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O que é nacional é bom. Ou então não presta.


E se disséssemos mal de Portugal? Era bom, não era? Era até uma coisa pedagógica. Não estamos a falar de dizer mal daquele tipo banal, ou seja, igual a esses desabafos e lamentos que ouvimos diariamente pelas mesas de café, aos motoristas de táxi ou à porta das mercearias. Não senhor, nada disso, era dizer mal mesmo à séria, ou seja, o piorzinho que se pudesse dizer deste país. Será que teremos coragem para o fazer?

Temos algum receio, que se porventura o fizéssemos, o mais certo fosse acabarmos por ser acusados de traição à pátria, razão pela qual, se calhar não nos atreveremos a fazê-lo. A ver vamos se o conseguiremos ou não fazer.

Mas a que propósito queremos nós escarnecer da nossa amada nação, perguntarão os nossos leitores. Ao que nós respondemos que a culpa, como sempre, é da outra, neste caso da Argentina.
Com efeito, estávamos nós descansadamente a ler o jornal, quando embatemos de frente com uma entrevista dos cineastas argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, tendo sido isso, que causou este nosso intuito pedagógico.

Os ditos cineastas, são gente da qual nunca tínhamos ouvido falar e de quem nada sabemos, fora o pouco que já dissemos. Nada sabíamos deles antes de vermos a entrevista e continuamos sem nada saber neste momento, pois que não a fomos ler.

O que lemos foi apenas o título da entrevista, que dizia assim: “En el fondo, Argentina no es para tanto”. Contrariando tudo o que nos ensinaram na escola, ou seja, que devemos ler um texto até ao fim e com extrema atenção antes de passarmos à interpretação, lemos só o título e tirámos logo as nossas conclusões.
Na verdade, somente por tal título, percebemos imediatamente o que os dois nossos desconhecidos cineastas queriam dizer, a saber, que a nação argentina se acha uma grande coisa, mas que bem vistas as coisas, não é lá essas coisas, pois tem muito que progredir.

Por conseguinte, os referidos cineastas, com a sua afirmação, estavam a ter uma atitude pedagógica, ou seja, a dar um “feedback” avaliativo ao seu país.

Nós por aqui gostamos da Argentina, muito embora nunca lá tenhamos ido nem estejamos a contar ir. Ainda assim, um país que tem Maradona, Jorge Luís Borges, Buenos Aires, a Patagónia e o tango, só pode ser grande.

Mas dito isto, tem também uma perpétua crise económica e social, uma inflação galopante de mais de 200% ao ano, enormes desigualdades e muita pobreza, compreendendo-se portanto, que Gastón Duprat e Mariano Cohn digam que “En el fondo, Argentina no es para tanto”.


Se os argentinos podem avaliar e dizer mal da sua Argentina, porque não poderemos nós avaliar e dizer mal do nosso Portugal? Mas que vem a ser isto, uns são filhos e outros são enteados? O que é que Portugal tem a menos que a Argentina, para que dele não se possa dizer o pior?

Imaginemos que por cá, alguma figura pública dá uma entrevista a um jornal e diz claramente, que no fundo Portugal não é lá essas coisas. Era certo e sabido que caía logo o Carmo e a Trindade e que tal figura ficaria com a carreira arruinada e a vida estragada.

Desde que sejamos nados e criados em Portugal, podemos todos dizer mal do nosso país, mas só à mesa do café, no interior de um táxi ou à porta de uma mercearia, fora isso, e para mais num jornal, é uma heresia, um autêntico crime lesa-pátria.

Dizer mal da nossa sagrada nação, só se for para nos lamentarmos dos buracos na estrada, do custo de vida, das urgências hospitalares, do funcionamento dos tribunais, do que se aprende na escola, dos políticos, dos empresários, dos transportes públicos, do trânsito, dos bancos, da falta da habitação, do preço das casas, da falta de estacionamento ou do povo em geral e de mais uma ou outra coisinha, tirando isto, de tudo o resto, apenas nos é permitido dizer bem ou estar calados.

