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Num dos melhores livros do ano, fala-se de escola e é lindo de se ler!



É por esta altura que saem as listas com o melhor do ano, não há jornal ou revista que não as publique. Nós fomos dar uma vista de olhos a umas quantas, com o objetivo de descobrir, qual foi para jornalistas e críticos o melhor livro do ano.

O nosso campo de pesquisa limitou-se aos autores portugueses, não a todos, mas apenas aos que escrevem ficção. A revista Visão fez uma lista dos melhores livros de 2024 escritos em português. O primeiro lugar é ocupado por um livro de Chico Buarque, que é brasileiro, o segundo por um de José Gardeazabal, autor que tendo nascido em Portugal é mais nómada e poeta do que outra coisa qualquer, e o terceiro posto pertence a um livro de Tatiana Salem Levy, autora que por acaso nasceu em Lisboa, mas que logo aos nove meses foi para o Brasil e por lá ficou.

No quarto lugar encontrámos então uma obra que corresponde aos nossos critérios de busca, ou seja, um livro de ficção de um português. O dito livro é “Toda a gente tem um plano” e o seu autor chama-se Bruno Vieira Amaral. Aqui fica a lista da Visão:


O jornal Público também escolheu os melhores livros de ficção de 2024, só que neste caso, a lista mistura obras de autores de todas as línguas e nacionalidades. No primeiro lugar está um livro de contos de Luísa Costa Gomes, e no segundo posto aparece-nos novamente o romance de Bruno Vieira Amaral, “Toda a gente tem um plano”.


Posto isto, consultámos mais umas listas com os melhores livros de 2024 e verificámos que em grande parte delas nos surge o nome de Bruno Vieira Amaral e do seu romance “Toda a gente tem um plano”.

Mas quem é Bruno Vieira Amaral? Para quem não sabe informamos que nasceu em 1978 no Barreiro, é licenciado em História Moderna e Contemporânea e em 2013 recebeu o Prémio de Livro do Ano da revista Time Out, o Prémio PEN Narrativa, em 2015 recebeu também o Prémio José Saramago. Em síntese, é um autor com um já considerável currículo.

Nós acompanhamos a obra de Bruno Viera Amaral desde o seu início, e fazemo-lo porque os seus livros nos falam de rapazes e raparigas, e também de homens e mulheres, que não são dados a ter pena de si próprios. É gente para quem desde pequenos a vida é dura, logo a começar pela escola. Gente que perante as dificuldades que sente não tem nem nunca teve à sua disposição o auxílio de psicólogos, terapeutas ou apoios. É gente, que mal ou bem, aprendeu a aguentar-se.

Na verdade, é gente que nem sequer lhes passa pela cabeça recorrer a ajudas ou beneficiar da solidariedade de almas caridosas, fazem-se à vida, suportam as suas agruras e vivem intensamente as suas alegrias, por raras que estas sejam, sós.. Em resumo, é gente que aprendeu a ter um plano e a não se fiar nos planos dos outros, por muito bem-intencionados que esses possam ser.

Bruno Vieira Amaral traz para a literatura tais personagens, que não costumam aparecer em romances e obras de ficção ou, se porventura aparecem, é sempre como uns pobres coitados, dignos de pena e cuidado.


Nas escolas fazem-se sempre inúmeros planos para se tentar ajudar os alunos com dificuldades de aprendizagem ou outras. Os ditos planos contemplam inevitavelmente uma miríade de estratégias e mais uns tantos apoios acrescidos ou especiais, sendo que, não raras vezes, o resultado de tudo isso é nulo, ou perto disso.

O que muitos professores e pedagogos não sabem nem sequer desconfiam, é que bastantes desses alunos com dificuldades de aprendizagem ou outras, desde muito cedo que têm eles mesmos um plano.
Muitos desses alunos sabem ou intuem, que por muitos planos que se façam, a escola não vai fazer nada por eles, consequentemente, terão de ser eles próprios a construir e a levar avante os seus planos.

Vem tudo isto a propósito, de no romance “Toda a gente tem um plano”, haver um capítulo em que o personagem principal, agora já adulto, reflete sobre a sua passagem pela escola enquanto criança.

Dito isto, o que nós agora vamos fazer, é transcrever as passagens mais significativas desse capítulo. Cremos que são suficientemente esclarecedoras e não necessitam que lhes acrescentemos as nossas palavras.


“O que aprendeu na escola? Nada. Quando saiu pelo portão pela última vez para nunca mais lá voltar, mal sabia escrever. Nunca decorou as casas e os trajes típicos de cada região, as atividades económicas predominantes, o clima, as capitais de distrito, o nome dos rios…”

“O que aprendeu na escola, afinal alguma coisa aprendera, é que aquilo não era para ele nem para os da sua estirpe - os que reprovam ou tinham dificuldades de aprendizagem, problemas de compreensão, como o Sandro, com a sua cara obtusa, olhos remelosos, braços peludos que lhe valeram a alcunha de lobisomem, o Ricardo, possuído por uma agitação constante, à beira de explosões nervosas, que desatava aos gritos quando alguém o incomodava e quase todas as semanas mijava nas calças por vergonha de pedir à professora para ir à casa de banho…”

“…sentavam-se à parte do resto da turma em duas carteiras juntas, a dos burros, os que davam mais erros nos ditados do que palavras havia no texto, que não sabiam calcular as mais simples operações de aritmética, que pintavam fora dos contornos dos objetos e com cores inusitadas e mostravam uma passividade pasmada e idiota que fazia nascer nos professores a suspeita de que algo de muito grave e insanável se passava naquelas cabeças doentes:”

“…alguns destes tinham uma vantagem. Os pais interessavam-se, iam à escola falar com os professores, eles eram acompanhados por médicos do centro de saúde e, por causa disso, beneficiavam de um tratamento especial. Ele, Calita, não. Era só burro, ninguém ia à escola falar com a professora…”

“…a escola devia limitar-se a dar continuidade à indiferença e à certeza que era um caso perdido, fazendo com que ele se sentisse um peso, um elemento a mais, um animal no lugar errado, e quanto mais depressa saísse dali, de preferência por vontade própria, melhor para a turma inteira, porque a professora ter de se dividir entre a turma normal e o grupo dos atrasados era prejudicial a todos.”

“A professora também era nova, e se a anterior se esforçava por cumprir a obrigação de se dividir pelos dois grupos e evitar que o fosso entre ambos se alargasse, esta, que se chamava Natália e tinha sido deslocada do Norte para uma escola a mais trezentos quilómetros de casa num bairro decrépito e caótico, nunca disfarçou o desdém que nutria por aquele núcleo de inúteis, mal-educados, sentados a um canto da sala e, na prática, entregues a si mesmos.”

“…a professora Natália ensinava com pouca paciência aos miúdos as contas de dividir e as frações, os artigos definidos e os pronomes possessivos e procurava, mais do que estimular, conter e regular os instintos deles em atividades físicas e de expressão artística.”

“Agarrava-se então às poucas boas memórias que lhe sobravam dos tempos de escola, o recreio e a atenção de uma das contínuas, a D. Constantina, a mais velha de um pequeno e desmotivado exército, que lhe dava sempre um pacote de leite achocolatado a mais…Queria acreditar que, se todas as contínuas e professoras tivessem sido tão amáveis e gentis quanto a D. Constantina, a sua vida poderia ter sido diferente, poderia ter ido um pouco mais longe na escola, pelo menos o suficiente para não sair de lá no estado de semianalfabetismo em que se encontrava.”

E pronto, por aqui terminamos, com estas passagens, que constam num dos melhores romances de 2024.

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