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Deixa-me rir…



É o julgamento do ano, nas mesas de cafés e restaurantes, nas ruas e avenidas, nas Tv’s e jornais, não se ouve falar de outra coisa, Joana versus Anjos. A nação divide-se, há quem esteja com ela, há quem os defenda a eles. O caso é grave, fala-se de liberdade de expressão, de censura e de democracia, de ataques de acne e de derrames oculares.

As verbas envolvidas são grandes e todos têm a sua opinião, amigos trocam argumentos e entram em confronto, famílias debatem e discutem, vizinhos discordam, as redes sociais estão ao rubro e personalidades públicas dos mais diversos sectores não se eximem de vir a público explicitar o seu ponto vista. Em resumo, é uma festa.

Como não podia deixar de ser, tivemos de começar este texto a falar sobre este tema, pois que é o assunto do dia e interessa a toda gente, mas dito isto, vamos mudar de tópico, ou, se calhar não.
Na verdade, o caso Joana versus Anjos suscita-nos considerações literárias, históricas, filosóficas e até religiosas e, assim sendo, vamos fazer umas breves divagações a propósito do riso. Ou seja, vamos e não vamos falar da mediática contenda judicial.

No romance “O Nome da Rosa” do italiano Umberto Eco, há um personagem cujo nome é Jorge de Burgos. É um monge-bibliotecário cego, que considera o riso como sendo algo de pecaminoso. Segundo ele, o riso faz com que as gentes percam o medo e, por consequência disso, se ponham a pensar e a duvidar do que veem e ouvem, actividades essas, que o monge crê serem altamente nefastas para qualquer ser humano.

Para o monge Jorge de Burgos, o ser humano não foi concebido para pensar e duvidar, mas sim para acreditar com fé imensa na divindade que o criou. Para que essa crença nunca esmoreça nem fraqueje, é necessário que os homens temam, que sintam o medo.
O temor é o garante da fé, ora se rir faz com que certos receios se desvaneçam, o riso é coisa que não pode ser. É então por isso, que o riso é para Jorge de Burgos um enorme pecado.

Num dado momento da história, Jorge de Burgos repreende uns monges que se puseram a rir de umas gravuras cómicas. O bibliotecário diz-lhes severamente: "Verba vana aut risui apta non loqui" (Jamais digais palavras frívolas ou que possam provocar o riso).

Abaixo uma foto da adaptação cinematográfica de “O Nome da Rosa”, onde vemos o personagem Jorge de Burgos. Tem um ar um tanto ou quanto a atirar para o cómico!


Ao longo da narrativa, o monge-bibliotecário expõe largamente o seu pensamento sobre o riso, explicitando a sua ideia de que o riso nada mais seria, do que uma forma de desacreditar a Igreja matando o temor. E, assim sendo, o riso é um modo de matar a fé, gerando dúvidas. O riso é como uma "desforra do diabo, que revela ao homem que ele não é nada".

Na velha Grécia, Aristóteles (384 a.C. - 322 a. C.) escreveu um livro a que chamou “Poética”. A obra atravessou os séculos e ainda hoje é muito lida e comentada. Trata-se de um tratado em que o filósofo define o que é a arte, a poesia e o teatro, focando-se fundamentalmente na epopeia e na tragédia.

No entanto, há muito quem fale do chamado "Livro Perdido de Aristóteles", que se refere ao segundo capítulo da "Poética" de Aristóteles. O livro perdido teria sido dedicado à comédia e encontra-se desaparecido desde tempos imemoriais.

O romance "O Nome da Rosa" explora o tema da obra perdida de Aristóteles, sugerindo que esta teria sido escondida numa igreja durante a época medieval, isto de modo a que as ideias do filósofo grego sobre o riso, fossem para sempre esquecidas.

Na narrativa de Umberto Eco, seria na biblioteca dirigida pelo monge Jorge de Burgos, o local onde o livro terá sido escondido para toda a eternidade.

A dado passo da história, Jorge de Burgos diz que sua tarefa de esconder o livro aristotélico sobre a comédia tinha uma justificação: "deste livro poderia partir a fagulha luciferina que atearia no mundo inteiro um novo incêndio: e o riso seria designado como uma nova arte.”


