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Vamos lá à bola com os rankings das escolas


E quando estávamos quase a chegar ao fim da semana, como habitualmente nesta época do ano, nesta passada sexta-feira voltaram os rankings. As televisões fizeram os mesmos comentários de sempre, ou seja, as escolas privadas ganham e não há públicas nos primeiros lugares da tabela.

Nalguns jornais há análises muito mais finas e complexas do que essas, que explicam perfeitamente que o valor do trabalho realizado nas escolas não se mede somente pela posição que ocupam no ranking.

Na verdade, jornais como o Público, o Expresso ou o Observador, para só citar uns tantos, apresentam gráficos interessantes, estabelecem comparações coerentes e inclusivamente usam critérios mais sérios e diversos para analisar os resultados, como por exemplo, um ranking de superação e indicadores que identificam quais as escolas que ajudam os alunos mais vulneráveis a ir mais além.

O que todos esses artigos nos jornais nos demonstram, é que quem concebe os telejornais nas TV’s é preguiçoso, pois nestes as notícias sobre os rankings escolares limitam-se a dizer obviedades e a transmitir lugares comuns ano após ano, sem nada mais acrescentar.
Se nas televisões fossem investigar, como fizeram os jornais, talvez chegassem à conclusão que muitas escolas públicas ultrapassam as privadas em superação, e que são igualmente muitas as públicas, que mais ajudam os alunos vulneráveis a ir mais além.

Em síntese, para se ter perspectivas amplas e profundas sobre determinados assuntos é imprescindível investigar e estudar, e não tão-somente papaguear frases feitas e clichés óbvios.
O problema é que as TV’s influenciam muito mais a percepção que a nação tem sobre educação do que os jornais, e assim sendo, a opinião pública fica com uma ideia destorcida e desfocada do que se faz nas escolas e de quais são efetivamente as piores e as melhores.

Enfim, enquanto as televisões não se decidirem a fazer um melhor trabalho sobre os rankings escolares, e apesar dos os jornais já o fazerem, o que vai continuar a dominar o espaço mediático é a contínua e constante repetição do mantra “as escolas privadas ficaram nos lugares cimeiros do ranking”, e pouco mais do que isso.


Nós vamos agora fazer-vos uma analogia, que é algo, que é sempre giro de se fazer. Uma analogia com futebol, pois claro está. O futebol é um outro assunto do qual no telejornais muito se fala, e quase sempre mal.

Quem nos lê, poderá neste instante pensar que estávamos nós aqui a ter uma conversa tão interessante e intelectual, centrada num tema tão importante como a educação e que de repente, assim do nada, passamos para um tema tão corriqueiro e banal como o futebol.

Nós somos assim, confundimos o vulgar e o intelectual com imensa facilidade, mas dito isto, a realidade é que o futebol é uma metáfora da vida. E se é uma metáfora também pode muito bem ser uma analogia, embora sejam coisas diferentes.

Citemos o escritor existencialista francês Albert Camus (1913-1960), Prémio Nobel da literatura em 1957: “Tudo o que eu sei sobre a vida devo-o ao futebol. Aprendi que a bola nunca vem até nós por onde a esperamos. Com o futebol aprendi a ganhar sem me sentir um deus e a perder sem me sentir um lixo".

Não sei se porventura já estarão a ver onde queremos chegar. Ainda não? O que queremos dizer é que, quando por esta altura do ano os telejornais anunciam os rankings escolares, as notícias são dadas de uma forma que fazem das escolas privadas entidades divinas e do ensino público uma autêntica miséria. Provavelmente, os senhores jornalistas das TV’s nada sabem da essência do futebol e nunca leram Camus.

Abaixo, uma imagem de Bill Shankly, o lendário treinador do Liverpool FC, clube em cujo estádio em todos os jogos se canta “You’ll never walk alone”. É um hino de sempre, que reafirma o credo de que ali ninguém fica para trás ou é excluído, nem mesmo os mais vulneráveis ou com maiores dificuldades.
O mítico e venerável estádio de Anfield Road é um lugar de todos e para todos, um sítio do povo, e não um daqueles estádios modernos e finos que existem agora pela Europa, em que só os ricos e os Vip’s têm direito a lugar. Em certo sentido, Anfield, é como a escola pública.


