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Uma poetisa? Não, um poeta-Siza!

 


Há bem pouco tempo, o Pavilhão de Portugal, obra projectada pelo arquitecto Siza Vieira situada no Parque das Nações em Lisboa, foi finalmente reaberto ao público, isto após ter estado longos anos encerrado.


Poderíamos tecer umas quantas considerações sobre por qual razão o estado português despendeu largos milhões para mandar erguer o dito pavilhão e depois o manteve fechado durante tanto tempo. Podíamos falar disso, mas não queremos, vamos antes concentrarmo-nos no sempre belo e poético traço dos edifícios de Siza.

Daqui a muitos anos, quando porventura se fizer a história destas nossas últimas décadas, já ninguém se lembrará das famosas e importantes personagens que agora ocupam a maior parte do espaço mediático, contudo, Siza, esse sim, com certeza que não será esquecido, pois deixa-nos um legado de beleza e poesia que permanecerá pelos tempos afora.

O trabalho de Siza não se restringe ao território nacional, muito longe disso, a sua relevância vai muito para além das nossas fronteiras, estendendo-se até ao outro lado do mundo.
É no longínquo e enigmático continente asiático, que a poesia de Siza se torna mais nítida e explícita, pois adquire por esses lados uma espécie de tom místico. Vejamos três exemplos disso mesmo.

Em 2020 foi inaugurado na cidade de Ningbo, que se situa a sul de Xangai, na China, um Museu de Arte e Educação desenhado pelo arquitecto Siza. A memória descritiva é a expressão com que se designa o documento que contém a descrição das principais características de um projeto de arquitetura. Para que se perceba o quanto o trabalho de Siza se assemelha à poesia e se preocupa com a beleza, atentemos no que se diz do Museu de Arte e Educação de Ningbo:

Um museu deve ser grande. Por dentro.
Um museu deve ser iluminado. Por dentro.
O Museu de Arte e Educação é um pequeno museu, mas imenso por dentro.

Encostado na encosta, sua forma ondulada paira sobre o solo.
É intrigante na sua elegância e mistério.
Nada é óbvio neste pequeno edifício.

O seu volume é igualmente desafiante.
Do lado de fora, ele está suspenso acima do solo enquanto ondula no seu revestimento metálico.
Ele reflete a luz do dia em constante mudança o que faz com que a sua forma se mova e se transforme Incessantemente.

No interior, a calma introspectiva dos espaços expositivos contrasta com o movimento dos visitantes que circulam no enorme vazio.
O tamanho não importa, mas um Museu precisa ter uma Grande Alma.


O segundo edifico asiático de Siza de que vos queremos falar é o Museu Mimesis que se situa na cidade de Paju na Coreia do Sul, um projecto concluído em 2009. Recorramos mais uma vez à descrição “técnica” do edifício, que neste caso incluiu até uma lenda.

Era uma vez um imperador chinês que gostava muito de gatos e, um dia, chamou o pintor mais famoso do Império e pediu-lhe que pintasse um gato. O artista gostou da ideia e prometeu que trabalharia nela. Um ano passou-se e o Imperador lembrou-se de que o pintor ainda não lhe havia dado a pintura do gato. Chamou-o: E o gato? Está quase pronto, respondeu o artista. Passou-se mais um ano, e mais outro, e mais outro. A cena repetia-se. Depois de sete anos, a paciência do Imperador chegou ao fim e ele mandou chamar o pintor. E o gato? Sete anos se passaram,  prometeu e prometeu, mas eu ainda não vi gato nenhum! O pintor pegou numa folha de papel de arroz, num tinteiro, num daqueles pincéis que só se encontram no Oriente e... num gesto elegante e sublime desenhou um gato, que não era apenas um gato, mas sim o mais belo gato alguma vez visto. O Imperador ficou em êxtase com tanta beleza. Ele não se esqueceu de perguntar ao artista quanto cobraria por um desenho tão belo. O pintor pediu uma quantia exorbitante que surpreendeu o Imperador. Tanto dinheiro por um desenho feito em apenas dois segundos, perguntou o Imperador. Sim, Excelência, é verdade, mas eu ando a desenhar gatos há sete anos, respondeu o pobre pintor.