O que Jorge de Burgos temia era que a comédia fosse elevada à condição de arte, sendo equivalente aos outros géneros literários e teatrais que constam do livro de Aristóteles, a saber, a poesia, a tragédia e a epopeia. Em síntese, o que o monge-bibliotecário não queria, era que existisse a arte humorística.

Nos tempos da Grécia Antiga, o humorismo existia. Herdámos dos gregos o humor, da mesma forma que herdámos a ideia de democracia e a filosofia. Riso, pensamento e livre participação política são coisas afins, cuja origem é a mesma.

Saliente-se que no tempo dos gregos antigos, havia inclusivamente um muito popular livro de anedotas, cujo nome era “Philogelos”. É o mais antigo livro de humor de que se tem registro.

Vejamos duas das melhores piadas helénicas, ambas com milénios de existência. Comecemos pela primeira: Um indivíduo foi ao encontrou de um outro a quem tinha comprado um cavalo e disse-lhe o seguinte: "o cavalo que me vendeste morreu". A isto o vendedor respondeu desta forma: "juro por todos os deuses, que ele nunca tinha feito tal coisa quando eu o tinha.”

Se já pararam de rir com esta primeira anedota helénica, passemos à segunda: dois homens encontram-se depois de muito tempo sem se verem. Um deles diz: “que estranho, disseram-me que tinhas morrido”, e o outro responde: “bem, podes ver que continuo vivo”, mas o primeiro discorda e replica: “A pessoa que me disse que tinhas morrido é de mais confiança do que tu”.


Feita esta divagação histórica pela Grécia Antiga e pela Idade Medieval, sabemos que o que está em causa na contenda judicial Joana versus Anjos, é algo que atravessa os séculos, ou seja, que há sempre quem queira traçar limites e determinar o que pode e não pode ser dito.

Não foi por mero acaso que a comédia, a democracia e a filosofia nasceram na Grécia Antiga, foi-o porque essas três realidades implicam, ainda que de modo diferente, não ter limites estabelecidos para o que se diz.

Que numa democracia todos os cidadãos possam falar de política, implica não haver limites estabelecidos sobre quem tem o direito à palavra. Que a filosofia possa especular sobre o Ser e o Não-Ser implica que as palavras não sejam limitadas e possam acompanhar e expressar o pensamento. Que a comédia exista, implica que palavras possam ser ditas mesmo que eventualmente ofendam alguém.

Em março de 2023, portanto muito antes de toda esta festa Joana versus Anjos, escrevemos neste mesmo blog um texto intitulado “O direito a não ser ofendido, não existe”. Nessa altura estávamos longe de imaginar que um caso destes pudesse vir a existir em Portugal, no entanto, havia leves sintomas que nos faziam crer que mais tarde ou mais cedo aqui chegaríamos.

Aqui fica esse texto, que se quisermos fazer humor, bem se pode dizer que tem qualquer coisa de profético:

Para terminarmos, Shakespeare. O célebre autor inglês sabia perfeitamente que ao longo da história, não raras vezes existiram limites ao que se podia dizer. Por assim ser, fez com que nas suas narrativas coubesse ao bobo dizer aquilo que não se podia dizer.

O bobo em Shakespeare serve como contraponto à seriedade e ao formalismo da corte. Através do humor, o bobo questiona a autoridade, expõe a hipocrisia e desafia as expectativas sociais. Essa função satírica permite-lhe revelar verdades que outros personagens não podem ou não ousam expressar. 

Os humoristas são os bobos do nosso tempo, que estes nossos bobos não possam aparvoar e dizer as maiores baboseiras, parece-nos coisa estranha, uma espécie de regresso à Idade Medieval, em que gente como Jorge de Burgos associava o riso ao pecado.


Post Scriptum - Achamos pouca graça às piadas da Joana Marques, por vezes lá lhe sai uma ou outra boa, mas no geral são um bocado secas. Quanto ao que pensamos das canções dos Anjos, isso nem vale a pena dizermos, independentemente de todo o sucesso que os rapazes possam ter, é assim muito a atirar para o fraquinho.

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