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Livros proibidos


Comecemos pela Flórida, mais precisamente pelo condado de Orange, onde se situa a grande cidade de Orlando. Nesse local, o número de livros proibidos nas bibliotecas das escolas é de 673. Entre estes encontram-se obras como “Amor em tempos de cólera” de Gabriel Garcia Marquez, o poema do século XVII “Paraíso perdido” de John Milton e o clássico romance do século XIX “Madame Bovary” de Gustave Flaubert. Contudo, a lista não se faz só de obras primas da literatura, há também uns quantos “best-sellers” como por exemplo, “A Firma” de John Grisham.
O motivo para haver uma lei estatal que proíbe mais de seis centenas de livros de todos os tipos nas escolas, é um e só um, nenhum aluno pode ler seja lá livro que for, em que haja qualquer referência, por menor que seja, a uma “conduta sexual”. Por exemplo, um beijo nos lábios para estes efeitos literários-legais, já é considerado uma conduta sexual.
Entre os livros proibidos nas escolas deste condado, está igualmente “A Arte de Amar” do poeta romano Ovídio que viveu entre 43 a.C. e 18 d.C., do qual vamos citar uma passagem:
“Pensai, desde agora, na velhice que virá; assim o tempo não passará em vão para vós. Diverti-vos, enquanto é possível, enquanto vos encontrais nos verdes anos; os anos passam como a água que escoa; nem a água que corre voltará para trás, nem as horas poderão voltar. O tempo tem que ser aproveitado: ele foge com passo veloz e por melhor que seja não é tão bom como o que o antecedeu”.
Citado Ovídio, abaixo fica o link do jornal Orlando Sentinel para quem quiser aprofundar o seu saber sobre as razões por que foram proibidos 673 livros num condado da Flórida:
Pensará quem nos lê, que talvez se trate de uma prática local e pontual, mas não, a PEN America, uma associação em prol da liberdade de expressão, contabilizou um total de 3362 livros banidos das escolas “across the USA”, só no ano letivo 2022-23. No dito ano, o aumento de proibições foi de 33% relativamente ao ano letivo anterior. O total de livros proibidos é da ordem das dezenas de milhares.

Que saibamos, em Portugal não há livros proibidos nas escolas, pelo menos nas públicas. Nas outras não sabemos. Apenas sabemos que a Opus Dei, uma organização da Igreja Católica, tem a sua lista, o Index Librorum Prohibitorum.
Se formos verificar que autores portugueses lá aparecem, vemos que dela constam doze títulos do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, “Caim”, “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Manual de Pintura e Caligrafia”, “Memorial do Convento”, “A Viagem do Elefante”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e “Ensaio Sobre a Cegueira”.
Constam também “A Relíquia”, “O Crime do Padre Amaro”, “O Primo Basílio”, “Os Maias” e “Uma Campanha Alegre” de Eça de Queirós. Fazem igualmente parte da lista Lídia Jorge com “A Costa dos Murmúrios” e “O Dia dos Prodígios”, e ainda obras de autores como José Cardoso Pires, Virgílio Ferreira, António Lobo Antunes, Fernando Pessoa ou Camilo Castelo Branco. A lista da Opus Dei é atualizada sempre que necessário, com novos títulos

Um dos grupos que nos EUA mais tem pressionado as autoridades e as escolas no sentido de proibirem livros atrás de livros, chama-se “Moms for Liberty”, as mamãs pela liberdade. Segundo as próprias, o seu objetivo é “protegerem” as crianças e jovens de serem expostos a qualquer conteúdo em que sejam abordados temas como o sexo ou a raça.
Ao que se sabe e vem nas notícias, as mamãs não se poupam a meios para atingir os seus fins, assediando e ameaçando professores, requerendo constantes reuniões com as direções das escolas e manifestando-se de todas as formas, não só para proibirem livros, como também para interferir nos conteúdos dos currículos escolares. As mamãs combatem igualmente de um modo feroz os sindicatos de professores através de agressivas campanhas mediáticas.
O argumento que usam é o da liberdade, ou seja, arrogam-se ter o direito de escolher o que os filhos devem ou não aprender na escola. Um artigo do jornal “The New Republic” descreve perfeitamente a situação, “Moms for Liberty Has Created Nightmares for Schools Across the Country”:
Como todos sabem, com a chegada da adolescência, muitas vezes os jovens têm as suas fantasias, apesar de hoje em dia a internet estar mais à mão, ainda assim, há de haver quem goste de ler livros “proibidos” para alimentar a imaginação.
Quer-nos cá parecer, que com tantos livros proibidos por terem referências a uma “conduta sexual”, vai haver muitos adolescentes que apanharão uma grande desilusão. Imagine-se um rapaz que leva para casa o livro proibido “Paraíso perdido” de John Milton, na expectativa de ler cenas libidinosas! Vai ter uma espécie de anticlímax, pois o mais excitante que lerá é a narração das penas dos anjos caídos após a rebelião no paraíso e o ardil de Satanás fazer Adão e Eva comerem o fruto proibido.

A situação é de tal modo, que no estado do Utah os pais encarregados de educação fizeram uma petição e conseguiram que a Bíblia fosse banida das escolas por conter cenas de pornografia e/ou indecentes. A decisão acabaria por ser revertida, mas ainda assim a polémica foi grande e não sabemos se estará definitivamente encerrada. Aqui fica a notícia:
O mal de tudo isto, é que muitas modas começam nos Estados Unidos, mas rapidamente atravessam o Atlântico e instalam-se na Europa. É esperar para ver. Enquanto isso, ficamos como uma passagem da Bíblia, “O cântico dos cânticos” do Rei Salomão. Aí se dá voz a dois amantes que se cantam e se desejam.
Ela começa por dizer assim:
Que ele me beije com a sua boca,
porque o seu amor me é melhor do que o vinho!
Como o teu perfume é agradável!
Como o teu nome é doce!

Mais tarde, a determinado momento, ele responde deste modo:
Como és formosa, meu amor, como és bela!
Os teus olhos são como pombas, escondidas atrás do teu véu.
Os teus cabelos, como um rebanho de cabras
pastando no monte de Gileade.
Os teus dentes são brancos como a lã de ovelhas tosquiadas,
subindo do lavadouro.
Todas elas têm gémeos,
não há nenhuma estéril entre elas.
Os teus lábios são como um fio de escarlate.
Como é linda a tua boca!
As tuas faces são duas romãs,
por detrás do teu véu.
O teu pescoço é como a torre de David,
erguida como um arsenal.
Ela está ornada com mil escudos de guerra,
todos eles escudos dos heróis.
Os teus dois seios são como duas crias,
como crias gémeas de gazela,
apascentando-se entre lírios.
Antes que refresque o dia,
e caiam as sombras,
irei ao monte de mirra e ao outeiro de incenso.
És toda formosa, minha querida!
Não tens nenhum defeito!

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