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Coisas sem importância nenhuma


Nós gostamos de palavras grandes, imensas e intensas, dessas plenas de arrebatamentos e sentimentos, como aquelas que nos aparecem em poemas líricos e românticos que descrevem enlevos, deleites, amores, sofrimentos e dor. Gostamos portanto de palavras quentes e grandiosas, que nos falam de coisas como por exemplo em corpos em fogo, vulcões, explosões, urgentes sensações e luzes de mil cores.

Mas dito isto, gostamos também de palavras humildes e simples, daquelas que se dizem pela rua, que se usam em conversas de café ou que são somente de trazer por casa. Gostamos também de palavras rudes, dessas que os homens usam entre si para falar de mulheres, ou daquelas outras próprias da linguagem de pedreiros e prostitutas.

É de uma poeta de palavras simples, humildes e rudes que hoje vos vamos falar, o seu nome é Bénédicte Houart. Nasceu em 1968, na Bélgica, perto de Bruxelas. Filha de pai belga e mãe portuguesa, teve o francês como língua materna. Em criança veio com a família para Portugal. Aprendeu o português, cresceu, estudou filosofia, deu aulas e de há uns anos para cá faz poesia.

Ao que ela diz no poema “copyright & chocolates”, os direitos de autor que aufere da venda dos seus livros só lhe dão para comprar uns m&ms. Nesse seu poema, a autora refere-se a Álvaro, que no caso é o Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa.
No longo poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos, há uma passagem em que se diz assim: “Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.” Por aqui se vê, que apesar da poesia de Bénédicte Houart ser simples e prosaica, como ela própria o diz, ainda assim é inspirada por grandes poetas, como por exemplo Pessoa.



Talvez alguns amantes de poesia creiam que ela só existe nas palavras grandes, imensas e intensas, dessas plenas de arrebatamentos e sentimentos, mas não. Como um dia disse Sophia de Mello Breyner, a poesia está na rua, o que significa que está por todo o lado, mesmo nos sítios e coisas mais banais.



Numa entrevista questionaram-na sobre como lhe surgiam os temas para os seus poemas, ao que Bénédicte Houart respondeu: “Ouço, sou atenta." Atenta por exemplo ao pedreiro que na rua vê passar uma mulher e lhe dirige uns quantos piropos poéticos, mas que sabe de antemão que as suas palavras não terão nela qualquer eco:

ó boa ó amor ó querida
ah se eu não fosse pedreiro, mas
senhor arquitecto
construía uma catedral no teu coração e
tornava-me sino nos teus ouvidos
sepultava em vida o teu corpo
para que ninguém mais
ah pedreiro sou e minhas mãos
aprenderam das pedras a resignação

Um dos poemas de Bénédicte Houart fala-nos da escola como um elevador social, que é um tema muito querido de políticos, comentadores de TV e articulistas de jornal, isto já não falar de muita outra gente, que adora fazer firmes e sólidas considerações sobre o estado do sistema educativo nacional nas redes sociais e noutros fóruns.
No referido poema de Bénédicte Houart temos um personagem feminino, a quem a mãe, que era uma mulher da má vida, decidiu dar à sua filha melhor vida que a sua, para tal, pô-la a estudar. Olhando às palavras do personagem poético, ficamos com legítimas dúvidas se neste caso o elevador social funcionou ou nem por isso.

a put… que me pariu era a mais linda da rua formosa
eu saí a ela deve ser por isso que mal sorrio os homens perguntam
quanto é
e eu não é nada a put…que me pariu pôs-me a estudar e eu agora
só sorrio e é tudo de graça
e a seguir mostro-lhes o rabo e a seguir as pernas e ponho-me a andar
deixo-os de corpo a abarrotar
de tralha

Abaixo um quadro de 1919 de Ernst Ludwig Kirchner. Se alguém o quiser ir ver ao vivo e a cores terá de ir até Berlim, e mais especificamente, até ao Brücke-Museum.



Como todos os amantes da poesia sabem, desde sempre que os grandes poemas líricos e românticos nos falam de enlevos, de deleites, de amores, de sofrimentos e de dor. Bénédicte Houart também não fugiu a essa ancestral tradição, só que no seu poema relativo a esses temas, introduziu também um outro assunto, a violência doméstica:

liga-me à sua maneira, diz do marido
uma mulher cheia de nódoas negras
ainda ontem me ofereceu
um ramo de margaridas
foi depois desta
e levanta a blusa e aponta
para uma negra na barriga
e antes desta, mostra outra
um ramo de violetas
bem cheirosas, ainda não murcharam
vai variando nas flores para
ver se me mantém entretida
que quer que quer é a vida..