Em boa verdade, há até inúmeros artigos a dizer mal dos portugueses que dizem mal dos portugueses, o mesmo é dizer, de Portugal. Em resumo, fora todos os temas que acima já referimos, de resto, só se pode dizer mal de Portugal, para se dizer mal dos portugueses que dizem mal de Portugal.

Vejamos alguns títulos de notícias que desencorajam, desaconselham e até repreendem quem os lê, por eventualmente alguém se atrever a dizer mal de Portugal.

No Expresso, “Não há como portugueses para dizer mal de Portugal”:


No Diário de Notícias, “A moda de dizer mal de Portugal”:


Na TVI, “Só oiço dizer mal de Portugal em Portugal”:


Poderíamos dar-vos muitos mais exemplos, mas cremos que o ponto está feito, ou seja, e como já antes dissemos, dizer mal de Portugal, só se for para dizer mal dos portugueses que dizem mal de Portugal. Ou isso, ou dos políticos, dos tribunais, das escolas, dos hospitais, dos transportes, dos buracos na estrada e por aí afora, mas sempre respeitando os temas habituais e por todos aceites.

E, se como nos propusemos no início deste texto, nos atravessemos a dizer mesmo mal de Portugal, mas não relativamente a nenhum dos assuntos acima referidos. Se disséssemos, por exemplo, mal da nossa comida? Nem vale a pena pensarmos nisso, arriscávamo-nos a ser enxovalhados durante anos. E do nosso vinho? Era a mesma coisa ou pior ainda. E se disséssemos mal do nosso sol, das nossas praias e das nossas lindas paisagens? Cruz credo, que nunca mais iríamos conseguir sair à rua sossegados e seríamos por todos os nossos compatriotas insultados.

Mas de que poderemos então nós dizer mal de Portugal, sem cairmos nas mesmas conversas e lamentos de sempre, e também sem pormos em risco a nossa rica vida? Descobrimos, já sabemos, vamos dizer mal das canções nacionalistas de dois dos nossos mais populares cantores, o Tony e o Toy.

Vamos já começar, estamos entusiasmados. Aqui vai: as canções do Tony e do Toy são para totós, tomem lá. To-tó-Toy-To-tó-ny, To-tó-Toy-To-tó-ny, To-tó-Toy-To-tó-ny, To-tó-Toy-To-tó-ny…

É engaçado, não é? Só mais uma vez: To-tó-Toy-To-tó-ny.

No tema “Sou Português”, Toy diz-nos assim: “Eu vou cantar sou Português, e até gritar sou Português, e confirmar que tenho orgulho no meu país. É lusitano o meu sangue afinal, sou filho de Portugal, trago no peito o passado feliz do meu país.”

Não queremos agora falar-vos na estilística formal e poética destes singelos versos, queremos antes chamar-vos a atenção para o seu conteúdo, mais concretamente para este trecho: “trago no peito o passado feliz do meu país”.
Ora bem, é olharem para baixo e verem. Olhando para a imagem adiante, só quem não quer ver é que não vê, pois está bem plasmada no peito do Toy a dita felicidade pretérita de Portugal, que ele diz trazer e de que nos fala o verso da canção.

Se olharmos com bastante atenção, é tanta a emoção patriótica, que até dá vontade de começarmos a cantar o hino: “Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal…”


Como quem não é totó já terá percebido, estamos a ser irónicos e até mesmo sarcásticos. O Toy pode ser muito boa pessoa, mas as suas canções, e em particular “Sou Português”, por mais populares que sejam, não prestam.

Deixemos agora o Toy e vamos ao Tony, um outro imenso cançonetista nacional. Também ele será uma excelente pessoa, mas isso não faz com que as suas canções sejam boas, e isto independentemente das muitas multidões que encham os pavilhões nos seus concertos.

O Tony tem uma canção que se intitula “Sou português de alma e coração”. Nós conhecemos alguns portugueses que o são de alma e outros quantos que o são de coração, agora de alma e coração juntos, assim como o Tony, não conhecemos nenhum, mas temos pena.

