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Moscovo é longe de Lisboa, e portanto é normal dar barraca no Palmeirim.

 


Estávamos nós ontem muito sossegados da nossa vida, quando em má hora e em consequência de um súbito transtorno mental, decidimos ligar a televisão no primeiro canal.
Não contentes com tal, fomos ainda mais audazes e não fizemos a coisa por menos, pusemos-nos logo a assistir a um concurso de cultura geral. O dito programa passa na RTP 1 e chama-se Joker. Verificámos também que é apresentado por um conhecido rapaz, que se chama Vasco Palmeirim. Enfim, foi um serão mesmo tipo à maluca.

Em boa verdade, nós já devíamos saber que ver concursos de cultura geral, é coisa que não nos convém fazer. É tal e qual como comermos fritos, enchidos, gorduras e outras coisas que tais. Ou seja, sabemos de antemão que a ingestão de tais comezainas só nos vai fazer mal, mas ainda assim cedemos à tentação de as comer. E foi o que sucedeu, caímos em tentação e vimos um bocado do concurso do Vasco Palmeirim, foi para aí cinco minutos ou mais. Claro está que passámos toda a noite agoniados, com azia e com demais desarranjos gastrointestinais.

O apresentador Vasco não teve culpa, nada disso. Coitado do rapaz, que muito embora sem obter grandes resultados, até se esforça bastante para ser engraçado. Os nossos problemas de indigestão tiveram uma outra causa. Tudo foi provocado por uma simples questão à qual um concorrente tinha de responder. A pergunta era a seguinte: quem é o autor do livro “Os Irmãos Karamazov”.



A nós faz-nos grande confusão e provoca-nos indigestão, que gente que se dispõe a participar num concurso dito de cultural geral, hesite na resposta a tal questão. Tanto mais, que foram apresentadas quatro hipóteses com nomes de quatro grandes escritores russos, sendo que o concorrente só tinha escolher a correta, apenas isso, nada de mais. Porém, até isso, uma coisa tão fácil, se revelou ser muito complicada.

O concorrente não pode sequer alegar em seu favor, que o desconhecimento que tinha da resposta correta fosse devido a um momentâneo lapso de memória ou ao nervosismo, pois que o nome certo estava ali, mesmo à sua frente, era só dizê-lo. O problema era que ele não sabia quem havia escrito “Os Irmãos Karamazov”.

Na verdade, quem viu o concurso constatou que o concorrente só tinha uma muito vaga ideia, mas mesmo muito vaga, de quem eram cada um dos quatro grandes escritores russos apresentados como possibilidades de resposta. Depois de muitas hesitações e considerações, lá acabou por escolher a hipótese certa, mas viu-se claramente que a sua resposta foi atirada para o ar para ver se tinha sorte. Teve.

Vamos lá ver uma coisa, o concurso em questão é suposto ser de cultura geral, não é o Big Brother, o Chuva de Estrelas, o Preço Certo ou os Jogos sem Fronteiras, consequentemente, esperar-se-ia que quem decidisse concorrer tivesse alguma cultura, mais que não fosse somente a dita geral. Mas pelos vistos não, no Joker basta aparecer e atirar respostas para o ar e com um pouco de sorte pode ser que se acerte.

Perguntarão os nossos leitores, mas é assim tão grave não se saber quem é o autor de “Os Irmãos Karamazov”? Claro que não é tão grave como ter um tumor, passar fome ou viver na miséria. Se os termos de comparação forem esses, é até uma coisa despicienda, todavia, para quem quer ser concorrente a um concurso de cultura geral na TV é efetivamente uma coisa bastante grave.

A nosso ver, só o mero facto de se ver TV e de nela se querer aparecer num qualquer concurso, não deveria ser condição suficiente para que se pudesse participar, isto a não ser, que se fosse lá fazer qualquer coisa, que se soubesse realmente fazer.

Por exemplo, podia-se criar um concurso de TV para pessoas que não sabem fazer nada de especial nem têm muitos conhecimentos e cuja maior habilidade seja o estarem sentadas ou deitadas no sofá em frente à TV.

Os concorrentes sentavam-se num sofá em frente a um aparelho de TV e não tinham de responder a absolutamente nada ou fazer fosse o que fosse, bastava deixarem-se estar sossegados. No fim ganhavam um prémio, tipo uma bicicleta, um conjunto de cozinha, uns toalheiros de banho ou qualquer coisa do género.


Vejamos uns exemplos para que se perceba a extrema gravidade da situação. Imaginem os nossos leitores, que ao concurso Big Brother concorrem pessoas inteligentes, sensatas, educadas e ponderadas. Como é evidente, se o Big Brother admitisse tal gente, a coisa não funcionaria. Já pensaram o quão grave isso seria? Seria efetivamente bastante grave.

Para participarem nesse concurso, os potenciais concorrentes têm de preencher determinados pré-requisitos, ou seja, devem ter as características opostas aquelas que acima enunciámos. Os concorrentes serem completamente tontos e um tanto ou quanto vagos, é a condição “sine qua non” para participar no Big Brother, é a base sobre a qual assenta o seu imenso sucesso. Sem eles, os tontos e vagos, nada feito.

Imaginem também, que no Chuva de Estrelas só havia quem não soubesse cantar e desafinasse totalmente! Ou que ao Preço Certo concorria quem nunca leu um folheto de supermercado! Já viram a gravidade do que poderia acontecer em tais situações? Olhem lá o Fernando Mendes a perguntar a um concorrente quando custa um determinado sofá, acompanhado de um micro-ondas e de uma motorizada, e o concorrente não fazer a menor ideia do que dizer! Como é evidente, tal é coisa que jamais sucederia, não pode.