Aqui fica mais um quadro de Ernst Ludwig Kirchner. Este é de 1918 e faz parte da coleção do Los Angeles County Museum of Art.



Na poesia de Bénédicte Houart mesmo um momento tão banal como ir à pedicure, pode revelar-se como sendo poético. Mas pode inclusivamente revelar-se ser mais do que isso, pode ser até metapoético.

Na metapoesia as palavras reflectem sobre si próprias, ou seja, são palavras que reflectem sobre palavras. Qual é o significado e o valor das palavras, a quem pertencem, o que as faz grandes e belas, donde provém a sua beleza, e o que são palavras bonitas.

Poderão as palavras bonitas, que nos arrebatam e emocionam apenas ser ditas por líricos poetas, ou será que uma comum pedicure também as sabe dizer?

a pedicure disse-me que
os meus pés eram bonitos
apeteceu-me saltar-lhe
para os braços, mas
em vez disso, observei-a
não sem admiração
desconhecia que havia tantas
limas para a mesma ocasião
no fim, recusei pagar-lhe pois
o que ela havia dito
não tinha preço
falando, tirou-me uns calos que
há séculos me atormentavam

(aliás, as palavras são de graça
quanto mais beleza
a ninguém pertencem
a ninguém cabe vendê-las)

A obra abaixo em que se vê um magnífico pé é de Tarsila do Amaral. É datada de 1928 e faz parte da Colección Costantini de Buenos Aires.



No início deste nosso texto dissemos gostar de palavras que nos falem de coisas como corpos em fogo, vulcões, explosões, urgentes sensações e luzes de mil cores. Bénédicte Houart também nos fala de tudo isso, contudo, as palavras que usa para o fazer, não são de modo algum grandiosas e quentes, parecem até denotar o contrário, ou seja, uma certa distância.

nem todos os homens que
saem de minha casa saem da minha cama
nem todos aqueles que
saem da minha cama saem de dentro de mim
nem todos os que
saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar
não, nada é tão líquido assim

Ao lermos o poema acima, ficamos com a sensação de que, para a personagem poética, os homens são coisas sem importância nenhuma, ou seja que nela há uma espécie de indiferença e frieza. No entanto, o ponto é outro, é o outono!

É certo que nos poemas de Bénédicte Houart não vamos encontrar palavras quentes, intensas, fogosas e explosivas, não é portanto uma poeta afim aos calores e fulgores do verão, e também não é uma poeta primaveril quando tudo renasce e floresce, e se enche de urgentes sensações e de luzes de mil cores. Todavia, não é igualmente uma poesia fria, invernal.

Bénédicte Houart é uma poeta do outono, não de palavras quentes e fulgurantes como o verão, não de palavras luminosas, bonitas e floridas como a primavera, nem também de palavras cinzentas, frias e gélidas como o inverno.
As palavras de Bénédicte Houart são como o outono, detidas, tranquilas, com leves ironias, pensativas, um tanto ou quanto melancólicas e centradas no presente. Não choram passados, nem carregam lamentos ou arrependimentos. Também não aguardam futuros, nem são grávidas de expectativas, vivem simplesmente no momento.

Um claro exemplo disso mesmo, é um poema no qual Bénédicte Houart nos fala de Deus. Quem nessa poesia nos surge não é um deus de longas barbas brancas, vindo do fundo dos tempos, que num passado longínquo criou o mundo e a humanidade. Não é também um deus que no futuro incerto e distante há de vir instaurar o seu reino, é apenas alguém que é presente, que ao mesmo tempo é tudo e não é nada.

Há tantas criaturas, mas
a minha preferida é deus
de todas tem alguma coisa
de nenhuma, tudo



Aquilo de que este último poema de Bénédicte Houart nos lembra, é de um Haiku, a tradicional forma de poesia japonesa que se centra em sinteticamente captar o momento presente.

Terminamos com trechos de Haikus dedicados ao outono, do poeta Matsuo Bashõ (Tóquio, 1644 – Osaka, 28 de Outubro de 1694)

O deus está longe;              
empilham-se as folhas mortas
e tudo é deserto.
Começo de outono;

Lua cheia, outono —
caminhei a noite inteira
ao redor do lago.
Ao longo da estrada,
ninguém se vê caminhar;
cai a noite de outono.

Cai uma castanha…
Calam-se de súbito os insectos
entre as ervas

Outono  —
empoleirado num ramo seco
um corvo

Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

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