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A Síria é donde vimos, nós os civilizados, e é isso que ninguém diz!



A fotografia é de Palmira, na Síria. Vimos nas noticiários das TV’s que acabou a longa guerra civil nesse país. Nas notícias das TV’s não o dizem, porque os jornalistas de hoje em dia sabem pouco do passado e também não acreditam no futuro. Nas TV’s o passado é como se não existisse e o futuro é inevitavelmente apocalíptico, apenas interessa o presente feito de contínuos escândalos, desastres e calamidades.

As notícias das TV’s não o dizem, no entanto, a Síria não é um sítio qualquer onde havia uma guerra, é um local quase tão velho como o mundo, sendo o exacto ponto onde nasceram e se desenvolveram as primeiras civilizações.

Se uma guerra é grave, uma guerra na Síria, ou seja, precisamente no berço da humanidade civilizada, parece ainda ser uma coisa pior, uma autêntica barbaridade. É como se o nosso passado fosse destruído mesmo diante de nós, as histórias de outrora fossem apagadas e num futuro tivéssemos pela frente somente meras ruínas.

Damasco, a ancestral capital síria, é o berço de mitos, poemas e lendas milenares, que estão na origem de muitas histórias de encantar e das mil e uma noites, que se têm vindo a contar desde tempos distantes até aos dias de hoje.

É de alguns desses contos, relatos e enredos, e da poesia que deles se desprende, ou seja, do que não se fala nas TV’s, que hoje vos vamos falar. Umas são narrativas muito antigas, outras mais recentes. Somos muito transversais, unimos passado, presente e futuro, e por essa razão tanto temos narrações bíblicas doutros tempos, como histórias de banda desenhada de agora.

Abaixo um quadro de Jean-Léon Gérôme, “O Encantador de Serpentes” de 1879.


Comecemos por uma história que ficou para a História e que se passou no caminho para Damasco. Com efeito, foi na estrada de Damasco, que se deu no passado um acontecimento que viria a mudar para sempre o futuro rumo da História.

Saulo de Tarso, que viveu entre o ano 5 e o 67, era um cruel e impiedoso perseguidor de cristãos. Quando um dia viajava em direção a Damasco, Saulo viu subitamente uma imensa luz que o surpreendeu e fez com que caísse do seu cavalo, deixando-o temporariamente sem visão. Essa luz era Jesus.

A passagem bíblica em que se descreve esse momento é a seguinte: “Caminhando ele, ao aproximar-se de Damasco, subitamente resplandeceu em redor dele uma luz do céu; e caindo em terra, ouviu uma voz dizer-lhe: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? Respondeu o Senhor: Eu sou Jesus a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade, e dir-te-ão o que te é necessário fazer. Os homens que viajavam com ele, pararam, emudecidos, ouvindo sim a voz, mas sem ver a ninguém. Levantou-se Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada viu; e guiando-o pela mão, conduziram-no a Damasco.”

Saulo vendo a luz divina converteu-se ao cristianismo, tendo então passado a chamar-se Paulo, foi ele o Apóstolo autor de mais de metade do Novo Testamento. Foi ainda São Paulo que incansavelmente divulgou a nova fé em Jesus por todo o Império Romano e no vasto mundo helénico. Sem o tremendo esforço de São Paulo, o cristianismo mais não seria, do que uma das múltiplas religiões existentes no mundo antigo.

Abaixo um dos mais célebres quadros de Caravaggio, “A Conversão de São Paulo”. A pintura retrata o momento em que Saulo, depois Paulo, cai do seu cavalo na estrada de Damasco.


É pela Síria que passam aqueles dois rios míticos, o Tigre e o Eufrates. São rios que no passado tanto faziam sonhar os grandes Faraós egípcios, como os poderosos Imperadores romanos. O Tigre e o Eufrates, são dois dos três rios sagrados do mundo pelos quais civilizações foram fundadas e arrasadas.
Por eles tantas guerras foram travadas e muitas vezes a paz foi feita. Nas suas margens milhares morreram e amores nasceram e se perderam. O Tigre e o Eufrates são tema de canções, lendas e poemas desde há mais de três mil anos até ao presente.