O projeto para o Museu Mimesis é um gato. O cliente não precisou esperar sete anos pelo desenho de um gato, mas Siza desenha gatos há mais de sete anos. Com um único gesto, um gato foi desenhado. O Mimesis é um gato. Um gato, todo encolhido e também aberto, que se estica e boceja. Está tudo lá. Tudo o que se precisa fazer é olhar e voltar a olhar.


O terceiro projeto de Siza no Oriente que aqui vamos referir é um edifico de escritórios, situado na cidade Huai’an na China, obra concluída em 2014.

Um edifício de escritórios é uma coisa séria, todavia, não é por isso que não pode também possuir beleza e poesia. Vejamos o que nos diz a “ficha técnica” deste imóvel.

Como um dragão enrolado e adormecido, o edifício flutua nas águas de um lago. Concreto branco, esquadrias de alumínio, madeira e vidro caracterizam a sua materialidade em contraste com a fluidez do corpo de água que o sustenta. Move-se e exibe assim as suas diferentes formas com uma sofisticada elegância, exposto à luz e às sombras, com cores e reflexos cambiantes. É, como a arquitetura deve ser.


Siza é capaz de captar a essência de um lugar apenas com uns poucos traços. Através de uns quantos e simples esboços, começa logo a projetar algo que só depois será erguido. Contudo, logo nessas primeiras linhas desenhadas, pressente-se e vislumbra-se um edifício que só nesse exacto ponto poderia existir.

Veja-se o caso da Casa de Chá, uma das suas primeiras obras. Da construção fazem parte as rochas e o mar, assim como o vento e as brisas marítimas. O sítio era aquele e não outro que aquele.


O primeiro projeto de Siza fora de Portugal foi em Berlim. Estávamos no ano de 1984 e a cidade alemã ainda estava dividida, havia um imenso muro que a atravessava em toda a sua extensão.

A Siza foi pedido que desenhasse um prédio de habitação numa esquina, num quarteirão do século XIX, no bairro operário de Kreuzberg. O prédio que ali existia tinha sido destruído na Segunda Guerra Mundial e, quase quatro décadas depois, essa cicatriz permanecia.

Um bairro pobre, sombrio e taciturno, numa cidade escura e melancólica. Um bairro de imigrantes, uma zona sem raízes nem tradições, com enormes problemas sociais. Por diante, um duro e sólido muro que dividia famílias, uma vida difícil e muitas vezes implacável. Um lugar cinzento: Bonjour Tristesse.

O nome do edifício que Siza projetou para Berlim era para ser Wohnhaus Schlesisches Tor, o que na verdade não era bem um nome, mas tão-somente a designação da estação de metropolitano mais próxima do prédio. Siza nomeou-o, ao seu edifício, tal e qual como os poetas nomeiam as coisas que veem, chamou-lhe Bonjour Tristesse.

Imaginemos o arquitecto na vez inicial em que construía no estrangeiro, longe do seu país, e logo na soturna Berlim da década de oitenta, num bairro de desenraizados, numa terra de ninguém. Sintamos o efeito da atmosfera cinzenta da então amaldiçoada capital alemã sobre o português que, como qualquer outro português, uma vez longe do mar e da luz solar, estaria ferido pela saudade.

O edifício de Siza em Berlim é isso, a beleza que há na tristeza. Lânguido, cinza e magoado. Sim, uma bela poesia.



Regressemos ao início deste texto, ao Pavilhão de Portugal. Nele podemos ver a horizontalidade do mar e também a nitidez da luz solar. Atualmente, ao visitá-lo podemos não só apreciar a poesia da arquitetura de Siza, mas igualmente a poesia dos Lusíadas, pois está lá patente uma grande exposição dedicada aos quinhentos anos de Camões. 

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