Continuemos no futebol. A empresa de consultadoria financeira Deloitte todos os anos publica o ranking dos clubes mais ricos do mundo. A essa publicação deu-lhe o título de Deloitte Football Money League.

Percorrendo esse ranking, podemos verificar que um clube como o Manchester City ocupa o primeiro lugar, sendo as suas receitas da ordem dos 825,9 milhões de euros anuais. O Paris Saint Germain está em terceiro, arrecadando verbas por ano que rondam os 801,8 milhões de euros.

Escolhemos estes dois exemplos, porque ambos são clubes que desde há uns tempos para cá, conseguem pagar ordenados multimilionários aos seus jogadores e, por consequência, atraem os que melhor sabem dar chutes na bola.
Os resultados não enganam, na última década e tal, quer Manchester City, quer Paris Saint Germain são quase sempre campeões nos seus respetivos países.

Durante décadas e décadas, nem um nem o outro clube tinham grandes resultados, eram até bastante modestos, chegando um deles a andar pela segunda divisão. O que em seguida aconteceu, foi que os senhores do petróleo vindos do médio oriente os compraram.
A partir desse momento, o dinheiro nunca faltou e os resultados subiram por aí acima e ninguém mais os conseguiu parar. Era previsível, quando há verbas sem fim para se ter os melhores, os resultados necessariamente aparecem e são bons.
Aqui fica o relatório da Deloitte, para o caso de terem interesse em o lerem:

Mas neste fim de semana não saíram apenas os rankings escolares, por coincidência, a UEFA, organismo responsável pelo futebol europeu, fez igualmente sair agora cá para fora o seu ranking histórico. Ao contrário do ranking da Deloitte, o ranking da UEFA nada tem que ver com dinheiro, mas sim com superação e tradição clubística ao longo dos tempos.

O ranking da UEFA valoriza os que continuamente lutam durante décadas e décadas, sendo que numas vezes vencem e noutras perdem. Não se valoriza o oposto, ou seja, os que obtém excelentes resultados de um dia para o outro, pela simples razão que conseguem atrair os melhores, sendo que tendo-os, é bastante mais fácil ganhar.

Ao longo de quase setenta anos de provas europeias, houve muitos clubes que vingaram e tiveram sucesso não pela força do dinheiro e de comprarem os melhores, mas sim pela força do entusiasmo, dos cânticos e dos gritos de apoio dos seus adeptos, que levavam as equipas às costas e fizeram de certos estádios lugares onde, quando a equipa adversária entrava em campo, já ia meio derrotada.

No ranking histórico destacam-se também clubes que cresceram e venceram não por disporem de avultadas verbas para adquirir jogadores de elite, mas sim porque continuamente formaram jovens desde meninos, para que esses mais tarde encarnassem o espírito e a vontade de ganhar das comunidades que representavam.

É relativamente simples ter logo à partida os melhores jogadores ou alunos e ficar em primeiro lugar, mais complicado é ter de tentar vencer à base do entusiasmo e de pegar nos miúdos, jogadores ou alunos, e dar-lhes de base a formação que não têm em mais lado nenhum.

Só para que se perceba a diferença entre o ranking da consultadoria financeira Deloitte e o ranking histórico da UEFA, saiba-se que no da Deloitte o Manchester City ocupa a primeira posição, no da UEFA o seu lugar é o quinquagésimo primeiro.
Veja-se também o caso do Paris Saint Germain, que no ranking da Deloitte é o terceiro, e no da UEFA o vigésimo sétimo.

Se o futebol é uma metáfora da vida e nós o usámos para fazermos uma analogia, o que daí podemos concluir é que há muitos e diversos critérios para se avaliar o sucesso e os resultados imediatos não são o único, como por vezes se parece crer nos telejornais.

E pronto, com isto terminamos. Ainda vos deixamos o ranking histórico da UEFA para que se entenda, que quando há mais dinheiro, os resultados são melhores, mas que há outros resultados que se podem conseguir e outros sucessos que se podem obter, que não se medem tão-somente por saber quem é que ficou à frente.

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