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Quem é o adversário das famílias? A escola pública, pois então.



Nas escolas públicas sabe-se bem a importância que as famílias têm para a aprendizagem dos alunos. Sabe-se também, que famílias há muitas, e igualmente que não professam todas as mesmas crenças, práticas e ideologias. Sabe-se até, que nem todas comem o mesmo ao jantar, nem veem o mesmo canal de TV ao serão.


Nas escolas privadas também se sabe bem a importância das famílias, pois são elas que as pagam, exceto quando é o erário público que as sustenta, que é o que sucede em muitos casos.

Mas dito isto, não foram nem são as escolas públicas nem privadas que criam as famílias. Nem criam as tradicionais, nem as liberais, nem as progressistas, nem as alternativas, nem as atentas, nem as negligentes, nem nenhumas, todas elas simplesmente existem à priori. À posteriori matricularam os seus filhos nos estabelecimentos de ensino, que por sua vez existem para os receber.

 

Aparentemente, cada vez há mais quem saudosamente suspire pelas famílias felizes e regulares, ou seja, todas iguais àquelas que dantes havia. Ou melhor, iguais a como se pretende fazer crer que teriam sido as famílias de antigamente, mas não como efetivamente o eram, pelo menos não a generalidade delas.

 

Não é preciso andarmos mais de duas ou três gerações para trás, para termos um retrato fiel de uma típica família nacional de outrora. No início dos anos 50 do século XX, cerca 42% da população portuguesa era analfabeta, sendo, portanto, evidente, que na maior parte dos casos o pai, a mãe, ou ambos, não sabiam ler. Já quanto aos filhos, é possível que uns quantos deles andassem a aprender.

 

Imagine-se lá, que belas e educativas conversas familiares haveriam de ter à hora de jantar. Com certeza que o pai dissertaria sobre “O Declínio do Ocidente”, obra maior do filósofo alemão Oswald Spengler, e a mãe abordaria teorias de políticos conservadores relativas à importância de haver respeito pelos valores éticos e morais tradicionais. Os cinco ou seis filhos, ou talvez mais, concordariam entusiasticamente, dizendo que sim senhor, que já tinham ouvido dizer o mesmo ao senhor prior.

 

O vil consumismo nessa época também não havia. A regularidade do convívio e da felicidade familiar não se estragavam por todos terem o seu televisor, tablet ou computador. Era, pois, um tempo em que havia respeito e verdadeiros valores.

 

Tanto assim era, que uma parte significativa dos lares familiares eram frios, escuros e insalubres, e com poucas divisões internas. Ninguém tinha onde se isolar. Em muitos lares não havia sequer água canalizada, esgotos ou luz. Casas de banho? Nem vê-las. Com sorte haveria um qualquer lugar, mais ou menos afastado, destinado a toda a comunidade.

 

Tudo por junto, era uma vida feliz e abençoada, alicerçada na modéstia, nos valores comunitários e numa convivial e sã entreajuda entre todos os membros da célula familiar, que como se sabe, é a base da sociedade.

 


Excessos alimentares também não existiam. Nas famílias típicas de então, não havia cá hambúrgueres ou pizzas ou demais comidas estrangeiras. Sushi? Ninguém sequer sabia o que isso era.

A grande parte das refeições eram um caldo, ou quando não, peixe barato como chaputa, cachucho ou chicharro. Carne era só em dias de festa, em que mão de vaca ou vísceras acompanhavam lindamente com feijão e batatas. Tudo comidas tradicionais, que eram um regalo e uma felicidade.

 

Grande parte das crianças tinha “escola” a tempo inteiro, mas ninguém corria o risco de ser doutrinado e desviado dos verdadeiros valores, pois com muita frequência eram as próprias famílias que cuidavam da educação dos seus petizes.

 

No campo, logo pela madrugada, a família mandava a rapaziada ir cuidar do gado e ajudar a cavar a terra. Na cidade, proporcionavam-lhes outro tipo de atividades de enriquecimento curricular, como por exemplo, vender jornais, engraxar sapatos, serem moços de recados, lavadeiras, criadas ou outras tantas coisas mais.

 

Um cartaz desses tempos, mostra-nos bem como eram felizes as famílias. Eram felizes todos os dias, quando ao fim de mais uma jornada de labor, o pai regressava ao lar. Nesse momento, a mãe sorria discretamente, não descurando por isso as tarefas domésticas em andamento. Os filhos exultavam de alegria e contentamento, ao avistarem o seu progenitor a transpor galhardamente a porta do domicílio, quando pleno de vigor, irrompia de enxada na mão pela casa adentro, como um verdadeiro senhor.