O Tony é mesmo português, temos a certeza absoluta disso, porque ele na já referida canção repete vinte oito vezes que o é. Olhem que é obra, numa canção de cerca de três minutos, conseguir-se vinte oito vezes dizer-se que se é português, é um recorde.

A determinada altura da canção, há um verso em que o Tony diz “Nunca esqueci que eu era português”, e não há como não lhe dar razão, pois a cada segundo que passa, ele repete-nos constantemente que o é.

Só para terem uma ideia da coisa, transcrevemos um excerto. Também não valia a pena transcrevermos mais, pois o resto da letra  não adianta muito à conversa. O que é importante é sabermos que o homem é português:

“Sou português de alma e coração
Eu sou português, gosto do verão
Eu sou português mesmo no Japão
Sou português de alma e coração
Eu sou português de alma e coração (hey!)
Sou português de alma e coração
Eu sou português, gosto do verão
Eu sou português mesmo no Japão
Sou português de alma e coração
Eu sou português de alma e coração
Sou português…”

Passámos a última hora e meia a escutar a canção “Sou português de alma e coração” e não ficámos com a mais leve dúvida da sinceridade do Tony, efetivamente ele é português. Mas para aqueles que nos leem e eventualmente possam ser cépticos, deixamos abaixo uma imagem do cantor, na qual se pode vislumbrar a sua alma e o seu coração e perceber que ambas são e sempre serão de Portugal. É ver.



Mais uma vez, todos os que não são totós, já terão entendido que estávamos a ser irónicos e sarcásticos, por muito boa alma e o coração que tenha o Tony, as suas canções não valem nada.

Nunca aparece nenhum crítico na TV a dizer que, em termos melódicos, as canções do Toy e do Tony são uma treta. Em termos de letra, são pouco menos do que ridículas. Que as canções destes dois senhores sejam populares em Portugal, só pode ser porque os portugueses que os ouvem têm um péssimo gosto musical ou são duros de ouvido.

E pronto, afinal sempre nos atrevemos a dizer mal de Portugal. E já que lhe tomámos o gosto, seguimos em frente, pois a canção que levámos este ano à Eurovisão, também não era lá grande coisa, ficam a saber.

O que é que foi? Estão a olhar para o quê? Não se pode dizer mal de Portugal, é isso? Mas querem o quê? São vocês que mandam? Isso é que era bom! Querem luta é? Venham de lá, julgam que temos medo? Quantos são? Quantos são? Ah…vão-se embora, fogem, pois claro, é só garganta. Isso, isso, vão andando que nós já vamos lá ter. Totós!

Ponham mas é os olhos na Suécia. Em 1975, um ano depois de os ABBA terem vencido o Festival da Eurovisão, 200.000 suecos manifestaram-se nas ruas de Estocolmo contra a dita banda.
Protestava-se então contra a mercantilizacão da música popular e da consequente mediocridade a que isso conduz. Reclamava-se também, que géneros menos divulgados como o folk ou o jazz, tivessem mais atenção por parte das rádios e da televisão. Em síntese, era um comício pedagógico.

Muitos dos manifestantes vinham armados com flautas, violinos e outros instrumentos musicais. Aqui fica uma imagem desse dia do já distante ano de 1975 em que as ruas de Estocolmo exigiram que as instituições educassem musicalmente o povo. Aos manifestantes tanto lhes fez que os ABBA fossem suecos, a sua luta era pela educação da nação e não pelo orgulho nacional.



E com isto damos por terminada a nossa missão pedagógica, cujo objetivo era dizer mal de Portugal, mas não o fazer repetindo os lamentos habituais das mesas de café, do interior dos táxis ou da porta das mercearias.

Gostaram? Querem mais? Pois então cá vai, a Suécia tem muito melhores hospitais, tribunais, transportes e outras coisas mais que Portugal. E mesmo para acabar, a Argentina tem paisagens mais lindas que as do Minho ou do Alentejo e o Messi foi sempre muito melhor jogador que o Ronaldo.

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