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Quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro.

Decameron é um livro de contos escrito por Boccaccio em 1353. A obra é considerada um marco literário, pois assinala a ruptura com a moral medieval, na qual se valorizava o amor espiritual, e o início do realismo, quando se passou a dar mais valor às coisas terrenas.
Há um episódio muito ilustrativo disso mesmo, que nos conta a história de Masetto da Lamporecchio, um jovem que se finge mudo, para poder trabalhar como jardineiro num convento de freiras. As religiosas, que são nove, aproveitando-se do facto de ele não falar, usam-no para satisfazer as suas necessidades.
Por fim Masetto fala. A Madre Superior também queria ser satisfeita, só que o jovem estava estafado e queixou-se à madre da insaciabilidade das freiras. A Madre Superior declara então o facto de Masetto falar, um milagre, de modo a o manter no convento.
Em 1971 Pier Paolo Pasolini realizou uma adaptação cinematográfica de alguns dos contos de Decameron, o filme venceu o Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim desse ano. Quem quiser ver a história de Masetto da Lamporecchi, pode ir ao Youtube e procurar “Miracolo! Miracolo! Decameron”, por pudor e decência, nós não vamos publicar o link e avisamos desde já, que as cenas são um tanto ou quanto explícitas, sendo portanto para maiores de 18 anos.
Para todos os que não quererão ir espreitar as pouco decentes imagens de Pier Paolo Pasolini, aqui fica uma gravura antiga e com uma atmosfera muito mais espiritual, que há séculos foi realizada para ilustrar o clássico conto de Giovanni Boccaccio, algo que faz perfeitamente e de um modo decente.

Mudando agora de assunto, a verdade é que desde sempre que há Madres Superiores prontíssimas para anunciarem milagres que não o são. 
Diogo Ribeiro, Aluno-Atleta da Escola Secundária Fonseca Benevides, conquistou duas medalhas de ouro nos mundiais de natação a decorrer em Doha, tendo sido o primeiro português a conseguir tal feito. Muito naturalmente, a nação comemorou a conquista, mas o jornal “A Bola” decidiu intitular um dos seus editoriais do seguinte modo: “Diogo Ribeiro e o milagre de Doha”.
Milagre?! Mas como assim? Se o rapaz trabalhou e se esforçou tanto para conseguir ser campeão, em que sentido pode isso ser considerado um milagre? Não pode, claro que não.
Mas se lermos o editorial descobrimos o que o articulista quer dizer, o milagre é o Diogo Ribeiro ter conseguido ser campeão apesar de ter frequentado a escola e ter tido professores. O articulista aproveita a vitória do rapaz para fazer o seguinte raciocínio, se as escolas trabalhassem melhor, tivessem melhores condições e os professores se esforçassem mais, certamente que teríamos muitos outros campeões e não apenas casos milagrosos como o Diogo Ribeiro.
A argumentação do articulista é um tanto ou quanto apalermada, mas ainda assim vamos transcrever uma parte: “Perdi conta às vezes em que os professores de Educação Física perguntaram: «Então o que é que a turma quer fazer na aula de hoje?». Estava dado o pontapé de saída para mais uma hora ou duas a jogar futebol, satisfeita a vontade da maioria. Na altura era motivo de alegria, agora fico a pensar em tudo aquilo que se perdeu. Quantos jovens se afastaram do desporto porque nunca tiveram a oportunidade de experimentar verdadeiramente a modalidade que os ia conquistar? Quantos campeões se perderam porque não conheceram o desafio certo? Aqui e ali a culpa até pode ter sido da preguiça do professor, mas as boas intenções de muitos terão esbarrado na falta de condições.(…) Por isso é que olhar para o título mundial de Diogo Ribeiro nos 50 metros mariposa é ver mais do que o maior feito da natação portuguesa. É ver um daqueles milagres que ocorrem de vez em quando no desporto nacional.”
Se é certo que as medalhas de ouro conquistadas são fundamentalmente fruto do talento e trabalho de Diogo Ribeiro, não há também dúvidas que uma parte dessas vitórias, por pequena que seja, se deve também ao nosso sistema educativo.
Para o confirmamos, basta fazermos uma pequena pesquisa sobre qual foi o seu percurso escolar recente e o que as escolas fizeram para o ajudar. Em 2020-2021, o Agrupamento de Escolas Coimbra Centro desenvolveu de forma exponencial a sua carreira desportiva, tendo o Diogo Ribeiro igualmente sucesso escolar, transitando de ano.
Diogo Ribeiro foi depois transferido para a modalidade do Ensino a Distância, devido ao número de ausências e de treinos que se anteviam, para a Escola Secundária Fonseca Benevides em Lisboa, onde ainda continua.
Foi integrado numa turma do 10.º ano do Curso de Línguas e Humanidades. O aluno passou a ter o apoio dos Professores Acompanhantes e da Psicóloga Escolar dos Alunos-Atletas.
Pesquisando-se fica-se também a saber que nas duas Escolas existiu um intenso trabalho de integração entre os docentes e psicólogos da equipa da Unidade de Apoio ao Alto Rendimento na Escola e o respetivo conselho de turma, o que permitiu uma gestão equilibrada e de sucesso das agendas desportivas e escolares.
Ao contrário do que o articulista do jornal “A Bola” afirma, o caso do Diogo Ribeiro não é uma exceção, pois só na última semana houve mais uns quantos Alunos-Atletas que conseguiram belos feitos:
Rita Marques, Karaté, Campeã da Europa Karaté Kata - Cadetes Feminino, Aluna-Atleta do Agrupamento de Escolas Fontes Pereira de Melo
João Vieira, Karaté, Medalha de Bronze no Campeonato da Europa, Aluno-Atleta do Agrupamento Fontes Pereira de Melo.
Tiago Abiodun e Susana Costa, Ténis de Mesa, venceram a prova de pares mistos no escalão Sub-19 no WTT Youth Contender, Alunos-Atletas do Agrupamento de Escolas Gaia Nascente
Tudo por conjunto, só neste ano letivo, as escolas disponibilizaram 11 831 apoios pedagógicos, 4500 apoios psicopedagógicos e 300 planos pedagógicos individuais assegurando um sucesso académico global aos Alunos-Atletas. Nada mau, certo?
Em conclusão, Masetto da Lamporecchio, apoiando apenas nove freiras e mais a Madre Superior ficou estafado e queixou-se amargamente da sua sorte, já as escolas apoiam milhares de Alunos-Atletas e não se cansam. Dados os números, cremos que é evidente para todos quem é mais competente.

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