Em boa verdade, e apesar deste e de muitos outros cartazes, todas essas supostas antigas famílias regulares e felizes com que agora se sonha por aí, não hão de ter sido as portuguesas, pelo menos não a larguíssima maioria delas, pelo menos não as de antigamente.

 

Ou muito nos enganamos, ou essa idílica ideia de que antigamente haveria inúmeras famílias regulares e felizes, teve origem num outro país, que não em Portugal. Se tivéssemos de apostar, diríamos que essa linda visão de uma família normal, trabalhadora e respeitadora dos valores éticos e morais corretos, rodeada por muitas outras tantas famílias com idênticas características, nasceu nos Anos 50 nos Estados Unidos. Daí terá atravessado lentamente o Atlântico e chegou agora até nós. Chegou com umas quantas décadas de atraso, mas chegou.

 

Na América, os anos 50 do século XX foram “The Golden Years”, aí qualquer família poderia ser regular e feliz. Uma regularidade e felicidade exatamente iguais à do vizinho do lado. Nunca como nessa década, tantos americanos tiveram tanto. Mas um tanto, que era em tudo semelhante ao de todos os outros, coincidente com o da família da casa em frente e similar ao daquelas todas que moravam lá mais adiante.

 

É precisamente desse mundo idílico, regulado e normalizado, em que todas as famílias são felizes conforme o único padrão vigente, de que muitos parecem agora sentir saudades.

 


Nessa década na América, não havia quem não tivesse uma casa com um pequeno jardim e com uma garagem ao lado. Sendo que esta última, servia sobretudo de oficina, para que o marido nos seus tempos livres pudesse fazer as suas coisinhas, ou seja, a sua bricolage, isto enquanto bebia uma lata de cerveja.

 

Nesse tempo, o lugar da mulher era na cozinha. Na América de então, estas eram do mais moderno que havia. Graças à recente ajuda dos eletrodomésticos, as mulheres podiam pintar as unhas e reunir-se com as suas amigas, por consequência, eram felizes.

 

Mas mais importante do que isso, como não exerciam nenhuma profissão e as máquinas as ajudavam tanto, podiam olhar pelos filhos, transmitir-lhes os verdadeiros valores éticos e morais e simultaneamente preparar um petisco para o jantar, que na América certamente não seria mão de vaca nem chicharro.

 

A felicidade familiar ficava completa, quando após mais um dia de labor, o senhor da casa regressava ao lar à hora regular. A esposa sorria sempre discretamente, e os filhos exultavam de alegria e contentamento. O pai não trazia uma enxada na mão, mas ainda assim não vinha de mãos a abanar, transportava uma pasta com alguns papéis do escritório para lhes dar uma vista de olhos mais tarde ao serão, depois de os miúdos se terem ido deitar e enquanto a sua consorte via o seu programa favorito na televisão.



É por essa imagem de regularidade e felicidade familiar “Made in U.S.A.” nos Anos 50, e pelos seus valores de há umas quantas décadas, que atualmente em Portugal alguns tantos suspiram. Não suspirarão certamente pela pobreza, pelo analfabetismo e pelo trabalho infantil que havia outrora na nossa amada pátria, por isso, na verdade, não suspirarão (esperamos nós).

 

Suspiram por um mundo seguro em que todos pensem do mesmo modo, vivam da mesma maneira, consumam os mesmos bens, tenham iguais gostos, anseios e desejos, e no qual não haja ninguém de distinto ou diferente, ou se houver, que disfarce, se adapte e aja em conformidade com as crenças, os costumes e a ideologia vigente, e não se ponha com discrepâncias, discordâncias, dissemelhanças, diferenciações, desconformidades ou irregularidades, pois que tudo isso é um ataque às famílias e só lhes traz infelicidade.

 

A título ilustrativo do que dizemos, veja-se a imagem abaixo de Norman Rockwell, intitulada “New Kids in the Neighborhood”. De um lado do cartaz temos miúdos oriundos de famílias felizes e regulares, do outro, miúdos vindos de uma família desigual. Os primeiros olham para os segundos com o que parece ser espanto.



Neste entretanto, desde a época deste cartaz até ao presente momento, muitas décadas se passaram, contudo, em Portugal, espantosamente, parece agora querer regressar-se a esse tempo.

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