O que nós vimos no Joker foi exatamente algo de semelhante a tudo isso, ou seja, de uma gravidade equivalente às situações fictícias que acima descrevemos. Tal como um Big Brother sem tontos e vagos não funciona, um Chuva de Estrelas sem afinados não existe e um Preço Certo sem leitores de folhetos de supermercado não faz sentido, de igual modo, um concurso de cultura geral no qual os concorrentes não a têm, também não presta.

Repare-se que não se pediu sequer ao concorrente do Joker que tivesse lido “Os Irmãos Karamazov” e que falasse sobre o profundo significado filosófico dessa obra, ou, que ao menos, fizesse um breve resumo da história. Palmeirim pediu-lhe pura e simplesmente que dissesse o nome de quem havia escrito o livro, podendo-se escolher a resposta de entre quatro hipóteses possíveis. Perante tal situação, como é que as pessoas não se hão revoltar contra o facilitismo?

É totalmente compreensível que cada vez mais políticos, jornalistas e comentadores se manifestem contra o facilitismo que se vê nos concursos da TV pública. No Preço Certo ainda há algum rigor e exigência com os concorrentes, mas no Joker já não, estão todos muito mal preparados.
Não admira portanto, que os espectadores se voltem para as privadas, onde concursos como “Quem quer casar com um agricultor”, “Casados à primeira vista” e “Vai ou racha” garantem que os concorrentes possuem efetivamente as necessárias características e estão bem preparados para neles participarem, não admitem assim qualquer um, como sucede na TV pública.

Dito isto, antes de continuarmos deixamos-vos uma sugestão literária. Um livro que mesmo não sendo tão bom como a grande literatura russa, não deixa por isso de ter a sua graça e bastante piada.



Custa-nos a acreditar que a RTP 1, que é um canal público e que por essa razão tem a obrigação de fazer alguma pedagogia e ser minimamente educativo, apresente um concurso de cultura geral no qual os concorrentes não sabem praticamente nada.

No fundo é como organizar um grande jantar cujos principais petiscos sejam pezinhos de coentrada, mioleira, chispes, túbaros e tripas, e depois convidar para o repasto malta veggie, daquela que só come salada de rúcula, sementes de soja e rebentos de bambu. Hão de convir que não bate a bota com a perdigota.

Em boa verdade, nós nem conseguimos acreditar que os concorrentes que decidem participar no concurso Joker, pouco ou nenhuma cultura possuam. Possivelmente nós é que tivemos um enorme azar, e apanhámos logo um momento em que a questão posta se referia à literatura russa. Se calhar estamos a ser injustos nos nossos comentários.

O que na realidade é capaz de se passar, é que há um grande défice no conhecimento que os concorrentes a concursos de cultural geral da TV portuguesa têm relativamente à literatura russa, mas só e exclusivamente nessa aérea. É crível que em relação a tudo o mais, os concorrentes sejam extremamente cultos. O problema deve ser unicamente a literatura russa, nós é que vimos cinco minutos do Palmeirim e começámos logo a extrapolar.

Cremos ser bem provável, que se a questão de cultura geral colocada pelo Palmeirim se centrasse antes na literatura alemã, francesa ou italiana, tudo teria sido bem diferente. Estamos convencidos que no que diz respeito a essas e a outras literaturas, esse défice de conhecimento dos concorrentes não existe.

Cremos até, que se ao invés de ser sobre literatura, a pergunta tivesse sido sobre história da arte, a resposta estaria na ponta da língua de qualquer concorrente, pois provavelmente não há quem em Portugal não distinga perfeitamente a pintura flamenga da holandesa, ou a renascentista da barroca e maneirista.
Já se a área em questão fosse a da música erudita, tivesse ela origem polifónica ou resultasse do dodecafonismo, também certamente que não faltariam concorrentes que respondessem sem a mais leve hesitação às perguntas do Palmeirim. 
Em conclusão, o único problema é o défice nacional em literatura russa.

Abaixo uma imagem na qual, entre outros grandes autores russos, podemos ver as figuras de Tchekov, Tolstoy, Gogol e Dostoiévski, precisamente as quatro possibilidades que apareceram ao concorrente do Joker, como possível resposta para a questão quem escreveu “Os Irmãos Karamazov”.



Como por este nosso texto se foi concluindo, em Portugal temos superávit de concorrentes a concursos de TV com vastos conhecimentos de literatura alemã, francesa, italiana e outras, temos igual superávit de concorrentes que sabem bastante de história da arte e de música erudita, por fim, também não faltam tontos e vagos e leitores de folhetos de supermercado. Em síntese, estamos bem servidos de concorrentes em tudo, excepto na literatura russa, onde efetivamente temos um défice.

Como nós sabemos que a RTP sozinha não consegue fazer tudo e assim cumprir a sua missão educativa e pedagógica, decidimos dar-lhe uma ajuda. A RTP já muito faz para divulgar as diversas literaturas e esforça-se imenso para expandir o conhecimento e gosto pela arte e pela música, assim sendo, vamos ajudar dedicando o nosso texto de amanhã à literatura russa.

Vamos falar-vos de quatro grande autores, precisamente aqueles que apareceram como hipóteses no Palmeirim: Tchekov, Tolstoy, Gogol e Dostoiévski. Com o nosso esforço e dedicação, o futuro há de ser melhor e não vai haver nem um concorrente que vá ao Joker e não saiba dizer quem escreveu “Os Irmãos Karamazov”.

Mas isso é amanhã, hoje despedimo-nos com uma linda canção de Sam Cooke, que reza assim:

Don't know much about history
Don't know much biology
Don't know much about the science book
Don't know much about the French I took



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