isto durante um piquenique.


Enfim, se o dia mais curto desagrada a muitos, a verdade é que agrada a outros tantos por ser também a noite mais longa. É como tudo, é relativo. Como alguém algum dia disse: “Damos, muitas vezes, nomes diferentes às coisas: O que para mim são espinhos, vós chamais-lhe rosas.”

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