Por exemplo, Ruy Belo escreveu em 1961 um longuíssimo poema chamado Aquele grande rio Eufrates”. Como dissemos, o poema é extenso, portanto, abaixo deixamos-vos apenas uma pequena mas bonita estrofe:

Dia a dia mal o sol subir pela manhã acima
e alcançar conveniente altura

escreverei em tua honra esse poema a que a tarde virá 
pôr

um ponto final tão rubro como um poente

e chamar-lhe-ei o poema de um dia

Passamos abruptamente da poesia para a BD, mas mais à frente regressaremos aos poemas. Uma das melhores Bandas Desenhadas dos últimos anos intitula-se “O Árabe do Futuro”. Nela o autor, Riad Sattouf, conta-nos a história do seu passado, ou seja, a sua infância e juventude na Síria de Hafez Al-Assad.

Riad Sattouf nasceu em Paris e é filho de mãe francesa e pai sírio. Passou os primeiros anos em França, mas depois foi com a família para a Síria. Tendo vivido primeiro no Ocidente, quando chegou ao Médio-Oriente, olhava para as tradições e costumes das suas gentes, como sendo estranhos e peculiares.

Na cena abaixo, vemos o momento em que Riad, ainda criança, vai visitar a avó e umas suas amigas. Riad repara imediatamente que as mulheres têm a cabeça coberta por véus, constata também, que a avó e as amigas possuem um bizarro fascínio pelos seus dedos dos pés. Mas o mais bizarro, é que os rapazes brincam uns com outros ao murro e à estalada, e fazem toda essa algazarra sob o olhar aprovador das senhoras suas avós.


Após a BD, voltemos então à poesia. Muhammad al-Maghut (1934-2006) foi um poeta sírio, e tal como na banda desenhada de Riad Sattouf “O Árabe do Futuro”, podemos vislumbrar nos seus poemas o que é crescer, a saber, perder certezas, recordar amores e esperar sempre que num tempo por vir voltemos a sentir o que outrora sentimos. Crescer é no fundo, não esquecer que vimos de um passado, temos um presente e esperamos por um futuro:
Como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela

Um outro grande poeta sírio é Nizar Qabbani, que nasceu em Damasco em 1923 e faleceu em Londres em 1998. A sua poesia diz-nos que há saberes vindos do mais longínquo passado, que nos constituem e não necessitam de nos ser ensinados. São saberes primeiros que nos fundam, e que mesmo sendo originários do início dos tempos são sempre presentes. Saberes que guardam em si, a promessa que no futuro assim o continuarão a ser e que daqui a muito tempo os peixes ainda hão de nadar, os pássaros voar e as gentes amar:

Eu não sou professor
Para te ensinar a amar,
Também os peixes não precisam de um professor
Que os ensine a nadar
E os pássaros de professor
Que os ensine a voar.
Nada pelos teus próprios meios.
Voa pelos teus próprios meios.
O amor não tem manuais
E os maiores amantes da história
Não sabiam ler

O maior e mais conhecido escritor em língua árabe é o poeta sírio Adonis, que é recorrentemente indicado como um potencial vencedor do Prémio Nobel da Literatura. Nasceu em 1930 e os pais chamaram-no Ali Ahamed Said Esber, mas ele escreve, sob o pseudónimo Adonis, estrofes como a que se segue e que não escondem o imenso anseio pelo futuro, por isso nos diz, “Se ela viesse”:

As árvores dormitam ao redor do meu quarto
E o meu rosto
É uma maçã
Meu amor
É uma almofada, uma ilha…
Se ela viesse
Se ela viesse
Damasco
Fruto da noite, ó lugar de descanso.

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